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agosto 30, 2007

da arte de mentir

pinocchio.jpgEntre outros motivos, me apaixonei pelo meu marido pelo caráter. Tá bom, o fato de ter olhos verdes não atrapalhou o tesão de caráter..quer dizer, o brilho do caráter. Mas ele mente.

Não é exatamente mentir, antes que pensem que ele é o pinóquio de plantão. É assim: ele gosta de dar respostas a tudo que lhe perguntam. Até se está assistindo a algum filme, já reparei, e está posta alguma questão, ele tende a responder. Baixinho, discreto, mas responde. Ele é daqueles que não pode ouvir pergunta.

Mas nem mesmo ele, que sabe bastante, sabe tudo. Ninguém sabe. Mas há os que perguntam tudo. Eu, por exemplo.

Tenho uma memória ruim. Não é da idade, embora já tenha idade pra usar esse álibi. Sempre tive memória ruim pra certas coisas. Então cedo aprendi que existem pessoas que sabem na ponta da língua aquilo que me custa muito guardar. Então pra que guardar? Basta perguntar à pessoa certa. Como fazer backup pra não atravancar a memória do PC. Pelo menos do MEU PC que já vai entrando em anos, como eu. ( eu disse anos, vejam bem)

Então passeando por aí, andando feito peregrinos cumprindo promessa, como gostamos de fazer, vou perguntando a ele tudo que não sei ou que não tive paciência de deixar guardado na memória.

Como é o nome daquela árvore? Como é o nome daquele pássaro? Pra que serve essa coisa? Como se faz praquilo ficar daquele jeito? Enfim, coisinhas que me aguçam a já naturalmente aguçada curiosidade.

Pentelha, segundo amigos sinceros. Espírito indagativo, segundo amigos puxa-sacos. Espírito de porco, segundo minha mãe, que não tinha nem paciência nem tendência puxasaquista.

E o maridão responde. Com firmeza, com presteza, com determinação. Não hesita um segundo.

Com o tempo fui percebendo, principalmente através das gargalhadas de quem estava por perto, que ele faltava com a verdade. Que ele, na presteza de responder, respondia qualquer coisa.
E eu, na presteza de perguntar, me contentava com qualquer resposta. Crédula. Tonta.

Até que uma amiga matou a charada: nada como a complementaridade pra uma relação dar certo: um mentiroso e uma crédula: o par perfeito.

A partir daí venho ficando com uma pulga cada vez maior atrás da orelha. Devo continuar perguntando? Devo checar as respostas? Devo desistir das indagações?

Ou devo trocar de marido?

agosto 24, 2007

que pergunta?!

Leio no ótimo blog do A., uma poesia que gera uma pergunta: fada caga? Sei lá. Sei lá se a fada, enfada e caga. Se há fada. Sei, a fada, ora...!

Bom, mas isso me lembrou coisas. Minha avó, por exemplo. Pra ela ninguém cagava. As pessoas obravam. Interessante isso de comparar este tipo de produto com obras. E eu que costumo comparar certas obras com esses tipos de produto, vejo que minha avó era mais condescendente.

Pra muitas mães seus rebentos não cagam também. Fazem “caca”. Geralmente também não mijam: fazem pis ou pipi. Estranhos produtos esses, as cacas e os pis. Estranhos seres esses, também. Estou falando das mães.

Outros chamam a merda, porque é disso que estamos falando, de “coisa feia”. Deve ser terrível pra esses conviverem com “coisas feias” dentro de si, todos os dias. Ou não.

Freud tinha uma certa tendência de comparar os avarentos com “guardadores de cocô”. Numa leitura apressada e talvez mal intencionada, embora eu seja fã declarada de Freud, ele dizia de como pessoas que guardam seus “produtos” têm dificuldades com entregar suas “riquezas” em todos os sentidos da palavra. O avarento seria, então, um constipado. Acho que o avarento é um grande f. da p., mas quem sou eu?

Enfim, todo mundo caga. Em todos os sentidos. Alguns mais, dependendo do que comem.
Que o diga o Renan, aquele Calheiros.

Voltando às fadas, pensando bem, cagam sim. Não foi uma que, contrariada em seus brios, fez a bela adormecida dormir trocentos anos? E outras, em brigas de quadrilhas, tornaram as noites de verão shakesperianas um verdadeiro samba do crioulo doido? Elas cagam, sim. Como todo mundo.

A essência do universo é essa: todo mundo caga.

Que merda!
fata_che_vola-vivianachiosi.jpg
ilustração Viviana Chiosi

agosto 20, 2007

reforma ortográfica

Vai haver nova reforma ortográfica. Leio sobre os prós e os contras. Me parece bem razoável o argumento de tentar homogeneizar os países de língua portuguesa. Parece razoável isso de igualar os idiomas.

Também sempre me pareceram razoáveis os argumentos dos que acreditavam (am) que o esperanto fosse a língua que uniria os povos da terra.

O que mostra que argumentos os há para tudo. E para todos. E quando se desacoplam os argumentos da realidade, isso deles serem mais ou menos razoáveis não tem a menor importância.

O brasileiro, nosso idioma, de há muito já se distanciou do português de Portugal. Não creio que tenha volta. Mas também nunca acreditei que as saias balonês pudessem retornar e olha aí...

Sem brincadeira, nada me agradaria mais do que unificar idiomas. Já que não podemos unificar todos ( a não ser através do inglês) pelo menos os mais próximos talvez desse. Mas oceanos nos separam, em todos os sentidos da palavra. Em todos os km de distância. Em todas as ondas e “ondas” de modismos e gírias.

Enfim! Aprovada por aqui, a nova reforma ortográfica vai abolir o trema. Eu, que nunca fui capaz de acertar uma no quesito trema, se liquidificador tinha ou não tinha, se os nomes alemães tinham ou não tinham, eu me sinto liberta. Pronto! Agora ninguém mais tem.

Em compensação, como continuar vivendo daqui pra frente sem acentuar a palavra “heróico” ? Como distinguir o “vêem” do veem? Como enfrentar os “estróinas” que perderão a força da sua gastança indiscriminada sem o poderoso acento?

Vai ser difícil.
Eu desisto.

Ainda se fosse pra unificar os países de língua portuguesa, de forma a que meus parcos leitores de Portugal me entendessem completamente e eu a eles, sem precisar recorrer ao Aurélio...mas não sendo assim, pra que?

Só pra aumentar a culpa que eu já sinto em relação às minhas crases ( e à falta delas), aos meus acentos trocados ( pelo menos não troco assentos) e aos meus erros atávicos!
Ora!
linguaportuguesa.jpg

agosto 16, 2007

necessaire

Um pequeno estojo amarelo. De embalagem de remédio pra gripe. Dentro: uma linha cinza, uma linha ocre, uma linha verde escura. Dois alfinetes de fralda. 4 botões: dois brancos e dois pretos. Os tamanhos variam. Um alfinete de pressão e uma agulha.

Uma caixa de fósforos. Daquelas de papel, achatadas.

Um batom cor de boca, comprido como um lápis. Não gosto dele. Por isso ele está lá. Também quase nunca passo batom fora de casa. Por isso boto lá um que não gosto. Sei que não tem lógica. Eu também não tenho.

Um pente de plástico pequeno.

Um lápis de olho marrom. Esse eu até gosto. Mas como disse anteriormente, não me maquio fora de casa. Mas nunca se deve dizer nunca. Nunca mesmo.

Uma escova de dente num estojo azul. Daquelas de montar. Uma porcaria de escova, por sinal. Não tem escova boa em estojo de montar.

Um trim. Pra cortar unha.

Um canivete. Pra cortar fruta.

Pasta de dente pequena.

E é tudo.
Tudo que existe na minha necessaire.
Que fica dentro da bolsa.

Bolsa essa que tem....bom, fica pra outro dia o conteúdo da bolsa.

Tem dias em que não dá pra escrever nada. Muita coisa pra ser resolvida. Muito problema junto. Aí, expor o conteúdo da necessaire ajuda. Parece que dá segurança.

Com uma necessaire dessas, o que poderá me acontecer?

necessaire.jpg

agosto 9, 2007

congonhas

Não. Não vou falar de acidentes aéreos nem de caos em aeroportos. Não é o lugar. Não é o caso. Não sou nem mesmo a pessoa, claustrofóbica assumida com viagem marcada pra daqui um tempinho e cag..quer dizer, relativamente empanicada por conta disso. Mas quero falar de Congonhas. Todo mundo fala, por que eu não?

Eu me mudei pro Brooklin (bairro paulista) aos 5 anos. Fui morar há uns dois km de Congonhas. Era assim: minha casa ficava a meio caminho entre a Marginal Pinheiros e o aeroporto de Congonhas. Aos domingos, pra fazer a digestão da macarronada da mamma e pra deixar ela limpar a cozinha em paz, éramos despachados, eu e quem mais estivesse pela cozinha, pra ir “ver o rio” ou ir “ver avião no aeroporto”. E a gente ia. Programão! Vinha parente almoçar em casa só pra ir ao aeroporto depois.

É lindo o aeroporto de Congonhas! Chão branco e preto, escadas de mármore, corrimãos de latão, tudo lembrando estilo art nouveau. Só lembrando, mas já é bem legal.

Podia-se tomar café ou um refrigerante no chiquésimo restaurante de lá. Não nos expulsavam, os garçons. Ao contrário, traziam-nos o cardápio e se afastavam sem cara feia quando pedíamos um café e um guaraná. E era uma vista exclusiva.

Em baixo, no hall, montes de pessoas. Lá fora, nas varandas ao ar livre, outros montes. Uns dois ou três efetivamente se despedindo ou esperando a chegada de alguém. O resto “olhando avião”.
Havia grandes bailes nos salões do aeroporto! Bailes de debutantes, bailes de formatura. Grandes orquestras e grandes roupas.

E as pessoas que viajavam não viajavam como hoje. Usavam salto alto, roupa formal, cabelos cuidadosamente arrumados. As malas eram de couro, finas. Mochila? Só se fosse escoteiro, mesmo assim, não sei não...

Era lindo ouvir aquela voz e aquela campainha anunciando os vôos. Era lindo ver as hélices girando. (hélices! Avião com 4 era o must da época!) Vários e vários filmes, ancestrais dos atuais filmes catástrofe, repetiam cenas de “impacto” em que o mocinho olhava pela janela e via uma das hélices pegar fogo ou parar...Sinistro!

Depois, bem depois, começaram alguns acidentes a ganhar espaço nos jornais. Acidentes emblemáticos, deles me recordo até hoje. Aquele que matou o Rubem Berta, já quase na cabeceira da pista, dando nome à atual avenida de acesso ao aeroporto. E a falência da Panair. Ah, a Panair!

E nem vou falar das aeromoças, fetiche sexual de 9 em cada dez homens. As pernas, as curvas, as roupas, a voz, os olhares.

Como eu quis ser aeromoça em determinada época!
Ixe! A gente é tão criança quando é criança!!

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agosto 5, 2007

motel

Tem coisa que a gente nunca fez e quando conta pros outros os olhos se arregalam: como assim? Nunca? Nunca mesmo?
Pois é. Nunca.

Eu nunca fui a um motel. Pior: não tenho vontade nenhuma de ir.

E olhe que à minha volta, aqui na região em que moro, estou rodeada deles, assim como estou rodeada de estradas de saída da cidade. Tem pra todos os gostos: gregos, egípcios, italianos, temáticos em geral. Com descontos, com oferta de almoço executivo ( que será isso?), com oferta de descontos dependendo do dia da semana.

Isso – motel- não existia quando eu era, digamos, iniciante nas artes. Faz tempo, nossa, como faz! Havia drive-in, outro estrangeirismo, mas a gente não tinha grana nem pras coisas nacionais, que dirá drive-ins e congêneres!

O que havia de fácil acesso era o escurinho do cinema, os mirantes – aqueles que se dizia que eram pra ver submarino passar- os murinhos, os parques, os bancos de carro. Tudo incômodo pra caramba. Mas quando se é adolescente incômodo mesmo só os pais da gente, o resto passa.

Então tem essa coisa de motel. Já vi em filmes que é cheio de espelhos, camas enormes e tal. E saunas, e jacuzzis.

Puxa, eu adoro uma jacuzzi!Já tive o prazer, em hotéis chics, mas foram poucas vezes. Em minha casa de criança havia banheira e box. Mas minha mãe proibia tomar banho de banheira porque dizia que não era escrava pra ficar polindo e limpando banheira. A gente que tomasse banho de chuveiro, que era mais eficiente, mais moderno e coisa e tal. Minha mãe era reclamona pra xuxu, mas acho que tinha razão. Só ela pra cuidar de um montão.

Então banheira era aquela coisa que eu levava brinquedos e fingia que era barco. Tinha que fingir muito porque ela não deixava nem por água.

E hoje me divirto lendo os nomes de motéis. E as promessas que eles fazem pra quem for lá.

E fico pensando na minha cama de colchão com densidade máxima – pros meus problemas de coluna- nos meus incríveis travesseiros, que custaram uma nota preta, no cheirinho da minha roupa de cama, no maridão e os problemas de coluna dele também, do preço do motel que eu posso gastar em vinho, da mão de obra do antes e depois, da relação custo-benefício, da musiquinha de fundo que em casa é bem melhor, da privacidade que eu continuo preservando e gostando e...bom, não dá vontade.

Vai ficar pra outra encarnação.

jacuzzi_bathtub_2.jpg