da arte de mentir
Entre outros motivos, me apaixonei pelo meu marido pelo caráter. Tá bom, o fato de ter olhos verdes não atrapalhou o tesão de caráter..quer dizer, o brilho do caráter. Mas ele mente.
Não é exatamente mentir, antes que pensem que ele é o pinóquio de plantão. É assim: ele gosta de dar respostas a tudo que lhe perguntam. Até se está assistindo a algum filme, já reparei, e está posta alguma questão, ele tende a responder. Baixinho, discreto, mas responde. Ele é daqueles que não pode ouvir pergunta.
Mas nem mesmo ele, que sabe bastante, sabe tudo. Ninguém sabe. Mas há os que perguntam tudo. Eu, por exemplo.
Tenho uma memória ruim. Não é da idade, embora já tenha idade pra usar esse álibi. Sempre tive memória ruim pra certas coisas. Então cedo aprendi que existem pessoas que sabem na ponta da língua aquilo que me custa muito guardar. Então pra que guardar? Basta perguntar à pessoa certa. Como fazer backup pra não atravancar a memória do PC. Pelo menos do MEU PC que já vai entrando em anos, como eu. ( eu disse anos, vejam bem)
Então passeando por aí, andando feito peregrinos cumprindo promessa, como gostamos de fazer, vou perguntando a ele tudo que não sei ou que não tive paciência de deixar guardado na memória.
Como é o nome daquela árvore? Como é o nome daquele pássaro? Pra que serve essa coisa? Como se faz praquilo ficar daquele jeito? Enfim, coisinhas que me aguçam a já naturalmente aguçada curiosidade.
Pentelha, segundo amigos sinceros. Espírito indagativo, segundo amigos puxa-sacos. Espírito de porco, segundo minha mãe, que não tinha nem paciência nem tendência puxasaquista.
E o maridão responde. Com firmeza, com presteza, com determinação. Não hesita um segundo.
Com o tempo fui percebendo, principalmente através das gargalhadas de quem estava por perto, que ele faltava com a verdade. Que ele, na presteza de responder, respondia qualquer coisa.
E eu, na presteza de perguntar, me contentava com qualquer resposta. Crédula. Tonta.
Até que uma amiga matou a charada: nada como a complementaridade pra uma relação dar certo: um mentiroso e uma crédula: o par perfeito.
A partir daí venho ficando com uma pulga cada vez maior atrás da orelha. Devo continuar perguntando? Devo checar as respostas? Devo desistir das indagações?
Ou devo trocar de marido?




