jardim e jardim
Muita coisa fica datada nesse mundo. Cabelos, comprimento de saias, músicas, hábitos, gírias, comidas. Nunca pensei que jardim fosse ficar datado, mas fica.
Eu ando sempre que posso. Não caminhada cronometrada pra fazer dela – a caminhada – uma atividade aeróbica. Porque o dia em que eu fizer isso, melhor ficar largada no sofá. Caminhada pra ser boa precisa ser intercalada. Intercalada com “olha só”, “viu isso” “vem cá bichano” “cute, cute, que cachorrinho mais lindo” e por aí vai. É o que eu chamo de caminhada participativa, numa gíria também datada.
Descobri caminhando que jardins são quase registros históricos de épocas.
Há os jardins com roseiras. E lírios e cravos. E vasos e mais vasos de antúrios. Década de 50. Jardins em que as roseiras eram plantadas meio que aleatóriamente, espalhadas por todo ele. Nenhuma preocupação estética. O critério era a cor da rosa. Ou do antúrio. Quem cuidava era a dona da casa ou algum morador.
Depois vieram os jardins “planejados”. Com pedriscos brancos ou marrons em volta dos canteiros. Com muitas samambaias de metro. Uma que outra renda portuguesa nas casas em que a dona da casa tinha “mão boa”. Formavam cantos aos lados do jardim. O meio e o entorno era coberto de grama. Nas casas de classe média, já se começavam a ver empregadas cuidando deles e jardineiros. Década de 60. O jardim se apequenava pra dar lugar à entrada de carro na lateral.
Depois os jardins quase sumiram. Quer dizer, as casas térreas e sobrados em que havia jardins quase sumiram. Jardim passou a ser uma coisinha ridícula na lateral do muro, com alguma hera, unha de gato ou trepadeira florida, desde que não ocupasse espaço onde entraria e ficaria, exposto logo ali na frente, um ou mais carros. De novo lembro que falo da classe média, a que pode morar em casa de alvenaria e terreno com mais de 5 metros de frente. Em todas as outras desta cidade, jardim é o que consegue ser plantado e sobreviver em lata de leite ou panela velha furada. Não só o nordestino é um forte neste país. As plantas de lata também são.
Hoje nas mesmas casas de classe média, o que vejo é o jardim “fast food”. Tudo igual: pedriscos brancos, muita coisa pequena e pouca cor. Muita palmeira, folhagem, coqueirinhos. Tudo arrumado como um prato de comida de chef. Os donos dessas casas nem sabem o nome das plantas que têm. E muito menos cuidam delas. A cada tanto, a cada temporada, refazem o jardim. Compram em chácaras, flores e plantas já “prontos”.O equivalente vegetal à comida congelada com que igualmente entopem seus freezers. Se a casa é grande, um grande gramado. Regado automaticamente com timer.
Jardim século 21.
Caminhar a pé tem sido uma aula de história. História de uma época de devastação.
A esperança, em todos os sentidos, ainda é aquele vasinho de lata de leite pendurado num prego, onde brota empedernida, uma espada de são jorge.

Esse jardim não tem nada a ver com o que falei. Mas acho lindo.






