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maio 31, 2007

sibéria

Levanto com a cabeça doendo. O pescoço pra dentro, como uma tartaruga velha. O cocoruto lateja. Ao por os pés pra fora da cama, as panturrilhas enrijecidas gritam. Ou gritariam, se tivessem voz. Mas meus ouvidos internos pras dores do dia a dia ouvem as panturrilhas. E todo o resto.

Ao lavar o rosto, num ato heróico, a água corta a cara. As mãos azulam. Fico pensando que é mais ou menos como ficarei depois de algumas horas de morta. Afasto o pensamento macabro e enxugo com força o rosto. Pra ver se o sangue volta.

Faço as necessidades básicas e lembro um trecho de livro lido ainda na infância. Era sobre alguma das guerras vividas na sibéria. Contava que muitos soldados morriam no simples ato de fazer cocô. Enregelavam. Penso duas vezes mas não estou na Sibéria. Faço o que tem que ser feito.

E penso também na necessidade de trocar de roupa. Que hábitos a cultura nos impõe! Quando será que foi criada essa história de dormir com uma roupa e botar outra durante o dia? Não existe a moda “lingerie” aparente? Ou as calças largas, as “palazzo pijamas” ? Mas sei que se sair a rua com a “minha” calça larga de pijama não enganarei nem por um momento.

Gozado isso: os fashionistas compram calças rasgadas e puídas. Vestem malhas moles e desbotadas. Seus cabelos parecem saídos de uma semana de cama e febre altas, todos melados e revoltos. Mas se você, por um momento que seja, sair à rua como acorda, ou com seu pijama velho e cabelo sem pentear, todos se voltam pra olhar. É muito difícil de entender.

Resignada, entro no box pro banho. E saio de lá enrugada, esbranquiçada, soltando vapor por todos os poros, quase uma hora depois.

No meio do fog diviso no armário a próxima tarefa a ser cumprida. Escovar os dentes.

Será que dá pra escovar os dentes com chocolate quente??

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maio 30, 2007

considerações

Eu gosto de dar nomes às coisas. Desde nome de gente (foi ótimo buscar nomes pros filhos) até nomes de blogs, de bandas, de jornais. Nome é comigo mesma.

Assim, se há uma coisa que me fascina, são os nomes que se dão aos escândalos políticos nesse país. E às operações policiais. Fico pensando que deve haver todo um departamento, ou pelo menos um sujeitinho criativo que se diverte nessas horas.

Denunciar o caso Gautama? Operação Navalha! Pra quem prestou atenção no bigodaço do denunciado, nada mais necessário do que uma navalha...sim, porque duvido muito que a navalha essa seja em homenagem aos cortes que se farão naquele (mais um) nicho de corrupção.

Lembram da recente operação Hurricane? Creio que a pronúncia ficava meio complicada então houve alguns mais apegados a língua pátria que a chamavam de operação Furacão, traduzindo. Tá bom, não vamos entrar aqui na questão se aquilo ali foi um furacão ou uma brisa passageira...

E aquele mais antiguinho pouquinha coisa, a operação Anaconda? O filme ainda estava recente na cabeça do pessoal. Aliás, que filme!! Acho que só perdeu mesmo pros tubarões 1, 2, 3..

Assim, o que me dá inveja é desse cara, perdido atrás de uma mesa cheia de papéis, em algum departamento do ministério ou da PF, dando tratos à bola pra buscar nomes. Ele sim, deve se divertir!

Que pelo menos alguém se divirta com essa coisa toda.

E que ria, detrás daquela mesa. Enquanto todos os outros riem por aí.

De nós.

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maio 25, 2007

lista das sete coisas

O Renato, do Tordesilhas recebeu essa lista e sugeriu a continuação da coisa. Não vou passar adiante com nome estipulado, mas achei legal fazer e bem que gostaria de saber das opções de amigos e amigas da rede! Deve ser aquele gosto ancestral em buscar semelhanças...Aí vai, a lista das sete coisas:

Sete coisas que faço bem:

1.arrumar casa
2.cortar grama
3.escrever
4.comida vegetariana
5.desenhar
6.descobrir informações
7.fazer o outro falar
( sei que os dois últimos tópicos me fazem parecer do DOI-CODI, mas é que sou boa ouvinte e tenho memória pra coisas que me contam)

Sete coisas que não faço e não sei fazer

1.andar de bicicleta
2.contar segredos
3.dançar street (por enquanto)
4.entrar em caverna
5.maltratar animal
6.cuidar de criança doente
7.ter paciência com gente insistente

Sete coisas que me atraem no sexo oposto

1.Inteligência
2.Senso de humor
3.Tolerância
4.Justiça
5.Olhos verdes
6.Coxa grossa
7.Mão grande

Sete coisas que não suporto no sexo oposto

1.Burrice
2.Insistência
3.Preconceito
4.Desumanidade
5.Maucaratismo
6.Barrigão
7.Voz fina

Sete coisas que digo com frequência

1.Nada dura cinco minutos. Nem mesmo cinco minutos.
2.Quem procura acha.
3.Levou a chave?
4.Cadê meus óculos?
5.Mais baixo, por favor.
6.Tô bem assim?
7.Droga!

Sete atores/atrizes que eu gosto:

1.Fernanda Montenegro
2.Vitório Gassmann
3.Marco Nanini
4.Michelle Pfeiffer
5.Johnny Depp
6.Marieta Severo
7.Sérgio Viotti

Sete atores/atrizes que eu detesto

1.Robert de Niro
1.Barbra Streisand
3.Adriana Esteves
4.Silvester Stalone
5.Angelina Jolie
6.Mauricio Mattar
7.Keanu Reeves

Sete filmes que eu adoro

1.Bye Bye Brasil
2.O Baile
3.Tango
4.A era do gelo
5.Two mules for sister Sara
6.Gaviões e passarinhos
7.Fantasia

Sete livros favoritos

1.Robinson Crusoé
2.Fome
3.Ensaio sobre a cegueira
4.Cem anos de solidão
5.O crime do padre Amaro
6.A leste do Éden
7.A divina comédia

Sete lugares favoritos

1.Ilha grande
2.Paraty
3.São Francisco Xavier
4.Buenos aires
5.Montevidéo
6.Porto Alegre
7.Salvador

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uma ilha de beleza


maio 23, 2007

vidas passadas

Nunca paguei (e nem de graça toparia) pra alguém me remeter a vidas passadas. Já me remeteram a muitos lugares, entre bons e nem tanto, mas a vidas passadas não ainda.
Então eu mesma me remeto. Sim, porque quem mais sabe da minha vida se não eu?

Pois, levando em conta os dejavus que já tive, certos pendores naturais que pareço ter trazido do berço e muitas dificuldades injustas e inexplicáveis à luz da razão, sei com certeza que em vidas passadas fui arrumadeira do castelo da Maria Antonieta.

Senão vejamos. Esse nome: Antonieta, era o nome da minha mãe. Uma mulher autoritária e que fazia brioches como ninguém. Fazia outras comidas também, mas era boa nos pães.

Segundo ela, por ser filha de padeiro. Segundo minha teoria, por ter sido, ela mesma, Maria Antonieta em outra encarnação. Fazer pães com as próprias mãos entrou na história como um karma, uma punição a ser cumprida a quem com tanto descaso tratou a plebe ignara.

Arrumadeira: essa coisa inexplicável que me faz arrumar desde os quadros tortos do consultório do meu dentista até o vaso de plantas da estação rodoviária. É mais forte do que eu. Como se uma voz ancestral me impelisse a botar ordem e simetria. Tudo bem, eu poderia ter sido Deus, o que fez ordem do caos. Mas não sou tão boa arrumadeira assim...Então devo ter sido mesmo do castelo da Antonieta: a quinta na ordem hierárquica a contar do moço da estrebaria. De baixo pra cima. À esquerda de quem entra. Onde eu estava mesmo?

Ah, vidas passadas! Como explicar, a não ser por vidas passadas, essa claustrofobia? Essa hérnia cervical? Claro! Devo ter sido guilhotinada junto com a patroa. Daí a sequela na cervical que guardo até hoje. Daí a dificuldade em levantar vidraças. Daí a facilidade em me cortar com qualquer tipo de lâminas, mesmo as descartáveis!

E o gosto por roupas vintage? Por colares e pulseiras baratos? (arrumadeira não tinha salário bom naquela época. A luta continua! ) Menos perucas, que odeio! Claro, daí deve ter vindo minha rinite! Sabe lá o que é espanar centenas de perucas que a Antonieta aquela devia ter? Sequela: uma rinite que atravessa os séculos!

Então é isso. Vidas passadas é fogo! Algum dia desses ainda regrido a vidas mais antigas ainda. De vez em quando noto uma irmandade suspeita entre os camelos e eu. Fora que são meu animal preferido. Só não sei bem a ordem: terei sido um camelo em Agadir ou uma arrumadeira que camelou demais e adquiriu essa simpatia pelo bicho??

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maio 18, 2007

vida confusa

Não que eu seja muito chegada em listas. Mas faço algumas. De supermercado. Só por fazer, porque virou rotina, uma vez que venho fazendo supermercado nas últimas décadas e por mais lentinha que eu seja, já tenho a manha. Faço também lista de roupas quando vou viajar. E listas de coisas a fazer nas férias do meu marido. De coisas pra ELE fazer. Quem manda ele ser prendado? Mas acho que são só essas listas.

Mas outro dia, quando se estabeleceu aqui em casa mais uma discussão sobre direita e esquerda e não, não estávamos falando de política, decidi fazer esta lista: a lista das coisas que eu tenho a maior dificuldade em distinguir.

Coreano de vietnamita
Boliviano de peruano
Direita da esquerda (nos pés, as mãos eu consigo)
Azedo do amargo
Ácido do azedo
Longitudinal e transversal
Longitude e latitude
Erva doce do salsão
Mangerona do mangericão
Zezé di camargo do Luciano
Xitãozinho do Xororó
A dupla Zezé di Camargo e Luciano da dupla Xitãozinho e Xororó
Sushi e sashimi
Watt de volt
Parafina de purpurina ( eu sei a diferença, só confundo na hora de falar)


Acho que todo mundo deve ter algum desses problemas. Ou não?

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mangerona ou mangericão?


maio 15, 2007

pedagogicamente incorreta

Quando garota minha mãe dizia que mulher tem que saber cozinhar, costurar, essas coisas do século retrasado. Eu abominava. Em parte porque não gostava dessas coisas, em parte (ou talvez principalmente) por serem ditas por ela.

Casei afinal. Sem saber fazer nada. Nada mesmo. Comprei um livro de receita e como tive que fazer comida se quisesse me alimentar (o maridão comia no serviço e era eu quem ficava em casa no horário de almoço) eu fui tateando por ali. Maridão me ensinou a fazer arroz na água, muuuita água, como se fosse macarrão. Aí não grudava. É como faço até hoje, devidamente aggiornatta, uma vez que uso arroz integral em saquinhos.

Sopa eu fazia assim: olhava a geladeira, via tudo que era duro o suficiente pra picar, picava, botava em água e sal mais cubinhos de qualquer gosto e fazia. Hoje faço um pouco melhor: eliminei os cubinhos, cheios de sódio. Mas mantenho o estilo. Sopa é aquilo que eu encontro na geladeira acrescido de água e sal.

Agora café eu sabia fazer! E amendoim doce. Que eram as duas coisas que eu mais gostava. Cigarro eu também gostava muito mas não chegava a ponto de fazer. Nem “daqueles”.

Eu usava filtro de papel e botava muito pó, que eu gosto de café quase sólido. Botava água fervente nas xícaras e no inverno um pouco de conhaque.

Faz uns anos ganhei do filhão uma maquina de café expresso. Agora eu môo na hora o pó pra fazer café, pondo junto um pauzinho de canela ( tem que ser em pau por conta do aroma) e fica ótimo. É a coisa que eu faço melhor na cozinha, seguida de perto por arear panelas, onde sou boa mesmo.

E hoje vejo que tudo que tive que aprender sozinha na vida – pregar botão, fazer barra, cozinhar minimamente, passar roupa, crochê e tricô – podia ter aprendido com minha mãe. Ela tentou ensinar. Mas o diabo era a argumentação. Aquilo de “precisa saber pra casar” entalava na garganta.

Como dizia um professor que tive, tentando me consolar: não existe mau aluno, existe pedagogia ruim...

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maio 10, 2007

ambiente

Às vezes a gente tem a impressão que os valores, sejam eles morais, éticos, mesmo sentimentais, se posso chamar assim, levam um tempão pra mudarem. Alguns acho que levam mais do que outros, mas quando se olha pra trás, e eu já tenho muito pra trás pra olhar, a coisa anda sim.

Quando eu era pequena, ninguém nunca me disse pra jogar o lixo no lixo. Eu jogava papéis de bala, de chocolate, (salgadinhos na forma como são hoje conhecidos não existiam) e mais tarde, quando comecei a fumar, as bitucas do cigarro onde estivesse. Apesar de ter tido uma mãe neurótica com limpeza, a única coisa que eu sabia que não podia fazer, sob pena de graves consequências, era sujar a casa. Mas o mundo não era minha casa. Minha calçada não era minha casa. Meu país e muito menos o universo eram minha casa.

Hoje vejo que minha casa era muito, mas muito pequenina.

Foram meus filhos quem pela primeira vez chamou a atenção pra eu não fazer isso. Eles estavam ainda no prezinho, com 6 e 4 anos, acho. Reclamavam toda vez que me viam jogar papel no chão. Toda vez que me viam acender um cigarro.

Apesar de ter feito faculdade onde o ensino da biologia e fisiologia eram obrigatórios, foi com minhas duas crianças que aprendi o que é ecologia. E o tamanho da minha casa foi aumentando. Porque eu percebi que a minha calçada tinha que ser limpa, que minha rua tinha que ser limpa, que minhas árvores tinham que se decentemente podadas, que não posso sair por aí jogando pilhas, lixo ou o que for. Que as coisas acabam. Inclusive a vida humana. E depende de mim também que ela se prolongue.

Políticas governamentais são necessárias. Mas a gente não é criancinha pra esperar que o governo faça tudo. A nossa parte é grande também.

A primeira vez que interrompi um adolescente que pichava um banco de ônibus, morri de vergonha. Eu! Como se eu estivesse errada e aquele garoto com um canivete na mão pudesse fazer o que quisesse. Mas engoli a vergonha e reclamei. Ele parou. Desceu em seguida, sem olhar pra mim. Ou seja, ele sabia que o que fazia não era legal. Talvez sentimento igual ao que eu sentia quando meus filhos me diziam pra não fumar. E eu fumava. Até que consegui parar.

Demora, mas olhando pra trás, nem tanto. E vale a pena.

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É um charme, não é? Ele, não o cigarro. Mas a gente confundia.

maio 5, 2007

vidas em fila

Na realidade, nem estavam lá pra comprar bilhete nenhum. Estavam lá - o homem de camisa verde e a mulher de saia roxa - só pra pagar contas. Todo mês aquela preocupação se daria pra pagar todas elas, as contas. A ida à lotérica com as possíveis de serem pagas e a fila. E é nas filas que um sujeito fica entregue a si mesmo e aos seus pensamentos. Porque não há muito mais que fazer na fila. Pode olhar o traseiro dos outros, os cabelos, os sapatos, os perfis e as costas. Mas depois de um certo tempo cansa. E só sobra o próprio sujeito e seus pensamentos. Quer queira quer não.

E eles não queriam, mas depois de um certo tempo...bom, já expliquei. O que não expliquei e pode não ter ficado claro é que eles nem estavam juntos. Nem mesmo um depois do outro na fila. Era só isso: um homem de meia idade - mais ou menos uns 35 anos, é bom explicar, porque meia idade é conceito subjetivo demais, mas..bom, vamos voltar antes que eu me perca - e uma mulher de uns 27, ainda na flor da idade. Bom, tem uns que acham que 27 já passou da fase flor da idade e entrou na fase fruta madura, mas é tudo muito subjetivo nessa coisa de idade, ói eu de novo distraindo - um homem e uma mulher separados por umas cinco pessoas naquela fila de uns 20.

Quando chegou a sua vez - a deles- de pagar as contas, cada um de per si – sempre quis usar esse termo mas não queria usar num requerimento ou algo assim - eles pagaram o que tinham ido pagar e compraram um bilhete de loteria. Não, não tinham ido ali pra isso, nem de longe pensavam nisso ao ir ali com o dinheiro justo pras contas a serem pagas e um bocadinho a mais pro ônibus e uma coxinha na padaria da esquina. Quer dizer, coxinha ele, que ela estava de regime e pretendia comprar uma maçã na quitanda e ver se aguentava até à noite.

Ambos, sem comum acordo nenhum, porque como eu disse, nem se conheciam nem estavam juntos na fila, ambos compraram um bilhete de loteria.

Dois: cada um comprou o seu. Foi irresistível. Como se tivesse que acontecer. Aquela coisa de destino, tá sabendo?

Corria no dia seguinte, sábado.

Cada um deles, nas suas camas sozinhos, passou uma parte daquela noite pensando no que faria se ganhasse.

Engraçado, os sonhos nem eram tão diferentes assim. Na realidade, quase iguais. O homem de camisa verde e a mulher de saia roxa – já agora de cueca branca e camisola bege, que estavam nas camas tentando dormir, cada um na sua, não sei se já disse- sonhavam com as mesmas coisas. Casa própria, viagem pra Disney, carro popular zerinho, zerinho, vermelho, é claro, e um banho de loja. Ela, porque ele, nessa parte, queria mesmo era um som moderno, um puta som no carro, tá pensando o que? Carro popular sim, que o prêmio da loteca nem era assim tão grande, mas com um puta som. De abrir o carro na esquina e ser ouvido na praça.
No dia seguinte o sorteio.

Ela até esqueceu do bilhete. Quando viu já era segunda-feira. Pediu pra vizinha o jornal. Não ganhara nada.

Nem ele. Nenhum dos dois.

Você já estava imaginando coisas, né? Isso não é novela das oito, cara!!

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maio 2, 2007

de dor, bois e verbos esquisitos

O que leva as pessoas a sentirem dor e gostarem disso? Dizer que é masoquismo puro só dá nome aos bois. Eu não quero só dar nome aos bois. Quero saber pra que serve o boi. De onde veio e pra onde vai.

Tá bom, o boi não me interessa tanto assim, eu que nem carnívora sou. É só uma imagem pra tentar fazer quem me lê entender minha profunda indagação a respeito da dor humana.

Ontem ouvi um ex-recente campeão de natação dizer que se aposenta. Aos 32 anos. E dizer das muitas dores que sempre sentiu por 18 (!!) anos.

Ainda nestes dias vi um professor de educação física falar quase a mesma coisa. Mas esse, ao contrário, não se aposenta. Continua. E diz que pra se sentir forte mesmo, fazendo esporte como se deve (!!) tem que sentir dor.

Na sequência dos eventos que me embasbacaram, peregrinos do caminho do sol adoram o passeio porque sentem-se superando obstáculos, como por exemplo, a dor.

Nesses casos todos a dor está relacionada à competição, foi o que deduzi. À competição com os outros, à competição consigo mesmo.

Ora, se eu compito (sei que o verbo dessa forma fica horroroso, mas existe sim, conferi) eu compito com alguém. Que esse alguém seja eu mesmo não modifica o fato de que são dois.

Eu e eu. Ou seja, esquizofrenia é pouco pra essa dupla personalidade. Não só me divido em dois como ainda estabeleço competição nessa mente sub-dividida. E “me supero” !! E a superação nos casos citados vem carregada de dor e sacrifício.

Isso tudo é muito louco pra mim. Que as pessoas façam coisas estranhas por conta de fama e prêmios por vezes irrisórios já me custa aceitar. Agora que elas façam coisas sentindo dor, podendo evitar!! Sim, porque há as dores inevitáveis. Essas não tem jeito. Há que se aguentar.

É isso ou a morte e a morte ainda acho pior que a dor. Pelo menos as que senti até hoje. Mas sentir dor e sentir prazer com ela! Se machucar e achar que valeu! Brigar consigo mesmo, ganhar de si mesmo, doer e machucar, e gozar com a superação!

Superação de que, cara pálida?

E o prazer advindo da felicidade, da risada gostosa, do calorzinho no cangote, da barriga em deleites e os pensamentos em paz?

Cadê os bons e velhos prazeres da vida, as cosquinhas no ego??

Dor, heim? Tô fora!!
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