chuva
Choveu muito ontem. Precisando sair, ou melhor, podia até deixar pra outro dia, mas não quis, saí. Tênis no pé, o que foi uma bobagem, o tênis é de tecido, molha todo, guarda-chuva preto de “10 real” em punho. Mal cobre o próprio punho.
A chuva mudou muito nestas últimas décadas.
Quando eu era pequena ela era totalmente diferente. Eu, muitas vezes, nem precisava de guarda-chuva.
Que digo? Na maioria das vezes não precisava de guarda-chuva. Guarda-chuva era coisa de mãe e de avó, mandando levar porque “o céu está pra chuva, cuidado, vai se resfriar, olha a garganta, menina, a gripe, a pneumonia” ! Família dramática é fogo.
Eu fingia que pegava e esquecia na varanda, como quem não quer nada. E a chuva vinha, é claro. Praga de mãe e de avó – duas vezes mãe- não falha nunca. A chuva vinha com tudo.
E era sempre na hora de voltar do colégio, de tardinha. Percorrer quase um km na chuva. Caindo por sobre a saia de sarja - aquele tecido que encharca mais rápido que areia na praia, que pinica quando seco e raspa quando molhado - a blusinha do colégio, branca, ficando transparente, as meias ¾ que molhadas viravam soquetes, enroladas no tornozelo, marrons da água enlameada.
Porque havia lama e não sujeira. A valeta corria ao largo das ruas sem sarjeta nem calçada, água barrenta, cheia de galhos e folhas. Nenhum pet, nenhum pacote de salgadinho de isopor. Só lama, folhas e galhos. Era gostoso lavar o sapato nela, e, se ninguém estivesse olhando, tirar o sapato e a meia e molhar o pé. Menina de 10 anos é quase mulher. Não fica bem molhar o pé na enxurrada. “ Olha o resfriado, a gripe, a pneumonia, menina” ainda ecoando na cabeça, cheia de culpa.
Quando faltava água, o que parecia ocorrer com uma certa frequência e o poço do quintal não dava conta do recado, a água da chuva era guardada em baldes. Minha mãe, com teorias estranhíssimas jamais comprovadas, dizia que a água da chuva era tão limpa como se fosse da bica. Mesmo sem acreditar nela eu gostava de abrir a boca e beber.
Molhava o cabelo sem dó nem piedade, sem preocupação com “frizz”, com cacho, com secura, com PH com o diabo a quatro. Aquático, no caso.
E andava devagar. Como se o dia fosse de sol, ameno.
A não ser quando chegava na quadra de casa. Aí corria como se correndo tivesse vindo os quarteirões todos.
Que chuva, mãe! E eu ainda fui esquecer o guarda-chuva!!
A chuva mudou muito. Ontem, andando apressada, pulando enxurradas nojentas de detritos igualmente nojentos, correndo entre carros que espirram alguma coisa quase sólida, cinza, oleosa, preocupada com cabelo e pele e, por que não dizer, com resfriado, garganta, gripe e pneumonia, vejo que não se faz mais chuva como antigamente...

Comments
Também tenho essa ideia. De que a chuva (mais uma!)já não é como antigamente. Fico sem saber muito bem porquê. Embora suspeite que possa ser da acidez. Hesitando apenas na paternidade. Da acidez. Se nossa, se dos tempos modernos. Arrisco que a que os tempos modernos nos faz.
Posted by: Marx | março 15, 2007 4:26 PM
Marx: acidez é um troço que contamina. O nosso estômago, as nossas lembranças, se bobear até nosso humor. Mas não o teu, pelo que vejo. O Manoel a que me referi posts atrás é português, sim. Aqui, antigamente, as padarias eram sempre de portugueses. Pelo menos em São Paulo. As pastelarias de chineses, os tecidos de turcos como os chamávamos, independente de serem libaneses, árabes, gregos. Hoje é tudo coreano. Seja lá o que for, do carro, passando pela roupa até o celular. Tempos modernos...
Posted by: maray | março 15, 2007 5:25 PM
Mara,lembra daqueles mini sapinhos que apareciam lá no quintal depois da chuva ? A chuva mudou e os sapinhos sumiram...Beijos
Myriam
Posted by: Myriam | março 15, 2007 10:20 PM
andar de bike na chuva é uma das felicidades da vida. ir à praia na chuva e mergulhar é perigoso mas é muito delicioso. eu não uso guarda-chuva nunca, só qdo to indo trabalhar e nao posso molhar o modelão... ainda guardo essa coisa de criança teimosa. sempre volto encharcada pra casa, desejando um esfrega de alcool pra esquentar o corpo, como meu pai fazia qdo a gente era pequena...
Posted by: andrea | março 16, 2007 1:25 AM
Por aqui, voltou o sol e já cheira a Primavera.
De facto, o tempo, a chuva, as estações, já não são como eram dantes.
Mas há uma coisa que não mudou: o meu filho também nunca sai de guarda-chuva...
Posted by: peciscas | março 16, 2007 3:48 PM
A estação das chuvas é a melhor de todas. Adoro o cheiro de terra molhada, ver o asfalto molhado, a noite fica mais aconchegante e o sono + gostoso. Obrigado Maray, a muito não me lembrava de minha infância.
Posted by: humberto | março 17, 2007 4:11 PM
ótima ilustração! bastante expressiva.
Posted by: bruno_diel | março 18, 2007 1:59 PM