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outubro 29, 2007

Friscos

Nem pensar em dizer que a claustrofobia acabou. Mas agora acho que posso dizer que eu a dominei, ao invés dela me ter nas mãos. Consegui voar treze horas em avião grande (até Dallas) e em avião pequeno (até São Francisco) sem dar piti. Não vou dizer que tenha sido fácil, até pra não desprestigiar minha conquista, mas deu pra encarar sem grandes traumas. O trauma maior é a dor muscular daqueles bancos diminutos.

São Francisco a princípio me pareceu bonita demais. Limpa demais. Estética demais. Politicamente correta demais. Até...

Até hoje, quando fomos conhecer mais de perto o bairro latino. Mission merece uma visita. De nariz tampado, como quando subimos certos viadutos de São Paulo. Mas me deu uma boa sensação. Devo ser meio tarada, mas o cheiro de mijo mesclado ao de comida fast-food me traz a sensação de estar em casa.

Não na MINHA casa, é claro, porque sou boa dona de casa, bem limpinha e coisa e tal, além de vegetariana. Mas de estar no centro, naqueles lugares onde me reconheço. Comemos uma tortilla maravilhosa, vegan até certo ponto, num mexicano padrão. Sempre pensei que aquele bigode a la Cantinflas fosse estereotipado, até conhecer os mexicanos daqui.

De bonito mesmo, pelo menos na minha opinião, só os negros americanos depois dos 60, 70 anos. Gatíssimos!

Temos planos de tanguear por aqui. Umas duas ou três milongas, porque eu já ando em crise de abstinência. Depois eu faço uma avaliação.

Hasta la vista. Bye.

outubro 23, 2007

vou...mas volto!

A mala está pronta.( mas ninguém pense que vai se livrar de mim assim tão fácil. Continuarei escrevendo de lá)
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A traição das elegantes,do Rubem Braga

Minhas mulheres e meus homens,do Mário Prata

Memórias gastronômicas, do Alexandre Dumas!

O paraíso na outra esquina, do Mário Vargas Llosa

Subúrbio, do Fernando Bonassi

4 ou 5 livrinhos de Palavra Cruzadas, só da Coquetel porque da Recreativa me deixa nervosa,

Rivotril

Mix homeopático de valeriana, camomila e passiflora

Almofada para cabeça não cair ( ah, se existisse uma pro avião também não...)

Protetor de ouvido pro barulho da turbina não encher o saco

Patuá na mala

Por enquanto é só.
Dessa vez eu consigo!!

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São Francisco, me guarde e me aguarde!!

outubro 19, 2007

o limite do saber

Dizem que o saber não ocupa lugar. Bobagem. Ocupa, atravanca, polui.

Eu lembro de muita coisa da escola. Pra falar a verdade, do cursinho. Fórmulas de matemática, de física. Aquelas que vinham acopladas com algum versinho, com alguma gracinha exatamente pra não serem esquecidas. Por exemplo, eu sei muito bem que minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, seno a, cosseno b, seno b, cosseno a . E daí? Não faço a menor idéia do que venha ser um seno, um cosseno, um log disto ou daquilo. Desde as priscas eras do cursinho, nunca mais – graças – tive que usar qualquer fórmula dessas.

Eu sei que E= mc2. Posso usar isso quando em dúvida sobre qual rumo tomar na vida? Sobre qual tempero usar na lasagna de beringela? Sobre qual direção tomar pra chegar em Santa Bárbara? Não posso. Então essa informação está lá, ocupando espaço de coisas mais úteis pra mim.

Eu sei que the pencil is on the table, e pouca coisa sei mais além dessa informação de crucial importância. Não sei pedir uma salada com educação, em terras do tio Sam. Pior ainda, bater um papo num nível intelectual pouca coisa melhor do que o Tarzan também das priscas eras. Lembram do you Jane, me Tarzan? Pois é. No entanto, foram anos de inglês no ginásio, no colégio, no cursinho.

Sei de cor montes de nomes de pessoas. Anos e anos trabalhando com malas diretas e pesquisas me fizeram ser ótima com nomes, sobrenomes, dados pessoais. Aí eu encontro alguém na rua que me abraça com efusão e não sei de quem se trata. Preciso perguntar constrangida...quem mesmo? Pra daí relacionar. É que eu sou péssima com caras. Daí sim, a pessoa me diz o nome e eu sou capaz de completar com o sobrenome, profissão, endereço, nome de pai e mãe, muitas vezes. E a pessoa fica lá, me olhando agora com cara de poucos amigos: como assim? Então fingiu que não me reconheceu, heim??

É por isso que eu disse: o saber ocupa lugar. Estou agora numa encruzilhada da vida: ou dou reset num monte de informações desnecessárias e corro o risco de ficar com espaço sobrando, uma vez que com a idade esqueço coisa pra caramba, ou deixo essas informações lá, atravancando.

Como minha filha que argumenta que não pode desocupar o guarda-roupa porque ficaria sem nada, mesmo que o guarda-roupa esteja cheio de coisas que não usa. E se não abre espaço, tampouco tem noção de que necessita coisas novas... Até que precise se arrumar pra sair. Daí é aquele grito: não tenho o que usar!

Estou da mesma forma. Limpo a cabeça e corro o risco ou deixo as bobagens lá e me sinto empanzinada de supérfluos.

Que fazer?

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outubro 15, 2007

realismo puro

Quando eu era criança nunca pensei na morte. A vida começava e era um interminável rosário de descobertas. Lembro da sensação de ir dormir sempre pasma com o que havia descoberto no decorrer do dia. Sempre uma coisa nova. Uma coisa que tinha o dom de mudar radicalmente meus pontos de vista.
Meus pontos de vista infantis duravam muito pouco.

Na adolescência eu fui imortal. Como todos os adolescentes. Mas como também era muito medrosa, nunca testei meus limites além do razoável. Digamos que eu tenha sido uma imortal precavida.

Mas foi lá que descobri a paixão pelas coisas e pelos homens, pelos bichos e pelas palavras. Infelizmente também pelo fumo e pelas comidas embutidas. Eu era imortal, não perfeita.

E hoje, bom, hoje não sou mais criança. Dormir não é mais botar a cabeça no travesseiro e abrir os olhos no dia seguinte. Aprender coisas novas demanda mais do que um dia. Estou mais apegada aos meus pontos de vista. Fumar nem pensar e comidas embutidas só em sonhos. Sonhos de chinchulin.

E imortal nem na academia de letras.

Pelo menos não com estas aqui...

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outubro 11, 2007

telinha

Da primeira vez que vi uma televisão, estava na calçada, diante de uma casa da minha rua. Não, não estava passando ou brincando na calçada, não! Estávamos eu e mais a rua toda, postados na calçada diante da janela da sala, generosamente aberta pelos donos da invejada TV para que nós, pobres sem-TV fizéssemos isso mesmo: compartilhássemos um pouco daquela maravilha. Eu ainda morava na Lapa, de onde saí com seis anos, portanto devia ser das primeiras TVs de São Paulo. Não me peçam mais números que esses poucos já me confrangem. Quanto tempo! Como a TV está velha ...

Não muito tempo depois, tivemos a nossa: Stromberg-Carlson! Mais que uma marca de televisão, um palavrão impronunciável. Enorme, cheia de luzinhas atrás, onde havia o “tubo” e onde eu era terminantemente proibida até de chegar perto. O “tubo”, dizia meu pai e o técnico que vinha consertá-la de vez em quando, era a “alma” da TV.

Mais algum tempinho, uma garotinha da escola primária, disse-me que a dela era colorida. Hoje sei que isso era impossível naquela altura, mas na época a inveja- novamente esse sentimento corrosivo- me doeu, em pontadas. Perguntei como. A garota, de uma perversidade ou ingenuidade – nunca soube precisar- disse que era só apertar os olhos que as cores vinham, lindas!

Passei os próximos dias depois dessa revelação apertando meus já apertados olhos de míope na frente da tela. Depois de um certo tempo, de fato, vinham-me cores aos olhos. Vermelhas. De tanto apertá-los. Até que algum adulto da casa me acalmou as pontadas de inveja e disse que aquilo era impossível.

Mais alguns anos depois, vendiam-se na feira e nas lojas tipo americanas umas telas de acrílico colorido, pra botar na frente da TV e ter “ TV a cores”. Junto das capas de sofá, de capas de botijões de gás e de capas de máquina de lavar, a invenção mais brega do planeta. Tá bom, eu detesto capas, mas que aquilo era brega, era!

Nunca compramos, em casa. A gente era cult. Gostava de branco e preto.

E finalmente, colorida mesmo, só muitos anos atrás, numa copa do mundo qualquer, onde a gente não aguentava mais todo mundo reclamar da branco e preta.

A copa do mundo? Sei lá. Não gosto de futebol.

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outubro 9, 2007

limbo

Quando eu era pequena e fiz primeira comunhão, tive antes que fazer um tempão de catecismo. Aí aprendi que limbo era um lugar onde as criancinhas não batizadas deviam ficar até sei lá quando. Uma espécie de sala de espera de não sei o quê. Nunca me preocupei muito com isso, uma vez que eu era batizada e tinha certeza que com o montão de pecados que carregava nas pequenas costas de oito anos, eu iria mesmo é pro inferno.

Depois veio um papa e disse que não era nada daquilo. Bom, eu já era grande e esse tipo de coisas me interessava menos ainda. Eu, adulta, deixei de me preocupar com céu e inferno, passando a ter preocupações mais momentâneas. O aqui e agora ganhou espaço. O depois, bom o depois eu “penso amanhã”, seguindo minha gurua de “e o vento levou”.

Mas limbo é aquilo que eu chamo de transparência real. Por exemplo, eu estou numa idade-limbo.

Ainda não tenho sessenta anos, o que me daria direito a meia entrada em cinemas e teatros, a carteirinha de idoso nos ônibus e a reivindicar sentar nos bancos amarelos.

Poderia me aposentar por idade – que aliás é a única maneira de me aposentar- e ter preferência nas filas de banco e supermercados ( quanta vantagem...).

Mas ainda não tenho sessenta. Então tomo ônibus e venho em pé, carregando um mundão de sacolas. Ninguém me dá lugar.

Enfrento supermercado cheio e quando tento a fila dos velhinhos a moça me olha feio e diz que só com RG provando idade. E fico vendo aquela fila enorme cheia de mocinhos e mocinhas carregando seus velhinhos como quem carrega um salvo-conduto, todos passando na minha frente...

Então sinto na pele o que aquelas criancinhas de antigamente que morriam sem ser batizadas deviam sentir no limbo. Aquela espera interminável por sabe-se lá o quê, um São Jorge vindo resgatar a todas com seu cavalo branco, um São Pedro com uma enorme chave na mão, até mesmo um anjo de baixo escalão mas que tenha uma resposta a dar.

A burocracia emperra o mundo.

E o céu também.

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outubro 3, 2007

pior seria nada

No vidro de um carro que eu chamo de NP (nada a perder), vermelho, década de 60, um adesivo colado letra a letra, tortinho como o carro: Pior seria nada.

Fico pensando no que poderia querer dizer aquilo. O primeiro pensamento, lógico, é a resposta aos meus comentários internos: aquilo anda! E andando pelas ruas, é melhor que nada. Será isso mesmo?

Já escrevi a esse respeito por aqui. Onde moro, quase divisa da cidade lado sudoeste, pululam os NPs. De todas as cores e formatos. Cortados pra virarem transporte de recicláveis, de engradados de feirantes, de ovos, de pamonhas de Piracicaba...

Mas aquilo anda. E andando, além do trabalho diário, pode carregar a família, como tenho visto tantos fazerem, aos finais de semana. Ou carregar os amigos pro jogo de futebol. Ou a criançada prum passeio.

De vez em quando aquilo pára. Mas quem liga? Desce todo mundo – e é mesmo um mundão que está lá dentro – e empurram a coisa. E pur si muove!

Leio agora que vão instalar chips nos carros pra controle. E antenas pra detectar os chips e verificar os carros irregulares. Entendo a medida. Parece até lógica e moderna. Carros velhos e irregulares poluem, atravancam o trânsito.

Mas e os “pior seria nada?” E as famílias que têm nesses NPs que circulam na periferia seu meio de transporte dominical? Seu meio de trabalho diário?

São pobres e feios, dirão alguns. As pessoas e seus carros.

Seus NPs, seus “pior seria nada”.

Aqueles que do nosso lixo fazem seu meio de vida.

Chips pra arrecadar mais impostos. Pra combater irregularidades.

E quando alguém perceberá que a irregularidade maior é tanta pobreza?

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