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mil e duas utilidades

Bom Bril tem mil e uma utilidades, dizia-se. Tinha. Talvez ainda tenha mas não mais pra mim, sem muita paciência pra me esfalfar nas utilidades todas dele. Mas ali no fim dos anos 50, quando eu me mudei pra Cidade Monções, bairro novo na época, fui morar bem ao lado da fábrica da Bom Bril. Isso acabou por me trazer e à minha infância, certas recordações que incorporaram, definitivamente, a fábrica à minha vida. Minha casa ficava num terreno grande, ladeada pelo lado esquerdo e pelos fundos pela fábrica. Encravada nela.

Isso significou que eu marcava hora pelo apito da fábrica, que não era como a de tecidos, do Noel Rosa, mas apitava religiosamente pra entrada dos turnos dos operários. Que entravam em tropel num corredor ao lado da nossa casa.

Isso significou que, nos primeiros anos em que a gente morou lá, nunca mais comprou a esponja de aço. Não porque não gostasse, mas porque não precisávamos. Num terreno baldio defronte à fábrica eram jogados (ô falta de consciência ecológica) todos os restos de esponja com defeito, de forma não desejada, de textura não adequada. Os terrenos baldios da época não tinham muro. Então toda a vizinhança entrava e se servia dos montes de esponja inadequados pra venda mas perfeitamente usáveis.

Também significou uma adolescência com um estoque particular de afagos no ego. Ali, quando o mundo ficava sombrio e parecia cair sobre a minha cabeça, era só ir ou voltar do colégio, passando em frente da fábrica, pra voltar restaurada pelos assobios e gracinhas. Eu nunca fui bonita mas o pessoal da fábrica não tinha muitas opções ali naquele fim de mundo. Bons tempos aqueles!!

Já pra minha prima a fábrica, melhor dizendo, as esponjas, tinham uma utilidade fashion: mais velha do que eu uma década, pedia-me pra guardar as esponjas grandes que ela usaria nas “bananas”, uma espécie de coque que se fazia na parte de trás da cabeça e que ela recheava com Bom Bril pra dar volume!

Minha mãe desfiava as partes enferrujadas e punha nos antúrios dela. Ela achava que melhoravam a terra. Não sei não. Nessa de botânica amadora minha mãe certa vez, matou todos esses mesmos antúrios porque molhou todas as folhas com óleo de cozinha, “pra brilharem mais”. Resultado, as plantas lambuzadas e sem poder respirar morreram todas. Mas ela começou de novo. Podia ser péssima botânica mas, como eu, era teimosa como uma mula.

Depois de muitos anos a fábrica saiu de lá. O lugar se urbanizava e a fábrica ficara pequena. Eu também casei e saí de lá. E, finalmente, meus próprios pais, muito a contragosto, também saíram de lá, uma vez que o bairro, acometido pela verticalização que assolou a cidade no fim da década de 60 e começo de 70, botou abaixo suas casas térreas de grandes terrenos pra levantar prédios. Pra entupir de apartamentos pequenos cheios de carros que, por sua vez, entopem as ruas planejadas pra tráfego menor. Mas isso é outra história.

Bom Bril tem mil e duas utilidades. Acabo de descobrir que a esponja trouxe a tona mais um pedaço de mim.

esponja.jpg

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Comments

Cabelo armado com Bom-Bril? Ai que horror! Eu também usei - que vergonha.

E aí Maray!!
Eu sumo, não comento os posts, mas sempre que posso dou uma passadinha por aqui!
Você acredita que esse papo de Bombril mil e uma utilidades impregna na mente das pessoas? Minha mãe, por exemplo, só usa bombril... E ai do meu pai se ele trouxer outra esponja de aço!!!

Feliz Páscoa!
Beijocas

Excelente relato sobre arqueologia industrial. Também por aí se vê como o tempo vai modificando o mundo que nos rodeia. A sua escrita, Maray, reflecte isso muito bem. Como num filme dos anos 40 ou 50, filmado em cores púrpura.

Adorei as reminiscências. Vovó também usava bombril para rechear os coques. Tinha tão pouco cabelo, a pobrezinha. O problema foi que, com o passar dos anos, os cabelos foram branqueando e o Bombril não acompanhou. Teve que arrumar outro recheio!

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