vidraçaria
Gosto muito de vidro. Acho mesmo que é uma das mais lindas invenções do homem. Meus primeiros vidros, aqueles que me fascinavam, eram os vidros de penicilina, quando tive bronquite e tomei, totalmente à minha revelia, quilos de injeções. Guardava os vidros. Era (foi) meu primeiro contacto com o suborno e a corrupção neste país. O médico me engambelava com a história do “não vai doer nada” e depois você ganha mais um vidrinho. Eu sou muito barata. E sugestionável.
Depois vieram os vidros de leite. Não, eu nunca colecionei vidros de leite. Mas achava bonitos. Ninguém mais quase lembra disso, mas o leite de cada dia nascia – pelo menos para mim – no patamar da janela do meu quarto, toda dia, junto com um filão de pão embrulhado em papel pardo. O entregador entrava em casa (abria o portãozinho de meio metro de altura) e punha no parapeito da minha janela, a primeira que ele encontrava. Belos vidros aqueles. O que eu colecionava pra fazer anel pra brincar eram as tampinhas, de papel metálico, facilmente amoldável.
Anos mais tarde, os vidros de laboratório. Poucas coisas são mais lindas do que um tubo de ensaio. Embora eu odeie química, aquelas coisas delicadas, com uma curvatura perfeita, finas, são mais lindas pra mim do que uma jóia. A não ser que a jóia seja um brilhante, ou mesmo um bom cristal facetado. Tudo é vidro. Só varia o preço e o brilho.
Em museus admiro as obras de arte, como todo mundo. Mas admiro também os envoltórios de vidro, tão brilhantes, tão limpos.
E nos prédios modernos, que eu abomino, perdôo aqueles de vidro.
Penso que esse apego a vidros seja porque eu posso ver através. Minha curiosidade fica saciada.
Quando tive que escolher uma carreira, escolhi psicologia.
Pensando bem, é uma forma de buscar as vidraças do ser humano, pra olhar através. Tem gente que tem os vidros sujos, embaçados. Outros, vidros espelhados, que você olha e só vê você mesmo, refletido e nada do que tem dentro.
Outros vidros fumê. Precisa chegar bem perto pra ver alguma coisa.
E os vidros martelados, igual aqueles de banheiro. A imagem que você vê é toda distorcida.
Mas gente é parecida com vidro, sim. E a maioria quebra fácil, fácil.
Se bem que até farelo de vidro é bonito...

foto Bruno Furnari
Comments
Me gustó la analogía de la gente con el vidrio, Maray. Yo diría que ves las cosas pequeñas con una lupa (un vidrio que aumenta). Un beso.
Posted by: Vero | março 4, 2007 1:02 PM
Si que somos vidrio! Fragil,templado,trasparente empañado,pero a diferencia de él,cuando nos rompemos nos recomponemos.
Yo también coleccioné los aros de metal de las tapas de leche,cuando la leche venía en botellas. Que recuerdo. Un billete de 500 pesos,rojo,una botella de leche y un aro nuevo.
Posted by: Sole | março 4, 2007 5:04 PM
tb amo vidro! eu vi os caras soprando murano na itália, uma coisa!!! tem um filme lindo, Oscar e Lucinda, sobre uma mulher que compra uma fabbrica de vidro. já viu?
Posted by: andrea | março 5, 2007 12:09 AM
Vero: con lupa estoy mirando a vos. Ojo al tango, nena, que tenés dos meses hasta la milonga en que bailaremos, por fin..
Sole: con aquellos aros se hacian pulseras, collares, cuanta leche no tomamos nosotras con fines excusos!
Andrea: acho que não vi o filme, mas tenho um colar de murano e alguns brincos. Aqui perto de casa a meninada joga bolinha de gude e guarda o arsenal em pets. Já pensou? Um pet 2 litros cheio de bolinhas de vidro?
Posted by: maray | março 5, 2007 6:41 PM
Maray,
Esta é, seguramente, a vigésima vez que leio um seu post aqui. Tal como das outras vezes, não consigo comentá-lo. Creio que por ter a sensação de nada poder acrescentar ao que escreveu. Decidi, no entanto, arriscar agora. Muito embora sem saber bem o quê. Deixo, então e pelo menos, esta sensação. Sobre o que tenho encontrado aqui. Um êxtase. A sua escrita. O objecto da sua escrita. O ambiente sensorial da sua escrita. Creio que, nos próximos dias, vou reler Garcia Marques.
Posted by: Marx | março 6, 2007 8:44 PM
Marx: pode comentar qualquer coisa. Eu gosto! Não precisa discordar ( não gosto de polêmicas) nem concordar ( também não gosto de assentimentos). Só precisa dizer que tá aí, lendo de vez em quando...O que eu gosto, mas gosto de me lambuzar, é de gente. Gente que presta atenção. Quer coisa melhor??
Um beijão.
Posted by: maray | março 7, 2007 11:16 AM