congonhas
Não. Não vou falar de acidentes aéreos nem de caos em aeroportos. Não é o lugar. Não é o caso. Não sou nem mesmo a pessoa, claustrofóbica assumida com viagem marcada pra daqui um tempinho e cag..quer dizer, relativamente empanicada por conta disso. Mas quero falar de Congonhas. Todo mundo fala, por que eu não?
Eu me mudei pro Brooklin (bairro paulista) aos 5 anos. Fui morar há uns dois km de Congonhas. Era assim: minha casa ficava a meio caminho entre a Marginal Pinheiros e o aeroporto de Congonhas. Aos domingos, pra fazer a digestão da macarronada da mamma e pra deixar ela limpar a cozinha em paz, éramos despachados, eu e quem mais estivesse pela cozinha, pra ir “ver o rio” ou ir “ver avião no aeroporto”. E a gente ia. Programão! Vinha parente almoçar em casa só pra ir ao aeroporto depois.
É lindo o aeroporto de Congonhas! Chão branco e preto, escadas de mármore, corrimãos de latão, tudo lembrando estilo art nouveau. Só lembrando, mas já é bem legal.
Podia-se tomar café ou um refrigerante no chiquésimo restaurante de lá. Não nos expulsavam, os garçons. Ao contrário, traziam-nos o cardápio e se afastavam sem cara feia quando pedíamos um café e um guaraná. E era uma vista exclusiva.
Em baixo, no hall, montes de pessoas. Lá fora, nas varandas ao ar livre, outros montes. Uns dois ou três efetivamente se despedindo ou esperando a chegada de alguém. O resto “olhando avião”.
Havia grandes bailes nos salões do aeroporto! Bailes de debutantes, bailes de formatura. Grandes orquestras e grandes roupas.
E as pessoas que viajavam não viajavam como hoje. Usavam salto alto, roupa formal, cabelos cuidadosamente arrumados. As malas eram de couro, finas. Mochila? Só se fosse escoteiro, mesmo assim, não sei não...
Era lindo ouvir aquela voz e aquela campainha anunciando os vôos. Era lindo ver as hélices girando. (hélices! Avião com 4 era o must da época!) Vários e vários filmes, ancestrais dos atuais filmes catástrofe, repetiam cenas de “impacto” em que o mocinho olhava pela janela e via uma das hélices pegar fogo ou parar...Sinistro!
Depois, bem depois, começaram alguns acidentes a ganhar espaço nos jornais. Acidentes emblemáticos, deles me recordo até hoje. Aquele que matou o Rubem Berta, já quase na cabeceira da pista, dando nome à atual avenida de acesso ao aeroporto. E a falência da Panair. Ah, a Panair!
E nem vou falar das aeromoças, fetiche sexual de 9 em cada dez homens. As pernas, as curvas, as roupas, a voz, os olhares.
Como eu quis ser aeromoça em determinada época!
Ixe! A gente é tão criança quando é criança!!
Comments
Hoje estou acabrunhado, pela notícia da perda da companheira do amigo Eduardo do "bloguices":
http://www.edynet.blogspot.com/
A Nela partiu mas ficou o sorriso que um dia me enviou, numa foto que agora recordo, com uma emoção emudecida e respeitosa.
É. também, nestes momentos tristes, que a solidariedade virtual, pode amenizar um pouco o sentimento de perda que um amigo está, neste momento, a sentir.
Posted by: peciscas | agosto 10, 2007 4:30 PM
Peciscas: Solidariedade, mesmo virtual, é um dos mais belos sentimentos que há. Um abraço.
Posted by: maray | agosto 10, 2007 7:31 PM
Você me proporcionou deliciosa viagem no tempo. Morei uma década perto de Congonhas, em Campo Belo, a partir de 1961. Aind a me recordo do Constelation e quando vieram os Caravelles. A foto escolhida...ah, quantas vezes me apoiei naquele parapeito. Maravilha.
Posted by: Roberto Klotz | agosto 10, 2007 11:53 PM
Roberto: fomos vizinhos, quase. E pensar que naquela época me incomodava o barulho que os aviões faziam ao passar em cima da minha casa...hoje parece um ruidozinho de nada...(o que significa que ou os barulhos aumentaram ou estou ficando surda :)
Agora moro num lugar em que a preocupação não é com o que vai pelo ar mas o que vem por debaixo da terra, como o tatuzão do metrô...meda!
Posted by: maray | agosto 11, 2007 12:51 PM
Ai Maray, mesmo a sua descricao nao sendo da minha época, lembrei de qdo era pequenininha e a gente ia visitar minha vó e descia em Congonhas. Como era gostoso. Comparando com agora, parecia até, outro mundo.
Posted by: Fran | agosto 11, 2007 5:24 PM
Maray, lendo o seu post eu estava pensando: acidentes à parte, Congonhas já passou por tanta cirurgia plástica que perdeu o charme dos tempos passados. O que era puro charme trnasformou-se em mero aperto! Algo assim como um terminal de ônibus urbano às sete e meia da matina.
Abs!
Posted by: Ricatdo Montero | agosto 12, 2007 8:02 PM
Nossa... acho que você morava ainda mais perto do que eu moro hoje em dia, HAHAHAHA...
Mas amei a história. Não sabia da origem do nome da Avenida Rubem Berta...
beijocas, finalmente consegui voltar!!!! :-)))
Posted by: Lu Farias | agosto 14, 2007 12:22 PM
Tenho familiares que viveram algum tempo em Africa, Moçambique, que descrevem as idas ao aeroporto, para tomar café e ver os aviões, como V. o fez aqui. Entretanto, concordo que cada vez é menos chique entrar num aeroporto. Montões de gente, mochilas, sovaqueira, etc. Até andar de Metro parece mais romântico, actualmente.
Posted by: Marx | agosto 14, 2007 2:30 PM
Também me lembro do tempo em que, para viajar de avião, usavam-se luvas, chapéu... parecia que se estava indo a uma cerimônia solene. Aliás, naquele tempo havia uma roupa certa para cada ocasião, até roupar preta, chamada "luto" que os parentes mais próximos de um morto deviam usar por alguns meses.
Posted by: Sonia | agosto 15, 2007 2:25 AM
Durante algum tempo trabalhei em Congonhas, numa campanha da empresa. Ainda não existia Cumbica e o vai e vem era muito animado. Lembro de um sujeito que era a cara de Santos Dumont e se vestia como ele. Por onde andará...?
Posted by: Allan | agosto 16, 2007 1:32 PM
Recuerdos bellos me llegan al leerte rememorar estas cosas que también se daban en mi ciudad de infancia Medellín.
Gracias por devolvernos ése tiempo con tus palabras
Posted by: Alvaro Ramirez | agosto 16, 2007 2:18 PM