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setembro 26, 2007

dia dos pés

Pés. Tenho dois.

Posto isso, vou falar deles, por que não?! Se de cabeça, que só tenho uma, eu falo pra caramba, por que não falar dos pés, que me sustentam, que me carregam, que vão pra onde eu mandar, quer queiram, quer não?

Não são exatamente uma jóia. Nem mesmo bijouterie, daquelas baratas. São razoáveis em sua função.

Quando meu encantador mas pouco delicado marido me conheceu, naquela fase de namoro em que os dois acham o outro a oitava maravilha, ouvi dele que se quisesse ficar rica devia vender meus dedos dos pés a metro, na feira.

Podia ter rompido o namoro ali, na hora.

Não rompi. Namorado bom é difícil de achar.

O tempo mostrou que fui ajuizada. Marido bom é mais difícil ainda.

Mas nunca esqueci aquelas palavras.

E no entanto eles são razoáveis. Magros, sem joanetes, uns dois ou três calos, mas qual mulher não os tem?

Já caí algumas vezes na vida. Nunca, porém, devido aos pés. Por culpa de prefeitos incompetentes, de tornozelos ídem, de encontrões com gentes e animais desavisados algumas vezes. Nunca, porém, graças aos meus pés, sempre fincados no chão, como compete.

E nesta semana, talvez no intuito de homenagem, sei lá, às minhas bases, pintei as unhas (aquelas dos dedos grandes) de rosa bebê e comprei uma palmilha de metatarso ( depois de anos de tango, finalmente resolveram se fazer notar). Eles merecem, meus pés.

E ainda fiz este post.

Quanto ao marido, esse devia beijá-los, os meus pés. Porque a mulher que eles carregam é muito, muito legal. E nada modesta.

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setembro 21, 2007

vida de leitora

No começo da minha vida de leitora, meus critérios eram: capa bonita e figurinhas dentro. Onde por capa bonita entenda-se “cheia de cores e formas” e figurinhas dentro, fotografias e/ou desenhos. Eu fazia campeonato de capas, tirava todos da estante e punha de volta de acordo com as capas. Como em casa comprava-se (meu pai) muitos livros e lia-se pouco, acho que ninguém ligava muito pra essa minha “desarrumação” ou esse meu critério ultra-subjetivo e pouco literário.

Depois que aprendi finalmente a ler (nunca nada nesta vida me pareceu demorar tanto quanto aprender a ler!), aí meus critérios passaram a ser outros. Se nos livros havia muitos diálogos ou não. Livro sem diálogo eu não gostava de ler. Querem saber? Até hoje. A coisa que eu mais invejo em quem escreve é saber construir um bom diálogo, com a naturalidade com que se fala.

Voltando, não me importava muito o tamanho dos livros, nem o assunto, desde que houvesse diálogos.

E linguagem coloquial.

Eu execrava os livros de sociologia e psicologia que tive de ler na faculdade e na militância política. Os de psicologia ainda eram mais interessantes. Ambos falavam de gente. Mas os de sociologia e política, quase em sua maioria, falavam de uma maneira pernóstica, carregada de termos específicos, de frases em que a gente tinha que sair correndo pelas páginas atrás do sujeito e só ia encontrá-lo muito adiante. Aí tinha que voltar porque já não se lembrava do que se falava.

Isso também não é legal: frase comprida. Por isso de vez em quando faço isso ao contrário. Curtas demais.

Se o livro era grosso ou não, não me importava. Li Cem anos de solidão como se fosse recado pregado na geladeira: num piscar de olhos. Nem lhe senti o tamanho. Só a grandeza, no bom sentido.

Já o Ulisses não deu. Não dá ainda. Acho que nunca vou conseguir.
Pra falar a verdade, já parei de tentar faz tempo.

Outros existem em que o tamanho me incomoda. Os muito curtos. Os do Luiz Vilela, do Trevisan. Acabam logo. Fica um gosto de quem só fez a prova e o resto não vem. Um espécie de ejaculação precoce literária. Rápidos demais.

Ultimamente ando comprando livros de humor. Estou tentando fazer uma biblioteca pra ler quando for viajar de avião – nem quero lembrar- por 13 horas, em breve. Preciso de algo relaxante, divertido. Já comprei quase uma dezena e não consigo guardá-los pra viagem: já li todos. Talvez precise reformular esse critério. Quem sabe um livro bem chato, mas tão chato que eu prefira tudo, até avião balançando, a ler o diabo do livro.

Agora sim, talvez seja a hora de eu tentar de novo o Ulisses...

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setembro 18, 2007

a casa da frente está fechada

A casa da frente está fechada. Há meses. Não mora lá mais ninguém. No entanto, tanta vida continua por lá!

O inverno, que nem se podia chamar de inverno já foi e os abacates do abacateiro também. As crianças subiam no muro pra pegar os mais visíveis. Os outros as maritacas devem ter comido. Ou os sabiás. Ou os bem-te-vis. Ou os pintassilgos. Por aqui há toda uma passarada, de dia até de noite. De noitão, de forma meio lúgubre, tem uns que parecem gaivotas mas não devem ser. Até porque o mar mais próximo está a 100 km daqui.

As plantas do jardim, com a chegada da primavera, estão cada vez maiores e mais verdes. E as folhas secas que cairam pra dar lugar a outras novinhas e verdes, acumulam-se pelo chão de cimento, sujo das chuvas, da falta de limpeza, da falta de gente e bicho.

A casa fica lá, me olhando. Vazia.

Quem será que vai vir morar ali? Uma família? Bichos? Crianças?

Quantas eu já não conheci que moraram ali: única casa alugada de toda a rua. A cada dois ou tres anos alguém vai embora e alguém chega.

Quem virá desta vez?

Tudo, mas tudo mesmo, menos uma pizzaria!
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Foto Ferruccio Ferroni

setembro 14, 2007

descompasso

Eu tive ( e ainda tenho) muitos complexos. Quer dizer, eu achava que eram complexos, porque depois que entendi melhor a definição da coisa, eu tinha ( e tenho) muitas frescuras mesmo.

De garotinha, meu peso nunca me incomodou. Ao contrário: meninas ( e meninos) magrelas podem fazer mais e melhores coisas. Na adolescência começou o sufoco. Na época não era moda ser magra. Por mais que a geração de hoje ache isso impossível! Sim, na época em que eu era adolescente, as Vanderléias da vida, as Martinhas, enfim, a turma toda, era quase gordinha. Com muitas curvas. Nas oficinas mecânicas, a eterna Marilyn competia com a nacional Rose di Primo, um mulherão, que tenho certeza os tiozinhos de sessenta hoje lembram. Ou talvez já tenham esquecido, sessenta é sessenta...

Eu usava duas calças compridas. A de baixo pra “fazer volume”. Se estivesse de vestido ou saia, sempre havia por baixo um saiote (espécie de saia pra usar em baixo, como uma lingerie exagerada). No soutien então, nem se fala. Lenços, chumaços de algodão, enfim, tudo, menos peito.

Casei cedo. Meu marido gostava de ossos, acho eu.

E engordei. No primeiro ano de casada, 10 quilos! Não, não estava grávida, coisa que só foi acontecer sete anos depois. Era a tranquilidade do casamento, acho eu. Bom tratamento, segundo o maridão. Mas engordei tudo isso e cheguei ao peso normal.

No qual estou até hoje, embora a duras penas. Não, nem dá pra falar em penas, que galinha também não ando comendo. A duras sojas, melhor dizendo.

Outra frescura era usar óculos. Morria de vergonha, quatro olhos que sou desde os doze anos. Tanto que usei lente, daquelas de acrílico, quase 30 anos. O suficiente pra me causar uma deformação da córnea.

Hoje está na moda usar óculos. Há de todas as cores e de todos os tipos. Sei de gente que usa sem grau nenhum, só pra jogar um charme.

Pois é, quando eu estou na moda, a moda não está em mim, e quando a moda é a minha, eu já saí dessa...

Um descompasso fashion.

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Esse é eterno. Meu vidro, porém, já acabou...

setembro 10, 2007

magia

Não, tá bom, eu sei que é muito feio enxergar o mundo sob a ótica do “..mas que vantagem.."? Mas não estou falando da vantagem gersoniana ( coitado, pagou caro ele aquela propaganda) mas do fato de se buscar maneiras mais agradáveis de levar a vida. A busca do prazer, com que tento nortear a minha, com pouco sucesso, embora.

Assim, desde pequena, quando via os mágicos, ficava bastante cabreira. Pra que tirar coelho da cartola? A que fim levava isso? Qual a vantagem? Por que coelho e não filhote de raposa, tartaruga, peixe voador? Por que cartola?

Nunca descobri. Nem cheguei a qualquer reflexão filosófica digna de nota com essas perguntas. Mas você já se perguntou isso? Por que coelho? Porque elefante pesa muito? Bom...

Assim também me lembrei agora do Uri Geller. Alguém ainda lembra dele? O cara entortava garfos, colheres, acho que facas também.

Pra que? Alguma raiva incontida do faqueiro da mãe? Alguma conclusão barata freudiana à respeito de símbolos fálicos?

O cara chegava a requintes de mandar botar talheres na frente da televisão pra “entortar junto”! Os talheres, não a televisão. E teve gente que fez. Nunca vi um talher ser entortado dessa forma mas muitas colegas garantiram que fizeram e deu certo. Como desde cedo e como já disse por aqui, sou bastante crédula (ou tonta) eu acreditava. Mas em casa fui proibida de tentar. Éramos sete pessoas e poucos talheres. E minha mãe era brava pra xuxu.

Tem também os mágicos que cortam mulheres ao meio. Esses teriam lá suas vantagens, sei lá, a mulher era chata, qualquer coisa assim. Nunca vi cortarem um homem ao meio. Seriam eles inquebráveis ou incortáveis? Ossos duros de roer? Cintura dura ? Machismo inquebrantável? Sou mais isso aí.

Mágico é ser esquisito mesmo. Esses de circo e de TV. Porque mágico bom mesmo pra mim é aquele cara que vem aqui e conserta o PC quando dá pau. Tira um monte de coisa de dentro, põe outras tantas, cobra os olhos da cara e a coisa funciona.

Ou não.

Com mágico nunca se sabe.

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setembro 6, 2007

achados e perdidos

Quem acha, vive se perdendo...

Tem gente que acha. Meu pai, por exemplo. Achava fios elétricos, barbantes, parafusos, porcas, pregos. Madeirinhas e madeirões. Trazia tudo pra casa, naquela filosofia de “um dia será útil”. Se essa filosofia viesse acoplada àquela outra, a da “reciclemos pra alcançar o reino dos céus”, tudo bem. Mas ele era péssimo com trabalhos manuais. Sem ser manuais também. Então, ele só trazia as coisas, pra desespero da minha mãe. E ficavam lá, atulhando tudo.

Quando ele morreu, passamos mais de uma semana desencavando coisas estranhas que ele guardava pra jogar fora. Nada serviu, afinal. O que servia e muito era ele, mas ele se foi.

Eu, em compensação, não acho nada. E não é por falta de olhar pro chão, que eu adoro andar a pé, apesar das calçadas e ruas esburacadas.

Acho sujeira, pets em geral, papéis de salgadinho, de sorvete, de bala, o que me daria base pra todo um estudo a respeito dos péssimos hábitos alimentares do brasileiro em geral, paulista em particular, morador da zona sudoeste mais especificamente. Mas não tenho tesão nenhum por esse tipo de estudo.

E perco coisas.

Já perdi vários pacotes de presente num ônibus em véspera de natal. Foi trágico!

Perco guarda-chuvas e canetas. E jaquetas. E livros e revistas. E luvas.

Mas não perco a mania de olhar pro chão, na esperança de um dia achar algo que preste.

Um bilhete premiado, uma jóia, um livro do Reinaldo Moraes - estrangeiro em casa- que fala de uma viagem por São Paulo, de sul a norte e que eu não acho em lugar nenhum.

Poxa!!

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