a bolívia é aqui
Dizem que São Paulo tem de tudo. Tem japonês, grego, coreano, sueco, inglês, enfim, tem até paulista como eu! Mas não faz tanto tempo assim descobri que São Paulo tem bolivianos. Tá certo, havia um ou outro na USP, na minha época. Eu sei porque viviam juntos e a maioria morava no CRUSP. Devia ser política de sobrevivência. Andar juntos, eu digo, porque morar no CRUSP era necessidade mesmo e não opção.
Mas descobri um dia, indo até o Largo do Pari, num dos passeios pela cidade que gosto de fazer, algo diferente. Fui até lá porque lembrava daquele largo desde pequena, quando íamos, meus pais e eu, todo santo Dia de Reis, jantar na casa de uma grande amiga deles, justamente uma japonesa, fotógrafa, que católica fervorosa e japonesa mais fervorosa ainda, fazia dois tipos de ceia: uma brasileira, com feijoada, pernil, essas coisas e outra cheia de sushis e sashimis, e doces coloridos. Tudo na mesma mesa. Nunca antes vi, nem depois, nada igual.
A igreja do Largo era grande e bonita. Então, passados quase 50 anos dessa memória, decidi retornar lá.
Chegando na praça, um movimento de ..bolivianos me chamou a atenção. Bolivianos pra lá e pra cá. Coisa mais estranha...Perguntando numa barraca, diretamente a uma boliviana que vendia algo que sugeria um pastel, ela não falou nada. Perguntando num pipoqueiro, que este sim, vendia pipocas, ele contou que ali perto, no Pari, havia a feira “dos bolivianos”. Mas que, como eles eram, a maioria ilegal no pais, não gostavam de divulgar. Embora essa feira estivesse, como ainda está, nos guias da cidade, como atração.
Lá fomos até a feira. Depois de umas 4 quadras, se tanto, a visão da própria Bolívia dividida em barracas.
A música, os cheiros, as comidas, os CDs piratas, os montes de famílias bolivianas almoçando em plena rua, ao lado das barracas de comida. Podia-se contar nos dedos quem não tivesse olhos puxados ali.
Lamentei já ter almoçado, embora tendo a certeza que meu algoz preferido, o Dr. Fred, não iria aprovar que eu comesse nada ali. As cores eram lindas. E se por um lado adorei ver aquelas famílias todas, relativamente integradas em outro país, por outro lado senti a situação deles. A maioria vive de trabalho pessimamente remunerado, em confecções, quase escravizados, com medo da polícia, de denúncias, pelo trabalho ilegal. Não hostilizam ninguém nem são hostilizados, simplesmente existe em relação a eles como que um muro de indiferença. Quando o ideal seria existir uma política de regularização. Da imigração e principalmente, do trabalho.
Eu falando em ideal...ideal mesmo era eles não terem de deixar seu país pra buscar oportunidades em outro quase tão pobre quanto. A emigração nunca é opção. É contingência.
Mas a feira era linda. Já a música...
Outro (post) à guisa de PS
Mais de uma semana de frio. Eu gosto. Mas não precisava exagerar.
Hoje não deu mais. Domingo, 8 graus lá fora e caindo. E o meu “lá fora” é logo ao lado, moradora que sou de casa térrea, de esquina, em alto de morro. Passei a noite ouvindo o sino de vento histérico que tenho e os uivos do vento nas janelas. E eu que achava que isso eram efeitos especiais de filme trash, daqueles em que o vampiro aparece na sequência.
Aqui não tem vampiro. E se tivesse, teria que gostar de picolé, porque pelo menos o meu sangue está gelado e não é de medo.
Moral da história: saímos, nós e a torcida do Timão, correndo pra comprar gorros, cachecóis, agasalhos, numa grande loja de esportes, especializada em montanhismo. Na volta, de luvas, gorros ninja, vários casacos, a próxima idéia foi óbvia: aquecedor.
Após percorrer em pleno domingo 3 hipermercados, só fomos encontrar 2 no último. E uma moça chegou com sua filhinha pequena ao mesmo tempo que a gente. E ambas concordamos, olhando os dois modelos quase iguais, que melhor seria comprar o de marca nacional. Pelo menos se acha autorizada e peça de reposição, se necessário. Só que eu hesitei. Talvez 30 segundos.
Ela não. Decidiu no ato e no ato pegou o último modelo existente, o nacional. Botou no carrinho, junto com a filha e olhou desafiadora.
Ok. Ela venceu. Estamos agora tentando nos aquecer com um modelo de uma marca italiana que eu nunca ouvi falar, cem reais mais caro.
Per la madonna, como diria minha avó. Aliás, não é bem isso que ela diria, mas este é um blog decente.
6 graus esta noite. E caindo.
Comments
Ufa!
Por um momento temi que você tivesse apreciado a música.
:)
Posted by: Allan | julho 31, 2007 1:38 AM
Lembro-me que na minha infância aqui no Rio pessoas de outros países chamados "exóticos" eram raras. Aí, com 15 anos, fui com meus pais morar em Londres. Saris, trajes indianos só depertavam curiosidade em brasileiros como nós. Mas não eram tão numerosos quanto hoje. Atualmente, com a aldeia global, as grandes cidades são um mundo em miniatura. Todos os trajes, cores de pele e línguas se misturam.
Posted by: Sonia | julho 31, 2007 11:56 AM
No comentário anterior eu pretendia escrever "saris e trajes africanos".
Posted by: Sonia | julho 31, 2007 11:57 AM
Emigração é, mesmo, contingência. Muito embora, curiosamente, seja difícil passar este "sentido" para terceiros. Acontece isso, também, por aqui. Onde, em parte, os brasileiros são "bolivianos". Tal como os portugueses já foram "ucranianos" ou "romenos".
Posted by: Marx | julho 31, 2007 2:01 PM
Esta questão dos ilegais está a ser um problema que se espalha um pouco por todo o lado.
Por cá, também temos muitos.
E, contraditoriamente, temos centenas de milhar de desempregdos portugueses. E a emigração de compatriotas, está outra vez a crescer.
Há algo que vai muito mal neste mundo cheio de desigualdades!
Posted by: peciscas | julho 31, 2007 2:24 PM
Maray, adoro qdo vc vai me "visitar". Vc é e será sempre bem vinda. Obrigada pela forca tbém e por me dizer que é sim possivel viver de soja...hahah
Bjos
Posted by: Fran | agosto 2, 2007 3:08 AM
Maray, obrigada pela foca. Foi muito bom saber que a soja tem mil e uma utilidades. Adoro quando vc vai visitar meu cantinho. Sinta-se em casa!
bjos
Posted by: Anonymous | agosto 2, 2007 3:55 PM
Já tava com saudades daqui!
Sobre a bolívia, o guillermo, meu irmão esteve lá no começo do ano para fotografar os luthiers da região contou da miséria terrível e da indiferença das pessoas em relação à tudo...
Se lembre que os bolivianos hoje em dia, sofrem muito em sampa com o subemprego nas confecções.
Que são propiedades de outros imigrantes....
Apareça, sempre é bom te ler.
Posted by: mauricio planel | agosto 3, 2007 1:43 PM