casamento
Casamentos eram ocasiões especiais. Não sei se em todas as famílias, mas na minha eram.
Por vários motivos, que iam desde a falta de vida social, a falta de dinheiro pra teatro, cinema, parques, viagens, essas coisas de classe média pra cima, até a importância que se dava a esse, bom, sacramento, como dizia minha mãe, numa espécie de justificativa pra fracassos posteriores. Tá sacramentado, é sagrado, etc, etc.
Aquela velha história de que o importante é a manutenção e não a qualidade da relação. O que sempre me fez lembrar do Quino, meu guru pra assuntos de relacionamento e sua Mafalda: “prefiro mil vezes uma faixa do LP dos Beattles a um inteiro da Sarita Montiel”. Tá bom, a piada é velha, o Quino e eu estamos velhos, e LP é coisa velhíssima. Mas acho que ainda dá pra entender.
Então quando havia um casamento, era motivo de rebuliço familiar que podia durar meses. Todo mundo ficava assanhado. As roupas que precisavam ser feitas e/ou reformadas pra parecerem novas, as crianças que teimavam em crescer e perdiam roupas e sapatos ( mas mãe, meu pé agora é 37! Não importa, encolhe os dedos que você não vai lá pra ficar andando..!) Os paletós que precisavam ser revisados, as golas das camisas sociais que, se fosse o caso, precisavam ser viradas do avesso pra durar mais uns anos.
E o presente! Problemão! E se a noiva ou o noivo cismassem de convidar pra padrinho? Aí o presente tinha que ser melhor. Faqueiro era um sucesso, que ninguém pensaria em dar geladeira ou algo assim. Faqueiro era o mais caro que se podia pensar em dar.
Graças a Deus, como dizia minha mãe, a ninguém ocorria nos botar de padrinhos. Deviam saber da situação financeira e prever que daquele mato não sairia coelho, ou sairia um coelho muito do magrinho...
E tinha também uma tia, na realidade prima da minha avó, a quem eu tinha que chamar de tia, que era a casamenteira oficial da ala italiana da família. Era assim: havia uns rapazes, italianos, que vieram solteiros pra cá e precisavam casar logo “ pra não começar a fazer bobagem, pra assentar”, como a família falava. Aí a tia Maria procurava saber se entre os conhecidos não haveria uma “boa moça”. Sempre havia. Era só ela apresentar as famílias (os futuros noivos vinham em segundo plano) e a coisa geralmente dava certo. Onde “dar certo” podia significar um casamento sem amor, que se prolongava anos a fio em ódios, traições, marasmo, tolerância e conformismo. Não lembro de ninguém da família dessa época que tenha se separado. Mas lembro de vários que se comentava que “dormiam em quartos separados” .
Estou falando de 50 anos atrás. Nem a tia Maria nem aqueles casamentos existem até hoje.
Em certo aspecto lamento. Num único aspecto: olho de sogra.
Não, não o olho das sogras daqueles genros arranjados pela tia Maria. Mas o doce “olho de sogra” que era sempre servido naqueles casamentos.
Ô coisa boa..!!

Comments
Eu, hein?
Casamento engorda.
Posted by: Allan | fevereiro 4, 2007 2:48 PM
Não conheço o doce que mencionas, mas o texto está uma delicia. :)
Bj
Posted by: Cainha | fevereiro 4, 2007 4:33 PM
"Onde “dar certo” podia significar um casamento sem amor...".
O casamento pode ter mudado, mas seres que continuam casados sem amor existe "aos montes".
Posted by: Letícia Santana | fevereiro 5, 2007 12:12 AM
Pobre Cainha. Não conhece olho de sogra. Portanto, viveu menos. Mas ainda há tempo pra recuperação.
(agora, aqui entre nós: já está passando da hora de ir organizando esses textos de acordo com algum fio condutor, algo que leve a um livro de memórias). Beijinhos do palpiteiro-mor.
Posted by: Santos Passos | fevereiro 5, 2007 6:52 PM
Allan: Casamento engorda sim. E faz crescer. Ou seja, casamento é uma banana nanica, como diria o saudoso Almirante :)
Cainha: olho de sogra é um doce de coco com ameixa preta. Parece um olho mesmo. Acho que serviam nos casamentos pra lembrar que tem o doce, mas tem também a sogra...
Letícia: é verdade. Uma pena, porque casamento é divertido e gostoso.
SP: Esse negócio de livro..sei não. Minha última experiência com eles (na livraria) deu pra trás. Agora só me meto com livros de novo se der dinheiro. Você garante que eu posso chegar um dia a Paulocoelhar?? No quesito grana, não na qualidade :)
Posted by: maray | fevereiro 5, 2007 7:38 PM
faz assim, uma lata de ameixas, uma de leite condensado, um pacote de coco ralado. Cozinha até ficar em ponto de enrolar, mas ainda mole,m abre as ameixas, tira o caroço, coloca o docinho dentro e pronto! nao precisou comprar vestido novo, nem aturar aquela chatura de cerimonia.
Posted by: andrea | fevereiro 5, 2007 10:15 PM
Oi Letícia que é Santana mas não é minha parenta (embora eu também tenha uma sobrinha Letícia. O que eu acho mais gostoso aqui no blog da Maray é essa falta de um fio condutor, a expectativa que se tem a cada vez que se passa por aqui: Do que é que ela vai falar agora? E vem sempre algo divertido, mostrando o cotidiano com humor e graça.
Ah, ia me esquecendo: Olho de sogra (hummm...) ainda é servido em aniversários.
Posted by: Sonia | fevereiro 5, 2007 11:48 PM
Maray, passando ainda "correndo do frio" pra te deixar um alô des-hibernante.
Beijos calientes.
Posted by: Ordisi | fevereiro 6, 2007 4:42 PM
Ummmmmmmm,
Olho de sogra, delícia!!!!!
Texto super legal como sempre.
Beijo carioca.
Posted by: mauricioplanel | fevereiro 6, 2007 6:05 PM
Apesar de adorar, só consigo engulir dois olhos de sogra por casamento. Bem que podiam mudar o nome do aprazível quitute...
bj
ps:estou linKando o Che sem sua permissão lá no Ao³ Cubo. Tempo de atualizações.
Posted by: gugala | fevereiro 7, 2007 11:02 AM
Andrea: a cerimônia é chata mesmo. E repetitiva. E machista. E quente! ( sabe lá o que é usar vestido de noiva e paletó em pleno janeiro, que foi quando eu casei??):)
Sônia: olho de sogra em aniversários? Pensei que fosse só brigadeiro. E vinho branco gelado (eca!)
Ordisi: hibernaste onde? Um friozinho agora era tudo que eu queria!!
Maurício: pelo que vejo, olho de sogra é consenso nacional, além da cerveja, claro!!
Gugala: tem coisa que não precisa pedir permissão: beijo, abraço e link :)
Obrigada!
Posted by: maray | fevereiro 7, 2007 2:11 PM