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janeiro 28, 2007

dr. fred ataca novamente

Refiz meu checkup anual. Triglicérides, colesterol, ecodoplercoronario, ergométrico. Família grande é isso que dá: sempre tem alguém bem próximo que morreu de AVC, de coração, de diabetes, de hipertensão. Afinal, todo mundo morre de alguma coisa. Tem um professor que diz que a longo prazo todo mundo morre mesmo é de câncer. Quer dizer, se você sobreviver a todo o resto.

Enfim. Cada vez que algum médico fica sabendo que tenho (tive) tia diabética, irmãos e pais com hipertensão, avós com AVC, pumba! Me manda fazer a bateria toda.

Ninguém liga pro fato do meu avô materno ter morrido de acidente de carro aos 40 anos, nem de uma irmã minha ter morrido aos dois de meningite. Ninguém me manda tomar cuidado no trânsito nem evitar aglomerações. O que me mandam é tirar gordura, carbohidrato, açúcar e um monte mais de coisas boas da minha alimentação. Eu sou obediente e tenho o maior cagaço de morrer cedo, então faço tudo que seu mestre mandar.

Tudo bem. Emagreço ( eu que nunca fui gorda) mais de seis quilos, fico mal humorada, esverdeada, entupida de ricota diet e soja em todas as formas possíveis ( vem cá, quando vão inventar um vinho de soja?) e refaço meus exames.
E aí??

Colesterol lá em cima!!

Tá bom, os tais triglicérides, sejam lá o que forem, baixaram até quase sumir. Com isso acho que vão liberar meu açúcar e pão.

Mas o que eu queria mesmo é bacon e ovo frito!!
Conhaque e fritura!
Cigarro e rock and roll!

Sexo? Bom, esse eu posso. Mas sexo sem o resto não é a mesma coisa...Já imaginaram o “último tango em Paris” com yogurte desnatado em lugar da manteiga e aspartame no lugar de chantilly?? Ficaria algo como o “último requiem em Cidade Tiradentes”, com o perdão dos que curtem Mozart e dos que acham cidade Tiradentes um bucólico bairro quase rural...

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esse aí de cima ainda não sou eu...é o Mozart regendo, já no bico do corvo, muito apropriadamente, seu requiem.

janeiro 23, 2007

o abutre

Quando meus filhos eram pequenos, tiveram que mudar de colégio. O deles fechou e a escolha natural recaiu sobre um a quatro quadras de casa, que aceitou receber quase todos os alunos do outro em pleno meio de ano.

De início receosa, decidi deixá-los ir sozinhos à escola. Eram só quatro quadras, se tanto. O meu filho mais velho dava a mão à irmã e lá iam. No meio dessa primeira quadra havia uma pessoa muito esquisita. Ficava na frente de uma casa, que depois vim a saber ser a sua, olhando fixamente em frente. Logo que eu o conheci, achei que podia ser alguém observando a entrada e saída dos garotos da escola, ou observando alguma casa em particular. A gente vive meio paranóico nesta cidade.

Com o tempo, uma vez que ele não fazia mais nada a não ser olhar fixamente em frente, apelidei-o de “o abutre”, porque tal como os abutres, ficava com o pescoço estendido, olhando o horizonte.

Com o passar dos anos fui lhe conhecendo os hábitos. Sempre muito limpo nas roupas, de vez em quando andava de uma rua à outra. Mas sempre na rua. Desde manhã cedinho até bem tarde da noite. Não falava. Não sorria. Inexpressivo quase. Imaginei um autista, ou pelo menos algum deficiente.

Depois de uns 4 ou 5 anos, tendo ele percebido que eu, às segundas feiras, botava o lixo e os jornais e revistas da semana para fora, esperando o lixeiro, vi que ele vinha sorrateiramente, olhando de um lado e de outro quando achava que não havia ninguém e pegava as revistas. Descobri então que ele lia.

Também fumava. Bastante.

Os anos foram passando. Meus filhos se formaram não só no colégio mas na faculdade também. Faz tempo.

E o tempo foi branqueando o cabelo do abutre, agrisalhando as têmporas. E ele sempre lá, fizesse frio ou calor, na frente da casa.

Hoje, já meio tarde da noite, após quase 20 anos de vê-lo todos os dias, a campainha toca e vou atender. Lá está o abutre, me olhando fixamente.

Me arranja um copo de água? Diz ele com uma forte e grave voz.

Água entregue, pergunto se quer mais, ele diz que não e vai embora.
O abutre, descubro depois de décadas, fala!

E tem uma linda voz.

O que as próximas décadas deste nosso relacionamento, se é que posso chamar assim, me trarão?

Ardo de curiosidade...
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janeiro 20, 2007

ignorância

Ser ignorante não é motivo de tristeza pra ninguém. Continuar ignorante pode ser um problema. Mas antes da gente saber das coisas, a gente NÃO sabe das coisas, portanto, é ignorante.

Eu sou ignorante de um monte de coisas. Algumas sou tão ignorante, mas tão ignorante, que nem tenho a consciência de ser ignorante.
Mas outras aprendi e deixei de ser.

Lembro das primeiras. Eu tinha que tirar chapa de raio X por algum motivo. Era criança. Achei que tinha que tirar a roupa pra tirar a chapa. Outras pessoas, percebendo a minha ignorância, corroboraram essa idéia. Eu era criança, acreditei. Um problemão. Eu era muito pudica de criança. Depois passou. A ignorância e a pudicícia ( meu deus, que língua a nossa!)

Outra vez foi ao falar ao telefone pela primeira vez.O telefone, que hoje parece nascer com a gente, junto com as tripas e os órgãos todos, na minha época era coisa cara. O telefone fixo, que celular nem existia. Poucas famílias tinham. A minha não tinha.

Como também não existia orelhão, a gente ia telefonar na padaria ou na farmácia. (sim, detratores de plantão: farmácia e padaria já existiam...)

Da primeira vez que usei o telefone fiquei lá, dizendo alô, alô, alô até a voz do outro lado berrar comigo. Tudo bem, era meu irmão mesmo. Mas eu estava tão nervosa que não conseguia articular mais nada.

Tem também na família a história do meu marido que, vindo garotinho da Itália de navio para cá, conheceu pela primeira vez um abacaxi e algum maldoso disse que se comia assim, com casca e tudo. A ignorância, quando se junta à maldade humana, pode fazer um estrago. Que o digam certos políticos que disso fazem uso particular.

E minha cunhada que, também italiana, na primeira vez em que na escola de freiras pediram que as crianças levassem um copo de leite pra alguma festa qualquer, passou o maior sufoco carregando sem tentar derramar um copo de leite, a bebida e não a flor.

A ignorância é um problema quando persiste, nem sempre por culpa do ignorante. Mas é uma vergonha quando usada contra o ser humano por outros oportunistas e maldosos. E como os há!

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janeiro 16, 2007

caindo por terra

É difícil não falar do buraco, ou cratera, que se abriu na Marginal. Não só pela magnitude da coisa, pela tragédia, mas pelo medo que aquilo me dá.

Eu já nem ando de metrô depois de pronto, que dirá estar perto de um em construção.

Sempre me perguntava o que acontecerá com o solo de São Paulo escavado dessa forma. Toda vez em que passo pelo túnel que passa por baixo do rio Pinheiros olho para cima, procurando frestas e vazamentos. Fico imaginando aquele rio todo entrando pelo teto. É de gelar o sangue.

E lastimo demais as mortes ocorridas ali. Uma morte estúpida, brutal.

E gela mais ainda meu sangue quando imagino que possa ter sido algum tipo de erro técnico, daqueles ocorridos mais pelo material empregado, fruto de desvios de verba, do que exatamente pelo erro de alguém nos cálculos.

Quero crer que não. Que foi a chuva, o solo, a natureza.

Mas de uns tempos pra cá me pergunto se não faz parte da natureza dos políticos brasileiros a corrupção.

Não vejo muita saída assim. Antes imaginava que houvesse políticos honestos, pelo menos os que eu apoiava e conhecia de perto. Que batalhava pra se elegerem. Hoje acho que o honesto chega a ser exceção. Ou, como na piada do Quino, “nunca chegou ao poder”. Porque, se chegar, a honestidade se esvai por incompatibilidade com o cargo.

Acho que certas coisas só começando de novo.Do zero.

Mas estou meio velha e cansada pra estar começando de novo, sempre.

Que esta cratera seja o último acidente. Que este novo escândalo de desvio de verbas em RN seja o último. Porque a minha esperança-que dizem ser a última a morrer– está vai não vai.

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janeiro 8, 2007

frevo

Outro dia estava ouvindo um frevo e quase inconscientemente comecei a dançar. Já não danço frevo hoje como dançava aos seis, sete anos de idade, mas ainda lembro da maioria dos passos. Porque foi nessa idade, assistindo pela televisão, que aprendi o frevo. Foi a primeira dança que aprendi. Depois veio o rock, também assistindo à TV ou no cinema, e depois, muitas décadas depois, as outras danças de salão, só que agora com professores.

Foi tão fácil aprender o frevo! E hoje, analisando, sei o porquê. Eu não tinha ainda o tal do “espírito crítico”. Aos seis anos de idade eu me aventurava, tentava, errava, fazia de novo, sem medo do ridículo, sem medo “do que os outros vão achar”, sem medo de “fazer feio”.

Aos seis anos eu me divertia e só. Depois sim. Depois vieram os “condicionantes sociais”, a auto-crítica, a crítica alheia, o desejo de agradar, a gana de competir, a necessidade de “vencer”, essas merdas todas que a sociedade ensina a gente. Por sociedade entenda-se pais, amigos, professores, TV, cinema.

Acho que só escapa disso a literatura, porque sempre me mantive a uma distância considerável dos livros de auto-ajuda, auto-conhecimento, enfim, dos livros de auto qualquer coisa.

Hoje pra aprender um oitozinho simples do tango, um voleio, já é uma luta. O corpo regateia, a perna emperra, um sufoco. E vejo nisso o medo de cair, o medo de não sair certo (como se alguma coisa saísse certa de primeira), o medo de pisar no pé alheio, o medo, o medo.

Daí tenho que estar entre amigos, que tomar um copo de vinho, que estar em ambientes conhecidos, pra passar o medo. E o corpo relaxar. E aprender aquilo que ele, por natureza, sempre soube.

Aquilo que aos seis anos eu já sabia: ficar molinha e tentar. Se cair, tentar de novo. Rir da queda, rir dos tropeções.

Aprendi muita coisa nessa vida. E desaprendi um monte delas também. Só espero que na balança o saldo da coisa seja a meu favor. Quer dizer, que eu tenha desaprendido as besteiras que aprendi na vida afora e ficado só com o que interessa. Não sei não...

E o que interessa? Acho que saber rir dos tropeços.

E tentar de novo.

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janeiro 1, 2007

paineira

Hoje o verde tem pra mim uma importância fundamental. Filha bióloga, taxa de colesterol e triglicéride altas, mais consciência e conhecimento, camada de ozônio, etc e tal...Na mesa e no meu quintal, o verde predomina.

Nem sempre foi assim. Sempre morei em casas e o verde sempre fez parte da minha vida.

Mas era assim como o uso de roupas. A gente usa a maior parte do tempo, já nem percebe a importância (ou não) do seu uso. A gente acorda, veste e pronto. Voilá! O verde à minha volta era assim: estava sempre ali. Como nunca faltou, também nunca lhe percebi a existência.

Mas havia um verde especial. Um verdão, diga-se de passagem. A paineira da USP.
A paineira- porque era A paineira – ficava na confluência das ruas Francisco Morato com Vital Brasil, bem na entrada da USP. A gente descia ali quando pegava carona pra ir ou voltar da universidade. A gente pedia carona dentro da USP regateando: “vou até a Heitor, ou até o centro, não dá? Que pena! Mas até a paineira dá, né? “ E a gente descia na paineira, onde se tomava outro ônibus.

As pessoas davam carona na USP e fora dela. Passei um ano inteiro quando fazia cursinho vindo de carona do centro até o Brooklin. E não se tratava de carona de conhecidos ou colegas. Eu e um amigo pedíamos carona estendendo a mão na Angélica ou na Consolação e chegávamos em casa sãos e salvos, em uma ou mais caronas, economizando assim uma grana que era pouca mas que fazia falta.

Na USP era praxe. Já tive algumas cantadas, facilmente evitadas tomando carona em grupos. Mas só.

E a Paineira estava lá, sempre referência. Cor de rosa clara carregadíssima na primavera, verde intensa no resto do ano.

Um belo dia arrancaram a Paineira de lá. Botaram no lugar uma ilha cheia de semáforos. Uma ilha pequena, depois substituída por um ponto de ônibus.

A paineira? Acho que morreu. Não me consta que a tenham transplantado pra outro lugar. Não creio mesmo que sobreviveria.

Como o hábito de pedir caronas. Como a solidariedade.
Tem certas coisas que a gente só sente a falta quando perde.
E como dói!

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