passaporte
Já fiz terapia. Algumas vezes. Meu terapeuta diz que não são algumas vezes. Que é a mesma terapia, intercalada por períodos de vida.
Em todo caso, um dos ganhos terapeuticos foi ter diminuido minha relação de “crime e castigo”, de culpa arcaica, de resquícios judaico-cristãos, de vestígios sado-masô. Enfim, falando francamente, deixei de achar que precisa sofrer pra ser feliz. Pelo menos não precisa sofrer muuuito.
Até esta madrugada.
Não vem ao caso os motivos, mas eu precisava renovar meu passaporte.
Passaporte novo significa polícia federal. Fila. Problemas.
Mas 15 horas de fila, quase sete delas ao relento, na noite mais fria do ano, não precisava. Eu preferia ser menos feliz, se é que me entendem!
De repente 70 pessoas ali, dormindo ou tentando, no chão, debaixo da lua e das estrelas, do sereno e na temperatura de oito graus. Todas muito solidárias, trocando chocolates e piadas mornos e requentados.
Com muita pena de nós mesmos.
E de repente dou-me conta de que nesta cidade, dormindo ao relento debaixo de nem sempre lua e estrelas, mas muitas vezes chuva e vento, nas pontes, nas marquises, sem nada quente nem muito menos morno pra aquecer encontram-se pilhas de gentes que não estão a espera de um passaporte no fim da noite.
Ou talvez estejam. O passaporte da viagem sem volta.
E nós todos ali, querendo ir aos States, a Europa, a Austrália e ao Canadá, nós ali morrendo de pena de nós mesmos.
O ser humano é complicado. Solidário com seus iguais em circunstâncias “festivas”, cego com seus semelhantes no dia a dia.
Sempre me lembro da Susaninha, personagem terrivelmente humano do Quino, quando diz a seu amigo : “ sou tua amiga, não amiga dos teus problemas”.
Tive minha noite de mendiga. O que me fez pensar nos outros mendigos, os verdadeiros.
Mas logo passa. E eu esquecerei.

Comments
A gente esquece mesmo. Se não, não agüentava viver.
Posted by: Sonia | junho 6, 2007 12:02 AM
Lindo este seu texto, Maray. Talvez que até passe, a recordação. Mas creio que não por muito tempo. Quem escreve assim preocupa-se. Não esquece permanentemente. Percebe-se isso no que escreve. E certamente que o post terá sido apenas mais um pretexto para se lembrar...
Posted by: Marx | junho 6, 2007 4:26 PM
Já estou a ver que a burocracia aí é, como cá, bem dura.
Nesse caso do passaporte, talvez aí seja ainda pior.
Aqui onde moro, temos a Loja do Cidadão, onde, no ano passado, requisitei o passaporte em questão de quinze minutos.
Passada uma semana, lá chegou.
Posted by: peciscas | junho 8, 2007 3:50 PM
Tu sensibilidad hace que recuerdes y te pongas en lugar de otros.Tienes mucha razón,los demas solemos olvidar o no querer ver lo que sucede a nuestro alrededor.
Posted by: Sole | junho 11, 2007 1:21 PM