dentes de javali
Meus pais tinham um amigo. Meu pai tinha, minha mãe, que eu saiba, e segundo as palavras dela mesma só teve uma amiga. Que ela pegou, certa dia, aos beijos com meu pai no andar de cima do sobradinho em que eu nasci. A amiga – que pelo visto não era tanto assim – deixou na hora de ser amiga e o pai, a cuja fama merecida minha mãe já havia se acostumado continuou marido, até a morte. Acho que minha mãe era paciente e além de tudo devia adorar meu pai. Ou gostava de sofrer. Ou os dois, sei lá. Mas deixemos os mortos com seus atos e desatinos.
Mas esse amigo – Seu Caubilho – isso mesmo, tinha esse nome esquisito mas era ótima pessoa- toda vez que vinha a São Paulo hospedava-se em casa. Carioca, veio pra São Paulo e trabalhou uns trocentos anos nas tintas Ipiranga, se a memória não me falha. Depois saiu e, já com uma certa idade, começou a “se virar”. E foi aí, mais ou menos, que eu o conheci. Ou me lembro dele em casa.
Devia ser mais ou menos 1960 e alguma coisa. Paz e amor, geração hyppie, aquelas coisas. E muita bolsa a tiracolo de couro rústico, feita artesanalmente, muitos medalhões e colares, muito saião e sandálias de sola de pneu. E muito colar de dentes e de osso.
Dente de javali, dente de onça, dente até de tigre de bengala. Só não comercializavam dizendo que era dente de elefante porque o tamanho não condizia. Mas não duvido nada de que tenha havido por aí alguém comercializando colar de dente dizendo que era dente de leite de elefante, pra justificar o tamanhico...
Seu Caubilho, que por muitos e muitos anos tinha sido caixeiro-viajante, vendedor de tintas no interior, descobriu uma mina de “javalis”. Não lembro em qual lugar, talvez tenha sido na zona sul, perto de onde morávamos, desencavou uma criação de porcos e fez um acordo no qual ele ficava com os dentes, normalmente jogados fora. Daí ele limpava, lixando até ficarem bem branquinhos, lustrava, fazia um engaste de prata ou de algum outro metal, e vendia os “legítimos dentes de javali”.
A depender do comércio alternativo do Seu Caubilho, São Paulo daquela época devia ter o maior plantel de javalis brasileiro. Sei que ele viveu anos daquele negócio. Até a moda passar.
Não sem antes ele criar medalhões, brincos, colares, chaveiros, tudo de “javali”. De vez em quando, de acordo com a cara de tonto do freguês, os “javalis” viravam onças pintadas caçadas no Mato Grosso.
Não sei se algum dia viraram dentes de elefante, mas tigre com dente de sabre eu lembro.
Depois disso, dessa moda passar, ele foi vendendo cada vez menos. E morreu.
Não em decorrência disso, lógico. Pela idade e pelos muitos anos de cigarro.
Tem muita gente que acha isso o “jeitinho brasileiro”. É pura e simplesmente o desespero de sobreviver. Mas não deixa de ser estelionato, de “tirar vantagem”. Mesmo que tirar vantagem dos bobos. Agora, por outro lado, alguém que compra um amuleto de “dente de elefante branco do Sião” até que merece ser enganado, né não??

Comments
História deliciosa essa do Seu Caubilho.
Mas, nos tempos de hoje, abundam,também por aqui, os curandeiros, feiticeiros, bruxos, adivinhos, que têm grandes anúncios nos jornais, e até dão consultas à distância.
E curam de tudo, desde inveja a doenças ...incuráveis, até impotência sexual.
E governam a vidinha, pois papalvos sempre houve e haverá, em todos os continentes.
Posted by: peciscas | julho 11, 2007 3:12 PM
Quem dera que nos nossos dias estelionato fosse apenas vender dentes "legítimos" de javali.
Posted by: Sonia | julho 12, 2007 12:29 AM
Já falei que eu adoro ler suas histórias???
beijão!!!
Posted by: Lu Farias | julho 12, 2007 3:53 PM