binóculos
Descobri no fundo do armário um binóculos. Foi do meu pai, lembro. Que deve ter dado a um dos meus filhos. Ele aumenta muito pouco e o pouco que aumenta está desfocado.
Faço o que? O que se faz com um binóculos desgastado, velho, que não serve pra quase nada?
Bom, posso olhar as formigas dos formigueiros que se formaram pós chuva no meu quintal e no jardim. Mas pra que vou querer isso? De formigas quero distância. E, se puder, extinção total, pelo menos as da minha cozinha.
Posso ir ao Jocquey club. Nunca fui. Ver cavalo correr. Não sei se vou gostar. Um monte de gente olhando um monte de cavalo correr. E apostando um monte de grana. E perdendo mais ainda. Sei lá, meio alegórico, melhor não. Vou me deprimir.
Posso olhar a sala do vizinho da frente. Totalmente vazia, que a casa era alugada e o vizinho se mudou estes dias. Uma sala vazia, quer coisa mais sem graça?
Posso buscar passarinhos raros por aí. Tem tantos! Se eu tivesse tempo seria interessante. Não sei pra que, mas seria. Me faz lembrar do Dalgas Frish, que acho que só eu lembro. Um senhor que gravava vozes de pássaros e depois fazia discos ( de vinil) horrorosos com a montagem dessas vozes e músicas clássicas. Não devia ter lembrado daqueles discos, pronto, já subiu a adrenalina...
Posso usar do lado que diminui e ver de longe certas coisas. O problema vai ser tirar o binóculos depois. Falando em ver de longe, aquelle llá voltou. Esse nem com binóculo ao contrário. Que vida!
Pois é, não sei o que fazer. Acho que vou jogar fora. Me dá pena, porque foi do pai. Mas pena mesmo é que o pai, esse já se foi. Então o binóculo não importa nada.
Lixo!

Comments
Antes de vc por o binoculos no lixo, que tal experimentar uma das possibilidades descritas acima?????:)
Posted by: humberto | março 23, 2007 9:23 AM
A min acontecíame de cativo que sempre collía una lupa de aumento (como a dos detectives nas películas) para pescudar coisas. Mais logo nao sabía que buscar. Asim foi como aprendín que, a arte da curiosidade, nao e o "com que procuro", senón "qué procuro".
Saúdos
Posted by: Larvós | março 23, 2007 4:33 PM
Guarda!
Faz como eu, que tenho a casa cheia de velharias.
Porque há sempre um bocado de nós que está lá agarrado.
Posted by: peciscas | março 23, 2007 4:46 PM
Dava-me jeito essa tua coragem e pragmetismo. Mudei de casa há quase um ano e ainda tenho dois caixotes cheios de tralha, que n me serve para nada, e que não consigo mandar para o lixo...
Posted by: t&v | março 25, 2007 2:40 PM
Humberto: já experimentei, menos ir ao jocquey...
Larvós: eu gosto de procurar, pura e simplesmente. Às vezes nem sei bem o que. Talvez por isso goste tanto de antiquarios, brechós e sebos. Porque são lugares em que se entra "procurando". Não dá pra definir de antemão "o que". É curiosidade em seu estado mais puro!
Peciscas: de velharias aqui em casa bastam eu e meu marido...Não gosto de tranqueiras.
T&V: se não houvesse um oceano a nos separar, eu oferecia-me pra te ajudar a jogar fora coisas. Sou ótima nisso!!
Posted by: maray | março 25, 2007 6:32 PM
Haverá coisas que, mesmo que ausentes de qualquer utilidade, custam a deitar ao lixo. Outras, só depois de entrarem na lixeira, é que despertam a utilidade. Estes binóculos são uma espécie de terceira via. Deram azo a um seu excelente texto. Mais um.
Posted by: marx | abril 2, 2007 9:02 PM