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fevereiro 26, 2007

papa, papi, pílula!

Uma das coisas que mais me chamava a atenção quando assistia filmes policiais, daqueles cheios de FBI, KGB, SNI, SWAT, e o DAQ (diabo a quatro) da vida, era o fato do mocinho ou bandido comerem bilhetes escritos em papel pro bilhete incriminador não ser pego por quem não devia pegá-lo.

Bons tempos aqueles em que os bilhetes incriminadores eram feitos de papel! Hoje comer um disco ou chaveirinho de PC ia ser mais indigesto...

Lembrei disso ao ver que o papa vem aí ( aqui) e vai canonizar o Frei Galvão.
Aqueles das pílulas de papel. Umas senhorinhas religiosas e péssimas culinaristas ficam fazendo rolinhos de papel com oração a Frei Galvão e depois cortam em forma de pílula. E dão pras pessoas comerem e (isso é com as pessoas que fazem essa dieta) se curarem. Aquele negócio de que a fé move montanhas...

Enfim! Quem sou eu pra criticar!

Eu que tive todas minhas enxaquecas infantis curadas por uma avó rezadeira que fazia uns passes cabalísticos na minha cabeça, rezando alguma coisa que não sei pra quem era. Talvez algum santo do óleo diesel. Eu só tinha dor de cabeça quando saía de ônibus, num tempo em que eles poluiam ainda mais do que hoje.
O fato é que eu ficava boa. Minha avó dizia que era mau-olhado.

Até hoje, quando passo perto de algum carro ou caminhão queimando óleo, sinto o tal “mau-olhado”. E a cabeça dói. E minha vó, tão querida, não está mais por aqui pra fazer os passes.

Voltando. O papa vem aqui. Fazer o que, além de turismo religioso? Acho que “uns passes”.
Estamos precisados, mesmo. Mau-olhado é o que não falta por aqui.

Infelizmente eu não acredito em pílulas de papel nem papas de carne e osso.

Acredito é que os homens em geral são esperançosos por natureza. Ficam sempre achando que as coisas podem melhorar.
Cruzam as mãos e rezam.

Melhor seria descruzá-las e botar mãos a obra. Que a faxina tem que ser grande.
E de faxina eu entendo.

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fevereiro 21, 2007

didatismo trash

Não sei vocês, mas eu sou chegada num filme ou livro de catástrofe. Daqueles bem cabeludos. Na realidade, prefiro o livro, porque minha imaginação, no quesito desgraça, sempre é mais rica do que qualquer filme que eu já tenha visto, por mais efeitos especiais que tenha.

Quando li sobre o Titanic, vibrei. Sufoquei, percorri corredores adernados, nadei até o desespero, comi peixe cru na falta de coisa melhor e, claro, me salvei. O bom da minha imaginação, é que eu sempre me salvo.

Quando li o Robinson – que não deixa de ser uma desgraça- também vibrei. Na realidade, até hoje, em noites de insônia, é o Robinson que me dá o que fazer até o sono chegar. Isso de contar carneirinhos não está com nada. Eu gosto é de construir cabanas na areia com restos de naufrágio. Sou boa pra caramba nisso!

Sempre me odeio por isso, mas não resisto a um filminho de TV bem desgraçudo. Já vi de tudo. Até um que o povo ficava preso num elevador prestes a cair.

Existem vários de incêndios, de fim de mundo, de navios e aviões afundando e caindo, de ônibus sem freio, de trens sem freio, de qualquer coisa que ande sem freio.
Se eu puder, não perco um.

Não sei o porquê desse gosto (desgosto). Fico pensando, em momentos de profunda reflexão, que é minha vontade de estar pronta pra vida. De me preparar pra desgraça. Porque pra coisas boas não precisa estar preparado. É relaxar e aproveitar. Mas a desgraça precisa de know-how. Acho eu.

Assim, se algum dia eu estiver num transatlântico em mares cobertos de icebergs, ou numa torre de 120 andares pegando fogo, acho que saberei o que fazer. Tenho estudado muito.
Por via das dúvidas, evito essas situações.

Vai que justo no momento em que eu fui ao banheiro, é que o filme mostrou o pulo do gato??

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fevereiro 15, 2007

quem come quem

Tenho duas cachorras. Viralatésimas.

Ultimamente tenho também um gato. Agregado. Não sei de quem é, mas dorme de noite na soleira da porta da sala. Que fica na frente da casa. Lugar onde as cachorras quase nunca ficam.

E, se é que posso dizer isso, tenho também um rato. Que passeia por sobre meu muro e sobe pela minha Tuia. (pra quem não entende nada de botânica e vai ficar se perguntando que diabos será isso, é uma árvore parecida com um cipreste. Tá bom. Não sabe também o que é um cipreste? Vai se catar!)

Pois é. Tenho alguns conhecimentos de biologia. E sei o que é uma cadeia alimentar. E a luta pela sobrevivência. E a lei do mais forte. E o mundo cão. Bom, deixa pra lá. O fato é que cachorros perseguem gatos e gatos perseguem ratos.
Ou pelo menos deviam.

Não aqui em casa. O gato fica do lado do jardim, sentadão, uns dois metros perto das cachorras, deitadonas, do lado do quintal. Apenas um portão gradeado baixinho os separa. E mais nada. Pelo visto, eles têm mesmo é muito em comum. É só a noite ser de lua, tempo fresco, e lá estão eles. Todos os 3.
Ultimamente 4. Porque chegou o rato. Ou rata. Não deu pra ver.

Chegou passeando por sobre o muro, entre os cacos que, imaginava eu, deviam ser ameaçadores pra ladrões e animais.

Passeia, vai e volta, desce por entre os espinhos da Primavera e sobe pela Tuia. E depois volta. Já o seguimos, descobrindo que sempre volta pra casa do vizinho. Menos mal.

Estou esperando pelos próximos acontecimentos da cadeia alimentar. Ou da luta pela vida. Ou da lei do cão.

Ou, o que é mais provável, pela visita de mais algum representante do mundo animal que virá abrilhantar e diversificar as tertúlias noturnas aqui de casa. Já que, pelo visto, ninguém come ninguém.

QUASE ninguém.

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fevereiro 10, 2007

bambolê

No decorrer da vida, é muito mais fácil lembrar do que não conseguimos fazer do que daquilo que fizemos.

Não vou generalizar: digamos que eu lembre mais minhas dificuldades. Porque são as que me produziram traumas, complexos, tristezas, depressões.

E porque eu sou meio – por que não dizer – chegada no lado dark. É sem dúvida o lado mais instigante, o que mais reflexões gera. O culto ao conflito é comigo mesma. Adoro ir ao fundo do poço. Desde que aquela mola esteja lá.

Foi assim – é assim – com bambolê.

Bambolê- aquele aro de plástico, de uns 60 cm de diâmetro, em média, que foi moda quando eu era garota. A gente botava o aro na cintura e rodava e ele ficava lá. A gente rebolando e o bambolê rodando junto, sem parar.

A gente? Qual gente, cara pálida? Todos e todas que eu conhecia. Menos eu.

Havia até alguns mais sádicos, que botavam o bambolê no pescoço, na coxa, nos braços, e giravam com a mesma facilidade. Sádicos porque sabiam que eu olhava, do alto da minha ineficiência, embasbacada pra aquelas demonstrações todas, o olhar triste, o coração ganindo de ódio e inveja.

Eu tentei. Eu ganhei um bambolê e tentei. No espelho, escondida no meu quarto, pedindo ajuda pra parentes e amigos, de todas as formas. Nunca consegui.

Em parte nenhuma do corpo.

Muitos anos depois a moda voltou. Bambolê é que nem ioiô. Volta e meia a moda reaparece. E novas levas de crianças saem por aí bamboleando.
E eu lembro. E eu tento. Retento. Tritento. E nada.

Dizem que é como andar de bicicleta. Pensam que me consolam!

Eu também não sei andar de bicicleta...

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fevereiro 8, 2007

de impressoras, faxineiras e da transitoriedade

Já passaram aqui por casa mais impressoras do que faxineiras. Só tive faxineira quando trabalhava fora de casa e não dava conta de fazer tudo sozinha. Hoje eu faço. E gosto disso. A sensação de não ter ninguém estranho tropeçando comigo pelos cantos da casa, não ter que dizer a ninguém como eu gosto das coisas, não ter que dar bom dia quando eu acho que o dia está uma droga, é muito prazeirosa.

Mas volto às impressoras. Foram várias. No começo eram umas coisas estranhas, altamente barulhentas, que faziam um som como o de uma galinha a gorgolejar com o pescoço se esvaindo em sangue pra fazer sarapatel. Sim, eu já vi fazerem isso a partir da galinha viva, em todos os detalhes sórdidos e nunca me esqueci. Filme trash de horror é pinto perto disso, que me desculpem o trocadilho.

Estou falando das impressoras matriciais. O papel de vez em quando enrolava lá dentro.Quando era etiqueta então, um grude só, e ela tremia, tremia tanto que tivemos uma que movia a mesa na qual ela se encontrava. E pur si muove, como diria o outro!

Depois foram melhorando. A qualidade da impressão, a tinta, o barulho foi diminuindo, elas foram se apequenando. E o preço?
Ah, o preço é um capítulo a parte.

Computador era caro pra chuchu. Tá bom, chuchu é barato à beça e eu uso gírias todas muito datadas. Fazer o que?

Mas computador era caro. A gente abria mão de viagens, de troca de carro, de várias coisas pra trocar o computador. Chamávamos a salinha de dois por dois em que fica o computador, com impressora e scanner, de “parque gráfico”, tal a grana que a gente dispendia pra manter o tal parque em dia.

Com o tempo, porém, ele foi barateando. Impressora, então, nem se fala. Tá quase mais caro o cartucho de tinta do que a impressora propriamente dita.

Com o tempo provavelmente ela vai ficar descartável. Tipo compra um cartucho e leva uma impressora.
Não consigo entender isso.

Será que não há nada possível de ser feito com uma impressora antiga? Tipo um vaso de flores, uma máquina de abrir massa de macarrão, uma mesinha de cabeceira?
Não me conformo com essas coisas que vão ficando obsoletas em questão de anos, poucos anos.

Tenho medo. Muito medo.

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fevereiro 4, 2007

casamento

Casamentos eram ocasiões especiais. Não sei se em todas as famílias, mas na minha eram.

Por vários motivos, que iam desde a falta de vida social, a falta de dinheiro pra teatro, cinema, parques, viagens, essas coisas de classe média pra cima, até a importância que se dava a esse, bom, sacramento, como dizia minha mãe, numa espécie de justificativa pra fracassos posteriores. Tá sacramentado, é sagrado, etc, etc.

Aquela velha história de que o importante é a manutenção e não a qualidade da relação. O que sempre me fez lembrar do Quino, meu guru pra assuntos de relacionamento e sua Mafalda: “prefiro mil vezes uma faixa do LP dos Beattles a um inteiro da Sarita Montiel”. Tá bom, a piada é velha, o Quino e eu estamos velhos, e LP é coisa velhíssima. Mas acho que ainda dá pra entender.

Então quando havia um casamento, era motivo de rebuliço familiar que podia durar meses. Todo mundo ficava assanhado. As roupas que precisavam ser feitas e/ou reformadas pra parecerem novas, as crianças que teimavam em crescer e perdiam roupas e sapatos ( mas mãe, meu pé agora é 37! Não importa, encolhe os dedos que você não vai lá pra ficar andando..!) Os paletós que precisavam ser revisados, as golas das camisas sociais que, se fosse o caso, precisavam ser viradas do avesso pra durar mais uns anos.

E o presente! Problemão! E se a noiva ou o noivo cismassem de convidar pra padrinho? Aí o presente tinha que ser melhor. Faqueiro era um sucesso, que ninguém pensaria em dar geladeira ou algo assim. Faqueiro era o mais caro que se podia pensar em dar.

Graças a Deus, como dizia minha mãe, a ninguém ocorria nos botar de padrinhos. Deviam saber da situação financeira e prever que daquele mato não sairia coelho, ou sairia um coelho muito do magrinho...

E tinha também uma tia, na realidade prima da minha avó, a quem eu tinha que chamar de tia, que era a casamenteira oficial da ala italiana da família. Era assim: havia uns rapazes, italianos, que vieram solteiros pra cá e precisavam casar logo “ pra não começar a fazer bobagem, pra assentar”, como a família falava. Aí a tia Maria procurava saber se entre os conhecidos não haveria uma “boa moça”. Sempre havia. Era só ela apresentar as famílias (os futuros noivos vinham em segundo plano) e a coisa geralmente dava certo. Onde “dar certo” podia significar um casamento sem amor, que se prolongava anos a fio em ódios, traições, marasmo, tolerância e conformismo. Não lembro de ninguém da família dessa época que tenha se separado. Mas lembro de vários que se comentava que “dormiam em quartos separados” .

Estou falando de 50 anos atrás. Nem a tia Maria nem aqueles casamentos existem até hoje.

Em certo aspecto lamento. Num único aspecto: olho de sogra.

Não, não o olho das sogras daqueles genros arranjados pela tia Maria. Mas o doce “olho de sogra” que era sempre servido naqueles casamentos.
Ô coisa boa..!!

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