vidas em fila
Na realidade, nem estavam lá pra comprar bilhete nenhum. Estavam lá - o homem de camisa verde e a mulher de saia roxa - só pra pagar contas. Todo mês aquela preocupação se daria pra pagar todas elas, as contas. A ida à lotérica com as possíveis de serem pagas e a fila. E é nas filas que um sujeito fica entregue a si mesmo e aos seus pensamentos. Porque não há muito mais que fazer na fila. Pode olhar o traseiro dos outros, os cabelos, os sapatos, os perfis e as costas. Mas depois de um certo tempo cansa. E só sobra o próprio sujeito e seus pensamentos. Quer queira quer não.
E eles não queriam, mas depois de um certo tempo...bom, já expliquei. O que não expliquei e pode não ter ficado claro é que eles nem estavam juntos. Nem mesmo um depois do outro na fila. Era só isso: um homem de meia idade - mais ou menos uns 35 anos, é bom explicar, porque meia idade é conceito subjetivo demais, mas..bom, vamos voltar antes que eu me perca - e uma mulher de uns 27, ainda na flor da idade. Bom, tem uns que acham que 27 já passou da fase flor da idade e entrou na fase fruta madura, mas é tudo muito subjetivo nessa coisa de idade, ói eu de novo distraindo - um homem e uma mulher separados por umas cinco pessoas naquela fila de uns 20.
Quando chegou a sua vez - a deles- de pagar as contas, cada um de per si – sempre quis usar esse termo mas não queria usar num requerimento ou algo assim - eles pagaram o que tinham ido pagar e compraram um bilhete de loteria. Não, não tinham ido ali pra isso, nem de longe pensavam nisso ao ir ali com o dinheiro justo pras contas a serem pagas e um bocadinho a mais pro ônibus e uma coxinha na padaria da esquina. Quer dizer, coxinha ele, que ela estava de regime e pretendia comprar uma maçã na quitanda e ver se aguentava até à noite.
Ambos, sem comum acordo nenhum, porque como eu disse, nem se conheciam nem estavam juntos na fila, ambos compraram um bilhete de loteria.
Dois: cada um comprou o seu. Foi irresistível. Como se tivesse que acontecer. Aquela coisa de destino, tá sabendo?
Corria no dia seguinte, sábado.
Cada um deles, nas suas camas sozinhos, passou uma parte daquela noite pensando no que faria se ganhasse.
Engraçado, os sonhos nem eram tão diferentes assim. Na realidade, quase iguais. O homem de camisa verde e a mulher de saia roxa – já agora de cueca branca e camisola bege, que estavam nas camas tentando dormir, cada um na sua, não sei se já disse- sonhavam com as mesmas coisas. Casa própria, viagem pra Disney, carro popular zerinho, zerinho, vermelho, é claro, e um banho de loja. Ela, porque ele, nessa parte, queria mesmo era um som moderno, um puta som no carro, tá pensando o que? Carro popular sim, que o prêmio da loteca nem era assim tão grande, mas com um puta som. De abrir o carro na esquina e ser ouvido na praça.
No dia seguinte o sorteio.
Ela até esqueceu do bilhete. Quando viu já era segunda-feira. Pediu pra vizinha o jornal. Não ganhara nada.
Nem ele. Nenhum dos dois.
Você já estava imaginando coisas, né? Isso não é novela das oito, cara!!

Comments
Não há dúvida de que és observadora e tens imaginação.
Gostei muito deste texto.
Posted by: peciscas | maio 7, 2007 1:18 PM
Vc me pegou, pois antes de terminar de ler o texto quase viajei na maionese.
Posted by: humberto | maio 8, 2007 9:24 AM
genial, querida!
Posted by: andrea | maio 8, 2007 5:12 PM
Meu ex-marido dizia (e quem diz que ex não acerta às vezes?) que comprar um bilhete de loteria é comprar o direito de sonhar.
Posted by: Sonia | maio 9, 2007 12:47 AM
Peciscas: sabe que eu nunca na vida comprei um bilhete?? :)
Humberto: as aparências enganam. As letras também.
Andrea: tô esperando vc por aqui de novo! Beijão
Sônia: direito de sonhar todo mundo tem. Com ou sem bilhete, né?
Posted by: maray | maio 9, 2007 1:02 PM
Boa, boa!
Posted by: Marx | maio 16, 2007 9:02 PM