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abril 28, 2007

eu, você, nós, todo mundo

A gente repete que repete ser animal. Mas não tem ninguém que eu conheça que não queira ser mesmo é original. Podemos até aceitar sermos animais mamíferos, primatas, o diabo a quatro uns, à semelhança de algum deus, outros. Mas o difícil é aceitar ser igual. Bilhões de gentes iguais.

Tá bom, algumas diferenças de personalidade, de conduta, de moral. Umas poucas diferenças por fora de cor, de forma de olhos, de corpo, de pernas e braços. Mas igual. Visto de longe, tudo igual. Ou, como disse o Caetano, de perto ninguém é normal. Mas que é igual é.

Eu, de uns vinte anos pra cá, desenvolvi uma certa claustrofobia. Achava que era a MINHA claustrofobia. Fruto das minhas vivências, dos meus amores e dissabores, uma coisa muito pessoal.

Até conhecer esta coisa de orkut. E suas comunidades sobre claustrofobia. Até descobrir, naquela bisbilhotice típica de orkuteiros novos, que ficam lendo tudo quanto é forum, que aquilo que eu supunha ser a minha claustrofobia, aquela coisa tão pessoal, está lá, com todas as letras e – tenho que reclamar- infinitos erros de português- mas está lá. Definida como eu mesma faria, se me dedicasse a definir a minha claustrofobia.

Eu não gosto de vestir e desvestir roupas apertadas. Principalmente na passagem pelo pescoço. Está lá. Com todas as letras.

Eu não gosto de aviões. Depois que fecha a porta e a comissária começa sua arenga. Está lá também. Eu e a torcida do Corinthians.Do River Plate também, vá lá.

Eu não gosto de elevadores. Cheios, gosto menos ainda. Também está lá.

Eu não curto cinemas, quartos com janelas e vidros fechados, shoppings que eu não veja a saída, caverna, então, nem morta! Também está lá a horda toda que é igual a mim.

Agora não curtir sentar no banco de trás de carro com duas portas aí já é demais!
Está lá mas não está cá!
É só abrir a janelinha, pô!!

Eita gente exagerada...

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Gravura de George C. Tooker

abril 25, 2007

dos males o remédio

Há alguns anos atrás fui internada por conta de uma hernia de disco e alguns bicos de papagaios mal parados. Uma semana depois saí do hospital com recomendações físicas e psicológicas precisas. Muita fisioterapia, acupuntura, RPG e fugir de problemas.

A fisioterapia, a acupuntura, o RPG fiz direitinho. E faço, sempre que sinto a coisa – meu trapézio – endurecer. As omoplatas levantam até quase as orelhas numa tentativa frustrada de esconder o mundo de fora, tão inóspito. Os trapézios enrijecem, as costas arqueiam. É a dança dos desesperados, sem allegro mas cheia de fugas.

Mas aquela parte de fugir dos problemas nem sempre dá.

Tem os bancos. Não, não os bancos duros de jardim, incômodos, nem os bancos de escola ou de ônibus. Os bancos aqueles que dominam este país. Que são o setor que mais lucra nos últimos anos. Que têm tudo o que querem e mais alguma coisa. Os bancos de dinheiro. Aquela instituição que, não faz tanto tempo assim, vinha, através dos seus gerentes, implorar pra que fizéssemos investimentos lá, que depositássemos o dinheiro lá, que déssemos a eles a honra de administrar nossa grana.

E a burocracia. Você junta um banco com a burocracia e voilá! Uma crise de coluna! Mais rinite e dor de cabeça como efeito colateral.

Eu tento seguir conselhos médicos, eu bem que tento fugir de problemas, mas, como diria nosso memorável Garrincha: alguém avisou aos bancos disso?


Mudando de assunto, de dor para prazer, dia 5 de maio vai haver a Virada Cultural. Idéia demagógica da prefeitura, faz um tremendo estardalhaço por conta de shows e apresentações, todas aglutinadas em 24 horas. Em todo caso, vamos ter a “maior milonga do Brasil” no Mercado Municipal.Começa às 18h de sábado, a Noite Argentina. Num lugar muito bonito, como é o Mercado. Recomendo pra quem quer conhecer, ouvir tango ao vivo ( vão estar lá duas típicas) e dançar. E comer, porque todos os restaurantes do Mercado estarão abertos. Das 18 horas de sábado até 18 horas de domingo. Tem um site pra quem quiser se programar: www.viradacultural.com.br
Ao tango, então! Relaxa, passa dor nas costas e faz esquecer burocracia...

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abril 20, 2007

de graça até injeção...

Lendo o Domingos – ah, as possibilidades que a internet te dá! Poder chamar um cara que admiro tanto e não conheço de “Domingos”, assim, como se encontrasse na padaria toda manhã. Na realidade, encontro de manhã na minha salinha do micro, que é quase a mesma coisa – mas lendo o Sítio, onde ele relembra as balas que vinham com figurinhas pra colecionar, vieram-me à memória os meus “brindes”, pela vida afora.

Garrafinhas de coca-cola- não sei quantas tampinhas precisava juntar. Mas tive umas poucas. Meu filho também, o que mostra que de geração a geração a Coca Cola ataca. E não muda nem o brinde.

Bonequinhos de plástico azul do Mickey, do Pateta- não lembro quem distribuía, mas eu tive. Punha na estante, como prêmio. Minha mãe não deixava ter gibis em casa. Proibia a leitura como se fossem catecismos do Zéfiro (que eu também li) mas eu tinha as figurinhas do Disney. E lia gibis na biblioteca de Santo Amaro, que nunca foi tão ortodoxa como minha mãe...

Potinhos miniatura do leite de aveia Davene- esses a gente ganhava ,depois de ficar horas numa fila,na feira de utilidades domésticas- a UD. Não sei se ainda existe. Nem a feira nem a Davene. E leite de aveia pra mim hoje é leite com flocos de aveia, uma coisa assim bem de criança e velho...

Sorvetes picolé- uma certa época a Kibon dava sorvetes extra pra quem achasse o palito com uma certa marca. Ganhei pouquíssimos, porque nunca gostei muito de sorvete. Mas ganhei um ou dois.

Perfumes miniatura- são ótimos! Até hoje não resisto a uma oferta dessas em shopping. O diabo é que ultimamente os muito muquiranas estão distribuindo cartõezinhos com o cheiro e não mais miniaturas de vidro, que pareciam tubo de ensaio e chegavam a durar meses. Droga!

Lápis com taboada impressa e régua- brinde preferido na época do primário. Nos dias de prova as professoras não deixavam usar esses lápis! Nossa, como estou velha!! Hoje elas reclamam dos palm-top e celulares...

Imã de geladeira com propaganda- vem aos montes. Entopem a caixa de correio. Odeio. Qualquer imã de geladeira. Tenho dois escondidos pra botar algum recado urgente e só. Odeio ficar limpando coisinhas pequeninas, principalmente na cozinha.

Flyers com entrada gratuita em casa noturna- meus preferidos atualmente. E mais uma vez o povo exorbita do direito de ser unha de fome com brindes: um monte de casas faz o brinde tipo pacote: você tem que ir umas dez vezes pra ganhar uma entrada...Como milhagem. Se bem que eu danço muito mais do que vôo. Mas acho sacanagem.

Esses são só os que lembro, mas brinde é legal. Deve ser pra todo mundo. Isso de ganhar presente, por pior que seja, sempre é bom. Mesmo quando você olha, dá risada e joga na lixeira.

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abril 16, 2007

placa indicativa

Feliz de quem sabe pra onde vai porque pelo menos sabe se está chegando ou ainda falta muito.

Podia haver um cartaz assim, no meio do caminho. Mas não. No meio do caminho, quando muito, como dizia o poeta, há uma pedra.

Dependendo do tamanho da pedra, dá pra dar a volta. Ou escalar. Eu não. Eu sempre tenho a impressão, quando encontro essas pedras, que tenho que cavar fundo. Cavar por baixo, pra ver se chego do outro lado.

O problema é que lá embaixo não tem uma porra de indicação de onde a pedra começa e onde acaba. Você fica cavando, feito preso desastrado que cava e cava e quando decide que chegou ao fim, sobe à superfície e se descobre dentro ainda do pátio da prisão, com aquele monte de guardas e cachorros olhando zombeteiros. Os guardas. Os cachorros não zombam. Não perdem tempo com isso.

Não dá nem pra dizer que eu é que encontrei a pedra. Digamos que ela se postou à minha frente.

Ô pedra malcriada!
Bóra lá cavar.

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E esse texto daqui vai pros meus amigos de lingua espanhola que tentam sempre me entender. Vou tentar facilitar um pouco a vida de vocês. O texto é pra Feira de Livros que se realiza em Buenos Aires. Vão lá! E obrigada a Paula pelas correções no portuñol.

Ferias
Fui a muchas ferias en mi vida. Durante una década, por lo menos, iba a la feria con mi papá. Feria de comidas, frutas y verduras, semanal. Si mi memoria no me falla –y cómo falla– esa feria tenía lugar los domingos.

Después fui algunas veces a la feria de Ciencias. En realidad, nunca me gustó mucho esa feria, pero era ir o ir. La escuela no nos daba opción. Si no íbamos, perdíamos puntos en la nota. Y yo era, soy y probablemente seré siempre, muy susceptible a chantajes.

Noviando, iba a ferias de utilidades domésticas. Quien se casa quiere casa, dicen. Nosotros nos queríamos casar y queríamos casa. Casarnos sí, lo hicimos. Pero la casa demoró unos 8 años sólo para empezar a pagarla. Y otros 15 para terminar. Ciertos sueños son muy difíciles en este país. Pero nosotros íbamos a las ferias y nos quedábamos mirando embobados aquellas pantallas hi-tech, aquellos aparatos de cocina, aquellos almohadones que prometían sustituir hasta la misma compañía al lado, con ventajas. Feria de utilidades domésticas, el sueño pobre de la clase media pobre.

Y finalmente la Feria del Libro. En Buenos Aires. Nunca fui. No, a Baires ya fui, muchas veces. Baires es la tierra de las librerías. Y de los cafés. Y podés leer libros allí sin que nadie venga a traer la cuenta ni te mire feo. Podés quedarte hasta la eternidad leyendo libros en esos cafés.
Debe ser fantástica la Feria del Libro en Baires. Pero yo no estaré allí.

Entretanto, Paula sí, va a estar.

Si estuviera allí, no faltaría. Compraría unos cuantos libros, iría al primero café que encontrase, pediría un expreso con medialunas y me quedaría allí, leyendo.
Hasta la eternidad.

No, hasta la eternidad, no. Pensándolo mejor, saldría un ratito antes para milonguear.

Hasta la eternidad.

abril 11, 2007

breve digressão antes de (tentar) dormir

Houve uma época em que eu botava a cabeça no travesseiro, fechava o olho e abria. E tinham se passado 10, 9 horas. Eu ficava meio chateada: pô, nem deu pra curtir a noite!

Depois foi demorando um pouco mais pra fechar o olho: bons tempos de papo na cama, leitura na cama, comer na cama, comer na cama, por aí...Levava algum tempinho pra fechar o olho. E até abrir de novo levava menos. Umas oito ou sete horas.

O tempo continuou passando e a progressão se manteve. Aumentou muito o tempo em que, encostada a cabeça no travesseiro o olho fecha, adormecido. Agora já dá pra ler um livro inteiro, às vezes. E se eu quiser discutir a relação – coisa que não faço – daria tempo a vontade, embora nossa relação já dure trinta e seis anos...E o tempo em que passo de olho fechado, efetivamente dormindo, diminuiu pra umas cinco ou seis horas.

A continuar assim, acho que vai chegar o dia em que eu não precise mais dormir. Será a noite eterna. Eternamente de olhos abertos.

Alguém feche, por favor. E enterre, antes que comece a feder.

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abril 7, 2007

mil e duas utilidades

Bom Bril tem mil e uma utilidades, dizia-se. Tinha. Talvez ainda tenha mas não mais pra mim, sem muita paciência pra me esfalfar nas utilidades todas dele. Mas ali no fim dos anos 50, quando eu me mudei pra Cidade Monções, bairro novo na época, fui morar bem ao lado da fábrica da Bom Bril. Isso acabou por me trazer e à minha infância, certas recordações que incorporaram, definitivamente, a fábrica à minha vida. Minha casa ficava num terreno grande, ladeada pelo lado esquerdo e pelos fundos pela fábrica. Encravada nela.

Isso significou que eu marcava hora pelo apito da fábrica, que não era como a de tecidos, do Noel Rosa, mas apitava religiosamente pra entrada dos turnos dos operários. Que entravam em tropel num corredor ao lado da nossa casa.

Isso significou que, nos primeiros anos em que a gente morou lá, nunca mais comprou a esponja de aço. Não porque não gostasse, mas porque não precisávamos. Num terreno baldio defronte à fábrica eram jogados (ô falta de consciência ecológica) todos os restos de esponja com defeito, de forma não desejada, de textura não adequada. Os terrenos baldios da época não tinham muro. Então toda a vizinhança entrava e se servia dos montes de esponja inadequados pra venda mas perfeitamente usáveis.

Também significou uma adolescência com um estoque particular de afagos no ego. Ali, quando o mundo ficava sombrio e parecia cair sobre a minha cabeça, era só ir ou voltar do colégio, passando em frente da fábrica, pra voltar restaurada pelos assobios e gracinhas. Eu nunca fui bonita mas o pessoal da fábrica não tinha muitas opções ali naquele fim de mundo. Bons tempos aqueles!!

Já pra minha prima a fábrica, melhor dizendo, as esponjas, tinham uma utilidade fashion: mais velha do que eu uma década, pedia-me pra guardar as esponjas grandes que ela usaria nas “bananas”, uma espécie de coque que se fazia na parte de trás da cabeça e que ela recheava com Bom Bril pra dar volume!

Minha mãe desfiava as partes enferrujadas e punha nos antúrios dela. Ela achava que melhoravam a terra. Não sei não. Nessa de botânica amadora minha mãe certa vez, matou todos esses mesmos antúrios porque molhou todas as folhas com óleo de cozinha, “pra brilharem mais”. Resultado, as plantas lambuzadas e sem poder respirar morreram todas. Mas ela começou de novo. Podia ser péssima botânica mas, como eu, era teimosa como uma mula.

Depois de muitos anos a fábrica saiu de lá. O lugar se urbanizava e a fábrica ficara pequena. Eu também casei e saí de lá. E, finalmente, meus próprios pais, muito a contragosto, também saíram de lá, uma vez que o bairro, acometido pela verticalização que assolou a cidade no fim da década de 60 e começo de 70, botou abaixo suas casas térreas de grandes terrenos pra levantar prédios. Pra entupir de apartamentos pequenos cheios de carros que, por sua vez, entopem as ruas planejadas pra tráfego menor. Mas isso é outra história.

Bom Bril tem mil e duas utilidades. Acabo de descobrir que a esponja trouxe a tona mais um pedaço de mim.

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abril 2, 2007

ouvidos loucos, moucos e poucos

Ouvi outro dia que todo mundo deveria fazer,pelo menos uma vez na vida, um curso de teatro. Técnicas de interpretação.

Concordo. Em pelo menos uma circunstância eu sofro com a falta de habilidade maior pra interpretar. Interpretar que estou ouvindo e entendendo meu interlocutor.

Em danceteria.

Em todo caso, eu tento. Com o tempo, desenvolvi técnicas próprias.

Se o fulano chega e quer bater papo com outros cem fulanos dançando e tentando conversar, mais a orquestra atacando um mambo, e o fulano fala e fala e fala, arrematando tudo com um sorriso final, eu ouço, ouço e ouço e arremato tudo com sorriso similar. A isso se chama empatia. Você divide o mesmo pathos com o outro. Aliás, a palavra paciência tem a mesma origem. Mesmo que eu não tenha entendido nada, é necessário responder. Você se faz de espelho e vai em frente.

Mas às vezes surgem dificuldades. O fulano arremata a falação com um certo ar de interrogação. Daí é duro. Você pode confirmar com a cabeça que “sim” e de repente ter concordado que o Supla, por exemplo, é um fenômeno musical, ou abanar que não e ter negado o oferecimento de um tinto português da melhor espécie que o fulano te oferecia. Há riscos.

E há o cara que fica te olhando e perguntando e aí? E você não sabe do que se trata. Aí é melhor olhar pro lado e fingir que encontrou um conhecido e sair de banda. E correr o risco de começar tudo de novo com outra pessoa.

Melhor seria as pessoas conversarem em botecos, dançarem em danceterias e ouvirem música em casa de espetáculo. Porque dançar em pizzaria, ouvir música em boteco e conversar em danceteria definitivamente não dá.

Ou fazer um bom curso de teatro.

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