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julho 30, 2007

a bolívia é aqui

Dizem que São Paulo tem de tudo. Tem japonês, grego, coreano, sueco, inglês, enfim, tem até paulista como eu! Mas não faz tanto tempo assim descobri que São Paulo tem bolivianos. Tá certo, havia um ou outro na USP, na minha época. Eu sei porque viviam juntos e a maioria morava no CRUSP. Devia ser política de sobrevivência. Andar juntos, eu digo, porque morar no CRUSP era necessidade mesmo e não opção.

Mas descobri um dia, indo até o Largo do Pari, num dos passeios pela cidade que gosto de fazer, algo diferente. Fui até lá porque lembrava daquele largo desde pequena, quando íamos, meus pais e eu, todo santo Dia de Reis, jantar na casa de uma grande amiga deles, justamente uma japonesa, fotógrafa, que católica fervorosa e japonesa mais fervorosa ainda, fazia dois tipos de ceia: uma brasileira, com feijoada, pernil, essas coisas e outra cheia de sushis e sashimis, e doces coloridos. Tudo na mesma mesa. Nunca antes vi, nem depois, nada igual.

A igreja do Largo era grande e bonita. Então, passados quase 50 anos dessa memória, decidi retornar lá.
Chegando na praça, um movimento de ..bolivianos me chamou a atenção. Bolivianos pra lá e pra cá. Coisa mais estranha...Perguntando numa barraca, diretamente a uma boliviana que vendia algo que sugeria um pastel, ela não falou nada. Perguntando num pipoqueiro, que este sim, vendia pipocas, ele contou que ali perto, no Pari, havia a feira “dos bolivianos”. Mas que, como eles eram, a maioria ilegal no pais, não gostavam de divulgar. Embora essa feira estivesse, como ainda está, nos guias da cidade, como atração.

Lá fomos até a feira. Depois de umas 4 quadras, se tanto, a visão da própria Bolívia dividida em barracas.

A música, os cheiros, as comidas, os CDs piratas, os montes de famílias bolivianas almoçando em plena rua, ao lado das barracas de comida. Podia-se contar nos dedos quem não tivesse olhos puxados ali.

Lamentei já ter almoçado, embora tendo a certeza que meu algoz preferido, o Dr. Fred, não iria aprovar que eu comesse nada ali. As cores eram lindas. E se por um lado adorei ver aquelas famílias todas, relativamente integradas em outro país, por outro lado senti a situação deles. A maioria vive de trabalho pessimamente remunerado, em confecções, quase escravizados, com medo da polícia, de denúncias, pelo trabalho ilegal. Não hostilizam ninguém nem são hostilizados, simplesmente existe em relação a eles como que um muro de indiferença. Quando o ideal seria existir uma política de regularização. Da imigração e principalmente, do trabalho.

Eu falando em ideal...ideal mesmo era eles não terem de deixar seu país pra buscar oportunidades em outro quase tão pobre quanto. A emigração nunca é opção. É contingência.

Mas a feira era linda. Já a música...


Outro (post) à guisa de PS

Mais de uma semana de frio. Eu gosto. Mas não precisava exagerar.

Hoje não deu mais. Domingo, 8 graus lá fora e caindo. E o meu “lá fora” é logo ao lado, moradora que sou de casa térrea, de esquina, em alto de morro. Passei a noite ouvindo o sino de vento histérico que tenho e os uivos do vento nas janelas. E eu que achava que isso eram efeitos especiais de filme trash, daqueles em que o vampiro aparece na sequência.
Aqui não tem vampiro. E se tivesse, teria que gostar de picolé, porque pelo menos o meu sangue está gelado e não é de medo.

Moral da história: saímos, nós e a torcida do Timão, correndo pra comprar gorros, cachecóis, agasalhos, numa grande loja de esportes, especializada em montanhismo. Na volta, de luvas, gorros ninja, vários casacos, a próxima idéia foi óbvia: aquecedor.

Após percorrer em pleno domingo 3 hipermercados, só fomos encontrar 2 no último. E uma moça chegou com sua filhinha pequena ao mesmo tempo que a gente. E ambas concordamos, olhando os dois modelos quase iguais, que melhor seria comprar o de marca nacional. Pelo menos se acha autorizada e peça de reposição, se necessário. Só que eu hesitei. Talvez 30 segundos.

Ela não. Decidiu no ato e no ato pegou o último modelo existente, o nacional. Botou no carrinho, junto com a filha e olhou desafiadora.

Ok. Ela venceu. Estamos agora tentando nos aquecer com um modelo de uma marca italiana que eu nunca ouvi falar, cem reais mais caro.

Per la madonna, como diria minha avó. Aliás, não é bem isso que ela diria, mas este é um blog decente.

6 graus esta noite. E caindo.

julho 25, 2007

o casamento da Tude

Tunha, cadê minha abotoadura? Mãe, o sapato aperta! Mãe, não sei por a gravata, precisa mesmo? Tunha, penteia meu cabelo!
E as respostas, atarantadas:” onde sempre estiveram, você nunca encontra! Aguenta o sapato, menina, chegando lá, na hora da igreja, tira eles debaixo do banco que alivia! Já vou pentear, mãe, num minuto!!”
Agito em casa: dia do casamento da Tude. Prima da mãe, ou melhor, filha de primo, do ramo mais italiano da família. Da Vila dos Remédios, longe pra caramba.

Vai a família toda, se não, é desfeita. Vai vó, vão pai e mãe, vou eu e meu irmão, o outro fora do Brasil. Todo mundo emperequetado. Pai com abotoaduras de ouro e alfinete de gravata, também de ouro. Mãe com sapato de salto alto, meia de nylon com risca ( a risca tá alinhada??) brincos e colar de pérolas (cultivadas, mas ninguém nota), vó com coque reluzente, sapato baixo ( na tua idade ninguém repara, diz a mãe), vestido escuro, apropriado pra viúva, embora viuvez de mais de trinta anos. Tudo nos trinques, como se dizia. Meu irmão enrolado com o nó da gravata, cabelo escovinha reluzente de Trim.

E a Tude chega na igreja. Ela no altar, a cauda ainda entrando. Eu olho assombrada: no meu hei de ter cauda maior, sonho.

Depois a festa. Na casa da noiva, como manda o figurino. Quem dá a festa é o pai da noiva. O noivo dá os móveis e aluga a casa. Ninguém comprava assim logo de cara. Lua de mel? Santos, claro. Só gente muito rica ia pra Buenos Aires.

Que fartura! De docinhos, de olho de sogra, de cocadinhas, de balas de côco enroladas em papel colorido, de presunto mandado assar na padaria ( não cabia em fornos caseiros), de vinho em barrica, de chopp em barricas também. De guaraná pra criançada. De bolo de noiva com os noivos em cima da terceira camada. De braços cruzados na hora de beber o champagne. De falatório, homens prum lado, mulheres pro outro. E crianças correndo. Ou debaixo da mesa, mesa de metros e metros, formada com madeiras dispostas em cima de cavaletes e coberta com toalhas brancas rendadas, até o chão.

A gente enchia pratos e pratos de doces e se escondia debaixo da mesa, pra comer e se divertir vendo os sapatos dos outros. O conselho de tirar os sapatos da minha mãe devia ser o mesmo em todas as casas. Ali, debaixo da mesa, montes de homens e mulheres discretamente tirando os sapatos novos apertados, alguns deixando à mostra meias furadas.

E mais tarde o baile. Hora das moças e rapazes começarem namoros discretos, porque os pais e mães de todo mundo estavam ali mesmo, vigiando de perto. Mas uma casquinha sempre dava pra tirar. A gente, criança, volta e meia encontrava casalzinho desgarrado nos quartos da casa, no quintal, atrás da lona montada pra festa. E aí assobiava, fazia um escarcéu, mas não contava pra ninguém. Hoje eles, amanhã seria a nossa vez, a gente sabia.

E mais tarde, hora de voltar pra casa. Antes os noivos teriam trocado de roupas e se despedido. Muito arroz na cabeça, muita lata no para-choque do carro.

Na volta, os montes de pratinhos de doces e salgados. Festa boa tinha que ter pratinhos, onde já se viu?? Cada um que saía levava o seu.

E nada me dá mais saudade, nada mesmo, do que aqueles pratinhos no café da manhã do dia seguinte. Sim, porque se eu lembro dos casamentos na ida, nas voltas só lembro do colo do meu pai no começo da viagem. Eu sempre dormi. E só acordava no dia seguinte, já de pijama – quem teria me trocado? – na mesa do café, com os pratinhos trazidos.

Já não se fazem casamentos como antigamente...E no meu, afinal, nem o vestido tinha cauda, nem na festa teve pratinhos...

julho 22, 2007

paint brush

A gente acaba fazendo muitas coisas diferentes na vida. Principalmente quando os anos de janela se acumulam.

Antes de saber escrever – ser alfabetizada- eu gostava de desenhar. Desenhava no chão de caquinhos do quintal, com pincel e água; no tapete peludo da sala, com dedo mesmo; em cadernos velhos, em papel de pão, em papel higiênico (com lápis, antes que algum escatológico pense bobagens); em guardanapos, e uma vez, pra horror da minha mãe, com ponta seca de compasso no piano de casa. Foi num cantinho escondido mas ela descobriu.

Se alguém me perguntasse na época – e sempre alguém perguntava- o que eu queria ser quando crescesse, eu diria pintora. Mas como já respondi a essa pergunta com freira, professora, cabeleireira, escritora, arquiteta, enfim, já ninguém me levava a sério. Nem eu.

Mas eu gostava de desenhar.

Na adolescência andei pintando a óleo. Eram comuns as reportagens sobre a fome na áfrica, então tive uma fase de “fome africana” em que eu pintei telas e telas com crianças esquálidas. Depois passou. A minha fase, porque a fome africana continuou, infelizmente. E não só na áfrica.

Quando os filhos eram pequenos ainda desenhei um pouco. Pra brincar com eles. A gente gostava de desenhar um pedaço de alguma coisa e o outro tinha de completar. Ou desenhar alguma coisa e a partir daí o outro inventar uma estória.

Depois descobri, há muito tempo atrás, o Paint brush. Meu primeiro programa de desenho. Uma farra. Achava que era o máximo, cheio de truques e possibilidades. Como achar que os efeitos especiais daqueles filmes de monstros antigos fossem o Oscar da animação. Mas na ápoca eram.

E hoje me deu vontade de voltar a brincar. Achei, escondido atrás de pilhas de coisas, o paint neste micro. Ainda está lá!
Então vamos a ele!!

Tá bom, dei uma craquelada no photoshop pra não ficar chapado demais...

julho 20, 2007

outros

Há uns tempos atrás, foi moda botar nos carros adesivos que diziam “o meu outro carro é” onde podia-se ler Porsche, Mercedes ou algo assim. E o carro adesivado geralmente era uma Brasília caindo mais aos pedaços do que aquela outra, que tão bem conhecemos.

Há dias em que seria bom poder dizer isso mesmo: minha outra vida é...., meu outro corpo é....meu outro salário é.... Há dias em que seria muito bom haver outros. Outros dias. Menos sombrios.

Então vamos brincar, porque esta vida, sem brincar, não dá pra aguentar.

Meu outro salário é ....o do Gates. Só que eu saberia gastar mais e melhor. E, convenhamos, tenho um ar menos idiota.

Meu outro corpo é ....o da Sofia Loren aos 20 anos. Um montão de peito, tudo natural, um pinguinho de cintura e bunda come il fault.

Minha outra casa é ...a casa das Rosas, na Av. Paulista do começo do século passado. Um lugar elevado, bons ares, bom tamanho de casa, bom quintal. E com vista pro Rio Pinheiros, sem nada no caminho!

Meu outro instrumento é....um piano de cauda. Tocado com mãos apaixonadas. Como as do Bola de nieve.

Meu outro presidente é o Gabeira. Por que não?

E meu outro carro, sim, não podia faltar, é um Porsche cor de vinho.

E os “outros” de vocês?

julho 15, 2007

sozinha com meus botões

Dizem que a gente nasce e morre sozinho. Nunca entendi direito a frase porque eu não estava sozinha quando nasci. No mínimo minha mãe estava comigo. Já quanto a morrer, isso não sei.

Mas existem certas situações em que é complicado estar sozinha.

Uma delas é experimentando roupa. Não, não que eu precise – embora goste- de uma segunda opinião, além da minha própria, pra me fazer decidir por isto ou aquilo. Eu decido bem, nesses casos. Demoro, mas decido.

O problema é outro. São aquelas roupas que não vêm com manual. A moda de hoje anda tão variada e esquisita que existem determinados vestidos e blusas que eu não sei o que fazer. Olho, experimento de um lado, fica ridículo, experimento do outro, fica patético, e assim, como se fosse jogo de armar, tento descobrir o jeito. Ou o ângulo menos risível. Geralmente desisto por desconhecimento de causa.

Agora tem umas piores ainda. Aquelas que entram e não saem. E olhe que eu sou normal, quase magra. Tenho ainda uma boa flexibilidade e minha hérnia de disco ainda me deixa fechar zíperes e botões, mesmo os mais difíceis. Mas tem umas que, passada a dificuldade do peito, ajustam-se na cintura e de lá não saem mais. Você pode tentar a entrada pelos fundos, ou seja, botar pelas pernas. Daí elas passam pela bunda e pumba! Empacam.

Daí eu sempre fico muito envergonhada de pedir ajuda. E puxo de um lado, puxo de outro, fico me lembrando que com situação similar, mas não análoga, o Cortazar fez um dos melhores contos que já li, e penso se não dava pra fazer uma croniqueta qualquer mas a vergonha continua. E o emperramento do vestido.
Daí eu, timidamente a princípio, depois mais alto, quase gritando, pergunto se tem alguém no provador ao lado.

Deus não sei se existe mas a felicidade, de vez em quando sim. E está na porta ao lado. Uma senhora responde. E me salva.

Morrer sozinha deve ser chato, mas pelo menos é uma vez só. Agora experimentar roupa sozinha é um martírio.
Frequente.

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julho 12, 2007

os desafios de Marx

Este Marx ( que não é aquele, ainda bem) me faz o desafio de listar os cinco últimos livros que li. Aonde reside o desafio ainda não sei, pois que leio bastante. Já o outro me punha à prova numa época em que eu dividia o mundo em dois. Hoje meu mundo anda aos cacos, de tão dividido, mas acho melhor assim.

Voltando, os livros são: Linha dágua, do Amyr Klink; Macho não ganha flor, do Dalton Trevisan; Quien me quita lo bailado, de Juan Carlos Copes; Travessuras da menina má, do Mário Vargas Llosa e A soja no seu dia a dia, de Caroline Bergerot.

O Amyr Klink me fascina: não exatamente sua literatura, que não é o caso, mas suas aventuras. Pelo fato de a maioria delas ser solitária, pelo fato de serem desafios, pelo fato de meterem medo a mim. Mas não a ele. Acho que leio sempre tudo do Amyr na intenção de perder os meus medos. Sei lá. Recomendo.

O Trevisan é o Trevisan. Nem sei o que diga. Dói mas é bom. Ele cutuca a ferida com vara curta. Faz o pus jorrar, arranca cascas. Ele vê, pelo menos em relação a mim, meu lado negro. Aquele que nem eu tenho coragem de olhar. Dói. Mas fascina.

A biografia do Copes mistura-se a do tango. Tem o sabor das malandragens do começo do tango, das turmas de periferia, das milongas dos bairros. Malandragens que hoje chegam a parecer infantis, tal o aumento da violência atual. E o tango é, e sempre será, um “sentimento que se baila”.

Vargas Llosa tem bom humor. Eu gosto. Escreve bem pra burro, enxerga o mundo e as mulheres como se fossem todas personagens de velhas novelas de rádio. Quando ele fala de política também acho altamente interessante. Mas é na ficção que eu gosto mais.

E finalmente “ a soja no seu dia a dia”. Essa autora é ótima. É o segundo livro natureba dela que eu leio e nada falhou até hoje. São ótimas receitas a base de soja. Tudo bem que ela é vegan e eu não cheguei a esse ponto. Tudo bem que ela usa fritura e óleo e eu não posso usar. Mas a gente adapta e a coisa sai. Mais de 1000 receitas com soja. É soja pra ninguém botar defeito...

Taí, Marx, conforme você pediu, o tal desafio.

Espero ter me saído melhor do que me saí com os desafios do Capital...

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julho 11, 2007

dentes de javali

Meus pais tinham um amigo. Meu pai tinha, minha mãe, que eu saiba, e segundo as palavras dela mesma só teve uma amiga. Que ela pegou, certa dia, aos beijos com meu pai no andar de cima do sobradinho em que eu nasci. A amiga – que pelo visto não era tanto assim – deixou na hora de ser amiga e o pai, a cuja fama merecida minha mãe já havia se acostumado continuou marido, até a morte. Acho que minha mãe era paciente e além de tudo devia adorar meu pai. Ou gostava de sofrer. Ou os dois, sei lá. Mas deixemos os mortos com seus atos e desatinos.

Mas esse amigo – Seu Caubilho – isso mesmo, tinha esse nome esquisito mas era ótima pessoa- toda vez que vinha a São Paulo hospedava-se em casa. Carioca, veio pra São Paulo e trabalhou uns trocentos anos nas tintas Ipiranga, se a memória não me falha. Depois saiu e, já com uma certa idade, começou a “se virar”. E foi aí, mais ou menos, que eu o conheci. Ou me lembro dele em casa.

Devia ser mais ou menos 1960 e alguma coisa. Paz e amor, geração hyppie, aquelas coisas. E muita bolsa a tiracolo de couro rústico, feita artesanalmente, muitos medalhões e colares, muito saião e sandálias de sola de pneu. E muito colar de dentes e de osso.

Dente de javali, dente de onça, dente até de tigre de bengala. Só não comercializavam dizendo que era dente de elefante porque o tamanho não condizia. Mas não duvido nada de que tenha havido por aí alguém comercializando colar de dente dizendo que era dente de leite de elefante, pra justificar o tamanhico...

Seu Caubilho, que por muitos e muitos anos tinha sido caixeiro-viajante, vendedor de tintas no interior, descobriu uma mina de “javalis”. Não lembro em qual lugar, talvez tenha sido na zona sul, perto de onde morávamos, desencavou uma criação de porcos e fez um acordo no qual ele ficava com os dentes, normalmente jogados fora. Daí ele limpava, lixando até ficarem bem branquinhos, lustrava, fazia um engaste de prata ou de algum outro metal, e vendia os “legítimos dentes de javali”.

A depender do comércio alternativo do Seu Caubilho, São Paulo daquela época devia ter o maior plantel de javalis brasileiro. Sei que ele viveu anos daquele negócio. Até a moda passar.

Não sem antes ele criar medalhões, brincos, colares, chaveiros, tudo de “javali”. De vez em quando, de acordo com a cara de tonto do freguês, os “javalis” viravam onças pintadas caçadas no Mato Grosso.
Não sei se algum dia viraram dentes de elefante, mas tigre com dente de sabre eu lembro.

Depois disso, dessa moda passar, ele foi vendendo cada vez menos. E morreu.
Não em decorrência disso, lógico. Pela idade e pelos muitos anos de cigarro.

Tem muita gente que acha isso o “jeitinho brasileiro”. É pura e simplesmente o desespero de sobreviver. Mas não deixa de ser estelionato, de “tirar vantagem”. Mesmo que tirar vantagem dos bobos. Agora, por outro lado, alguém que compra um amuleto de “dente de elefante branco do Sião” até que merece ser enganado, né não??
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julho 8, 2007

passos e pisos

O primeiro piso foi de ladrilho de cimento hidráulico (só vim a saber disso muito mais tarde). Na minicozinha da casa em que nasci. Devia ter sido branco e vinho originalmente. Com o tempo, meio bege e rosa. Mas brilhantes. Como eram brilhantes! Pra quem conheceu dona Antonieta e sua mania de limpeza, nada a estranhar naquela cozinha encerada toda semana. Lavada todo dia.

Depois, na próxima casa, o que fascinava, tal a novidade – meu deus, sou do tempo em que caquinhos de cerâmica vermelha eram novidade!! – eram os caquinhos de cerâmica do quintal. Onde, nos dias de muito sol eu ia, munida de pincel e um copo de água, “desenhar” no chão. Tinha que ser um dia de muito sol porque se assim não fosse, apesar do tamanhão do quintal, logo acabava minha “tela”. Na cozinha, cerâmica São Caetano, a que diziam que nunca acabava. Devia ser verdade: morei naquela casa por 15 anos e nunca vi um arranhão na cerâmica, apesar das muitas pessoas e do muito que se arrastavam móveis. Uma cerâmica sextavada vermelha. Encerada toda semana, lógico. A cerâmica havia mudado, mas não os hábitos higiênicos de dona Antonieta.

Na bucólica casinha em que morei recém-casada, no alto de um terreno, casa muito simples, o chão da cozinha e banheiro de cimento vermelho. Lindos! Encerados toda semana, não por mim mas pela eficiente Francisca. Refletidos naquele chão o fogão vermelho, a geladeira vermelha. Tá, na época éramos todos comunistas também, não do partidão, considerado reacionário, mas de muitas e variadas vertentes. O vermelho caía bem. Em tudo.

Numa próxima casa, aqui pertinho, chão da sala e quartos de cascolac. Que coisa mais feia! Um brilho artificial, como o tônus facial das mulheres botocadas. Mas a casa não era nossa, fazer o que? Alugamos por uns anos, poucos. O cascolac foi riscando, o brilho foi diminuindo, talvez minha tolerância tenha aumentado, só isso.

E finalmente, a casa de hoje. Um custo achar as lajotas vermelhas do quintal. Porque não podiam ser brilhantes nem foscas totalmente. Achamos umas “semi”. E o chão, por anos encerado, hoje com laminado imitando tábuas de madeira. Uma imitação chinfrim, que não engana ninguém. Mas a dona Antonieta não está mais por aqui. E esta filha da dona Antonieta não herdou os gens encerativos da mãe. Na cozinha uns lajotões enormes imitando cimento queimado, meio amarelos, meio marrons. Enfim, cor de sujeira!

E assim, de imitação em imitação, a vida real se sucede. Nada mais é vermelho. Nem minhas convicções políticas, tantas as decepções. No fogão, na geladeira, nos armários, reina o branco. Imparcialidade? Não, permanência. Descobri que não me canso do branco. Que o branco não me trai.

Amarela um pouco com o tempo, mas eu também amarelo.
Amarelamos todos.

E os pisos de minha vida vão se sucedendo.

De uns anos pra cá voltei a sonhar com pisos de madeira, encerados, brilhantes. É o tango e suas exigências. Quem sabe um puxadinho em cima da garagem??

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óleo de Stephanie Beliveau

julho 5, 2007

história de pescadora

Eu fui iniciada na pesca com uns 6 anos de idade. Por meu pai. E vou agora dar aqui a “aula” que me foi dada. Que é tudo o que sei de pesca.

Em primeiro lugar, busque uma terra preta, úmida, meio mole. Enfie a mão lá (se não der pode usar uma pazinha de jardim. Agora se não der meesssmo, use a enxada. Mas daí não garanto que a terra seja a indicada). Traga o naco de terra que deverá vir cheio de minhocas mexendo-se freneticamente. Escolha- se foram muitas- as mais gordas. Tem umas marrons mais claro, aneladas, que são ótimas. Agora se a oferta for pequena – como homens hoje em dia- não escolha nada e pegue o que der – como homens hoje em dia..ai!

Ponha as minhocas num vidro fechado (elas teimam em fugir) e vá até a beira do rio, lago, córrego, represa. Não existiam pesqueiros na minha época. E cá entre nós, ir pescar em pesqueiro é como achar adolescente em show de rock. Fácil demais. Não tem a menor graça.

Depois pegue uma vara de pesca ajustada ao seu tamanho. Aos seis anos eu tinha uma bem fina, bem maleável e bem curta. Como ...bom, deixa pra lá que as comparações estão ficando complicadas.

Se quiser pode botar no meio da linha uma rolha. Eu botava. Enorme, colorida, bem vistosa mesmo. Não pros peixes, que se eles vissem e soubessem o que era aquilo, nem chegariam perto de mim. Era pra mim mesma, míope desde criancinha. A rolha serve pra ver – se você for tão insensível como eu era – se o peixe fisgou. Porque ela afunda. Fui clara?

Depois- e agora tirem as crianças da sala – pegue a minhoca mais gorda e enfie devagar pelo anzol. Viva. Bem devagar. E veja ela se mexer, agonicamente. E limpe a baba da boca, seu sádico!

Continuando, em seguida bote a vara na água, devidamente eminhocada. E espere. Espere. Espere.

Meu pai- que deus o tenha- enchia a cara nessas horas. Ficava lá, na beira da represa com uma garrafa ao lado, segundo ele pra afastar os mosquitos, até o peixe fisgar.

Eu largava a vara fincada na terra e ia brincar.

Teve vezes do peixe fisgar minha minhoca e levar a vara embora, água adentro.
De tão grande...
Ui!
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julho 2, 2007

duas mãos, dez dedos e um monte de dúvidas

Não sei se é normal, não sei se EU sou normal, não sei se as mulheres são normais, mas eu tenho a maior dificuldade em saber onde botar as mãos.

Há políticos, por exemplo, que não têm nenhum problema. Sabem exatamente onde botar as mãos. E os pés. E jamais trocam os pés pelas mãos. Mesmo quando trocam bois por vacas. Ou vacas por bois.

Há tarados que também não apresentam nenhuma dificuldade em botar suas mãos em alguns lugares. Eu que costumo andar de ônibus já peguei alguns.

Mas eu tenho problemas, sim. Desde a adolescência. Melhor dizendo, desde a mais tenra infância.

Na tal tenra infância – tenra?- eu botava as mãos, melhor dizendo, os dedos, onde não devia, segundo pai e mãe. Ou seja: no doce em calda da geladeira, no creme que cobria o bolo posto pra esfriar, no bacalhau exposto na feira ( esse eu roubava grossos pedaços e ia chupando) e ..no nariz. Levou um bom tempo pra perder a mania. Hoje vejo, principalmente no trânsito, que muitos adultos não a perderam ainda.

Depois, já mocinha, como não sabia o que fazer com as mãos, minha mãe me ensinou a segurar uma bolsa e uma revista! Assim, quando saía, levava a bolsa no braço e uma revista ou livro nas mãos. Porque não existia bolsa à tiracolo na época.

Depois, com o advento da bolsa ou sacola à tiracolo, era só botar as mãos na alça e pronto.

Fumar resolveu um pouco desse problema. Toda vez em que ia falar em público ou dar aulas, fumar era a solução. Um atrás do outro, pra não desocupar a mão.

Agora, de 7 anos pra cá, parei de fumar. Se por um lado meu pulmão voltou a respirar, por outro minhas mãos ficaram a ver navios, se é que posso usar essa expressão. Porque “de mãos abanando” não seria apropriado. Daí passei a fazer crochê. Ou comer maçãs. Ou a lateral dos dedos. Ou tudo ao mesmo tempo se a neura for grande.

Minha mão é muito feia. Comer dedos não ajuda. Tentei pintar as unhas, mas daí comia o esmalte, o que além do gosto ruim, ainda deixa a mão com péssimo aspecto. Então pego aquela lateral da unha, meio durinha. E vou mordiscando. Uma delícia, modéstia a parte.

E assim vou levando a vida, sem saber o que fazer com as mãos.

Aceito sugestões.
Mas só as publicáveis, por favor.

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