o abutre
Quando meus filhos eram pequenos, tiveram que mudar de colégio. O deles fechou e a escolha natural recaiu sobre um a quatro quadras de casa, que aceitou receber quase todos os alunos do outro em pleno meio de ano.
De início receosa, decidi deixá-los ir sozinhos à escola. Eram só quatro quadras, se tanto. O meu filho mais velho dava a mão à irmã e lá iam. No meio dessa primeira quadra havia uma pessoa muito esquisita. Ficava na frente de uma casa, que depois vim a saber ser a sua, olhando fixamente em frente. Logo que eu o conheci, achei que podia ser alguém observando a entrada e saída dos garotos da escola, ou observando alguma casa em particular. A gente vive meio paranóico nesta cidade.
Com o tempo, uma vez que ele não fazia mais nada a não ser olhar fixamente em frente, apelidei-o de “o abutre”, porque tal como os abutres, ficava com o pescoço estendido, olhando o horizonte.
Com o passar dos anos fui lhe conhecendo os hábitos. Sempre muito limpo nas roupas, de vez em quando andava de uma rua à outra. Mas sempre na rua. Desde manhã cedinho até bem tarde da noite. Não falava. Não sorria. Inexpressivo quase. Imaginei um autista, ou pelo menos algum deficiente.
Depois de uns 4 ou 5 anos, tendo ele percebido que eu, às segundas feiras, botava o lixo e os jornais e revistas da semana para fora, esperando o lixeiro, vi que ele vinha sorrateiramente, olhando de um lado e de outro quando achava que não havia ninguém e pegava as revistas. Descobri então que ele lia.
Também fumava. Bastante.
Os anos foram passando. Meus filhos se formaram não só no colégio mas na faculdade também. Faz tempo.
E o tempo foi branqueando o cabelo do abutre, agrisalhando as têmporas. E ele sempre lá, fizesse frio ou calor, na frente da casa.
Hoje, já meio tarde da noite, após quase 20 anos de vê-lo todos os dias, a campainha toca e vou atender. Lá está o abutre, me olhando fixamente.
Me arranja um copo de água? Diz ele com uma forte e grave voz.
Água entregue, pergunto se quer mais, ele diz que não e vai embora.
O abutre, descubro depois de décadas, fala!
E tem uma linda voz.
O que as próximas décadas deste nosso relacionamento, se é que posso chamar assim, me trarão?
Ardo de curiosidade...

Comments
Já pensou se ele dissesse "never more, never more", como o corvo de Edgar Allan Poe? Aí sim, provocaria um arrepio.
Posted by: Sonia | janeiro 24, 2007 9:41 AM
Durante un tiempo tenía un hombre que pedía dinero en la esquina de mi casa. Nunca me pedía dinero a mi, y con el tiempo casi nos saludábamos. cuando despareció le eché de menos.
Posted by: Saravá | janeiro 24, 2007 7:31 PM
Sônia: nunca relacionei o abutre com o Poe. Pensando agora acho que ele está mais pra Guimarães Rosa. Aquele ar de aparvalhamento meio sinistro é genuinamente nacional. Eu já fiquei daquele jeito várias vezes lendo o noticiário :)
Sá: por que el mendigo ese no te pedia dinero? Tenés una cara así de quien no lo tiene pa dar o de quien no abre nunca la bolsa?? :)
Posted by: maray | janeiro 24, 2007 8:16 PM
Estranho, mas ao mesmo tempo, bem comum esse "abutre".
Posted by: peciscas | janeiro 26, 2007 3:31 PM
Eu ia pedir uma água, mas vou logo abusar da vizinhança... tem um cafezinho?
Posted by: Elesbão | janeiro 27, 2007 1:09 PM
Peciscas: tem razão. Gente esquisita é a coisa mais comum nesse mundo :)
Elesbão: água, café e vinho tinto. Cigarro nem pensar! :)
Posted by: maray | janeiro 27, 2007 2:37 PM