descartáveis
Muito antigamente, naquela época em que eu costumava ter uns seis ou sete anos, as garrafas eram descartáveis. Garrafas de cerveja, de guaraná, até de Fanta laranja ( sim, jovens leitores, fanta laranja existiu, não se trata de mais uma lenda urbana!).
A gente guardava na garagem ( que - e preciso fazer novo adendo- era nos fundos das casas e não na frente. Carro se usava, não se ostentava) aquele monte de garrafas, que eram usadas nas festinhas, pra emprestar pros vizinhos quando havia algum casamento, algum batizado.
Ou, se era o caso e a necessidade determinava, voltava-se aos armazéns e padarias com os “cascos” como eram chamadas aquelas garrafas vazias e eles devolviam o dinheiro.
Porque a coisa era assim: quando você ia a padaria comprar uma cerveja e não levava a garrafa, eles ( o padeiro) preenchiam um papelucho do próprio punho, onde dizia que você seria reembolsado do custo do casco. E você pagava a cerveja mais o casco. Voltando com ele vazio, o padeiro devolvia o dinheiro. Ninguém que eu conheça falsificou um papelucho desses ou nenhum padeiro ou vendedor de armazém recusou-se jamais a reembolsar o cliente. Quase igual às seguradoras de hoje....
E a gente tomava a cerveja, lavava o casco e guardava.
Hoje o que eu vejo é o pessoal tomando cerveja em lata, jogando pela janela do carro (quando nem deviam beber dirigindo) a lata e o anel, assim como se o mundo fosse uma lata de lixo.
E, quando questionados, ainda acham que “estão dando emprego e sustento pros catadores”, como se ser “catador” fosse emprego decente.
O “padeiro”, aquele ser geralmente de ascendência portuguesa, gentil, que tinha cadernetas onde apontava os gastos dos clientes, que sorria ao nos dar o pão embrulhado, esse quase nem existe mais. As padarias que sobrevivem parecem um supermercado. Pão é só um detalhe.
Saudosista eu? Nem pensar! Sempre acho que o melhor ainda está por vir. Porque sempre existe a possibilidade de mudar. E essa possibilidade é tudo. Passado não se muda.
Mas que o povo podia lembrar de jogar o lixo no lixo e não na minha cabeça de pedestre desavisada, isso podia!

Comments
Aqui é mais ou menos como aí.
Ainda há a possibilidade de devolver garrafas, mas, cada vez menos se utiliza essa opção.
E é muito difícil educar os jovens para que não encham tudo com esses lixos.Ele veem os próprios pais a deitar as embalagens para a rua...
Posted by: peciscas | março 7, 2007 3:19 PM
Descobri o seu blogue quando andava à procura de imagens de guarda-chuvas porque estou cheia da chuva.
Gostei das imagens e das palavras. Um destes dias, conto voltar com mais tempo.
Posted by: redonda | março 7, 2007 8:22 PM
Maray: tudo bem, estou velho. Não discuto. Mas Fanta laranja ainda existe. Tem até diet.
Beijinhos.
Posted by: Santos Passos | março 7, 2007 11:23 PM
Um belo dia estava eu a procurar fotos do caribe e o pai google me concedeu a oportunidade de encontrar este blog maravilhoso, a +- dois meses visito o blog diariamente e confesso que tenho medo que vc deixe de comentar o quotidiano de uma maneira que so vc sabe...
Posted by: humberto | março 8, 2007 11:14 AM
peciscas: alguém não disse que os pequeninos herdarão a terra? Pois é, os ratos, com esse lixo todo..
Redonda: volte sempre. A chuva enche, eu sei. Mas o calor que está fazendo por aqui também não está fácil...
Santos Passos: pois é. Existe ainda! Mas no meu coração está mortinha da silva...
Humberto: eu gosto de comentar coisas pequenas. Eu gosto de coisas esquecidas. Não é a toa que sou fissurada em bricabraques e brechós.. Parece que isso une as pessoas: a vó que todo mundo teve, a roupa piniquenta que se usava porque a mãe exigia, a bola de futebol e o primeiro chute a gol. São pequeninas coisas que, descobri eu na internet, existem em toda parte. Tá bom, a corrupção e os maus políticos também, mas eu não tenho mais estômago pra falar disso...
Posted by: maray | março 8, 2007 12:45 PM
Infelizmente, o Dia da Mulher, é, ainda, quando o Homem quiser.
Mesmo assim, tenho lá uma rosa para ti.
Posted by: peciscas | março 8, 2007 3:22 PM
Me lembro disso dos cascos...
Um 8 de Março diferente dos outros!
Com igualdade de condições, carinho e tudo mais, hoje e sempre.
Posted by: Mauricio Planel | março 8, 2007 5:37 PM
Peciscas: obrigada pela rosa vermelha :)
Maurício: eu vivo repetindo por aqui que gente é tudo igual e como tal deve ser tratada, independente de ser gente grande, gente velha, gente de variadas cores e formas, gente com várias cabeças e gente de vários gêneros. Gente é pra ser feliz. Neste 8 de março e sempre. Amém.
Posted by: maray | março 8, 2007 7:48 PM
Oi, Maray, aquela história de guardar cascos de bebida era uma saco. Mas pior ainda é a poluição causada pelas garrafas pet.
Posted by: Sonia | março 9, 2007 3:55 PM
ei, eu ainda tenho casco de cerveja em casa, e ainda vou no bar com os cascos e compro cerveja, lavo e guardo no quartinho de serviço. teho uma fantasia de que isso é que é cerveja! ecológico, né? total...
Posted by: andrea | março 9, 2007 4:28 PM
Maray,
Saborosa, como sempre, esta sua prosa. E nada descartável, por sinal.
Posted by: Marx | março 15, 2007 4:06 PM