pedagogicamente incorreta
Quando garota minha mãe dizia que mulher tem que saber cozinhar, costurar, essas coisas do século retrasado. Eu abominava. Em parte porque não gostava dessas coisas, em parte (ou talvez principalmente) por serem ditas por ela.
Casei afinal. Sem saber fazer nada. Nada mesmo. Comprei um livro de receita e como tive que fazer comida se quisesse me alimentar (o maridão comia no serviço e era eu quem ficava em casa no horário de almoço) eu fui tateando por ali. Maridão me ensinou a fazer arroz na água, muuuita água, como se fosse macarrão. Aí não grudava. É como faço até hoje, devidamente aggiornatta, uma vez que uso arroz integral em saquinhos.
Sopa eu fazia assim: olhava a geladeira, via tudo que era duro o suficiente pra picar, picava, botava em água e sal mais cubinhos de qualquer gosto e fazia. Hoje faço um pouco melhor: eliminei os cubinhos, cheios de sódio. Mas mantenho o estilo. Sopa é aquilo que eu encontro na geladeira acrescido de água e sal.
Agora café eu sabia fazer! E amendoim doce. Que eram as duas coisas que eu mais gostava. Cigarro eu também gostava muito mas não chegava a ponto de fazer. Nem “daqueles”.
Eu usava filtro de papel e botava muito pó, que eu gosto de café quase sólido. Botava água fervente nas xícaras e no inverno um pouco de conhaque.
Faz uns anos ganhei do filhão uma maquina de café expresso. Agora eu môo na hora o pó pra fazer café, pondo junto um pauzinho de canela ( tem que ser em pau por conta do aroma) e fica ótimo. É a coisa que eu faço melhor na cozinha, seguida de perto por arear panelas, onde sou boa mesmo.
E hoje vejo que tudo que tive que aprender sozinha na vida – pregar botão, fazer barra, cozinhar minimamente, passar roupa, crochê e tricô – podia ter aprendido com minha mãe. Ela tentou ensinar. Mas o diabo era a argumentação. Aquilo de “precisa saber pra casar” entalava na garganta.
Como dizia um professor que tive, tentando me consolar: não existe mau aluno, existe pedagogia ruim...

Comments
Garrapiñada
Esse é o nome! quentinha, crocante e sempre fica um pedacinho entre os dentes.
Tb mate com leite e açucar, imagino hoje com zero cal, puajjjjjj.
Posted by: mauricio | maio 15, 2007 5:26 PM
Lindo texto, como sempre, Maray. E cozinha acolhedora, quiçá, dando razão ao professor...
Posted by: Marx | maio 16, 2007 8:53 PM
Maurício: garrapiñada é o nome que se dá em Montevideo. Aqui acho que é pralinê. Agora mate com leite e açúcar nem pensar! Só café. Preto e forte. Ou leite sozinho. Branco e gelado. O açúcar estou dispensando, infelizmente...
Marx: taí: acho que acolhedora minha cozinha é: clara e limpa. Agora a comida...sei não. Melhor pedir pronta! :)
Posted by: maray | maio 16, 2007 9:48 PM
No hay mal alumno sino que la pedagogía no es la adecuada?
Me sirve como excusa para justificar mi completa incapacidad de hacerme de comer solo.
Una mujer no tiene que necesariamente saber cocinar pero en una pareja tiene que haber por lo menos uno!
Saludos
Posted by: Sandel | maio 16, 2007 10:58 PM
Aqui há um provérbio que vem a propósito:
"a necessidade aguça o engenho".
Quanto à frase do professor, eu que trabalhei nessas funções atá há pouco tempo, estou bastante de acordo.
Posted by: peciscas | maio 18, 2007 2:07 PM