ambiente
Às vezes a gente tem a impressão que os valores, sejam eles morais, éticos, mesmo sentimentais, se posso chamar assim, levam um tempão pra mudarem. Alguns acho que levam mais do que outros, mas quando se olha pra trás, e eu já tenho muito pra trás pra olhar, a coisa anda sim.
Quando eu era pequena, ninguém nunca me disse pra jogar o lixo no lixo. Eu jogava papéis de bala, de chocolate, (salgadinhos na forma como são hoje conhecidos não existiam) e mais tarde, quando comecei a fumar, as bitucas do cigarro onde estivesse. Apesar de ter tido uma mãe neurótica com limpeza, a única coisa que eu sabia que não podia fazer, sob pena de graves consequências, era sujar a casa. Mas o mundo não era minha casa. Minha calçada não era minha casa. Meu país e muito menos o universo eram minha casa.
Hoje vejo que minha casa era muito, mas muito pequenina.
Foram meus filhos quem pela primeira vez chamou a atenção pra eu não fazer isso. Eles estavam ainda no prezinho, com 6 e 4 anos, acho. Reclamavam toda vez que me viam jogar papel no chão. Toda vez que me viam acender um cigarro.
Apesar de ter feito faculdade onde o ensino da biologia e fisiologia eram obrigatórios, foi com minhas duas crianças que aprendi o que é ecologia. E o tamanho da minha casa foi aumentando. Porque eu percebi que a minha calçada tinha que ser limpa, que minha rua tinha que ser limpa, que minhas árvores tinham que se decentemente podadas, que não posso sair por aí jogando pilhas, lixo ou o que for. Que as coisas acabam. Inclusive a vida humana. E depende de mim também que ela se prolongue.
Políticas governamentais são necessárias. Mas a gente não é criancinha pra esperar que o governo faça tudo. A nossa parte é grande também.
A primeira vez que interrompi um adolescente que pichava um banco de ônibus, morri de vergonha. Eu! Como se eu estivesse errada e aquele garoto com um canivete na mão pudesse fazer o que quisesse. Mas engoli a vergonha e reclamei. Ele parou. Desceu em seguida, sem olhar pra mim. Ou seja, ele sabia que o que fazia não era legal. Talvez sentimento igual ao que eu sentia quando meus filhos me diziam pra não fumar. E eu fumava. Até que consegui parar.
Demora, mas olhando pra trás, nem tanto. E vale a pena.

É um charme, não é? Ele, não o cigarro. Mas a gente confundia.
Comments
Muito bom, me identifiquei muito com o artigo, aos poucos, vamos mudando nossa visão e percebendo que nossa casa é bem maior do que achamos. só espero que não seja tarde demais.
Posted by: Luís Arruda | maio 11, 2007 1:44 AM
Vim conhecer seu blog depois de rir muito com o seu comentário no Rafael.
Quanto ao post, a consciencia ecologica das crianças realmente é um porto seguro.;0)
beijos.
Posted by: Vivien | maio 11, 2007 6:59 PM
A gente cresce e amadurece. O importante é melhorar.
PS - Posso publicar este post no "Faça a sua parte"?
Posted by: Allan | maio 13, 2007 9:17 AM
Luís: nunca é tarde demais. Muito mal, nessa área de devastação já foi feito. Mas sempre é tempo de melhorar.
Vivien: as crianças ensinam!
Allan: claro que pode publicar. Aliás, cadê você? Anda desaparecido. Problemas?
Posted by: maray | maio 13, 2007 9:11 PM
post perfeito (talvez pela minha extrema identificação com ele)
bj
Posted by: gugala | maio 14, 2007 10:16 PM
criança ensina pq faz a gente repensar nos conceitos todos. aí a gente descobre que nem precisa continuar como estava...
Posted by: andrea | maio 15, 2007 1:20 AM
Perfeita a frase-legenda para a foto. Não que não tenha gostado do post; longe disso, mas é que a legenda foi fecho de ouro.
Posted by: Ricardo M | maio 15, 2007 4:37 PM
Melhor que todas as pedagogias institucionais é mesmo a chamada de atenção. Quantos papeis já fiz apanhar do chão. Alguns, até, apanhei eu, pelos prevaricadores. À frente dos próprios. Dá uma confusão nas cabecinhas que depois não querem repetir...
Posted by: Marx | maio 16, 2007 8:59 PM