lá vem dezembro!
Uma semana, que digo, um mês antes, aquela busca incessante por receitas novas. Minha mãe se debruça sobre seu único e - eterno enquanto durou - livro da Dona Benta e folheia as páginas enquanto fala sozinha. Isto não pode, aquele leva tempo, aquele outro...
Eu só ali por perto. Sabia a parte que me cabia naquele latifúndio: sobras do dia 24 e 25. Eu não pedi pra nascer no dia 27 e provavelmente minha mãe também não. Durante todos os anos em que vivi com ela foi aquela reclamação pelo “trabalho que eu dei” nascendo entre o Natal e Ano Novo.
Uns tres dias antes a busca pelos entes vivos que teriam que morrer para que outros entes, mais vivos ainda, os comessem. Lembro do ano do leitão, do ano do cabrito, dos anos mais pobrinhos, de galinhas gordas e avantajadas, numa época em que o chester devia ser só um pesadelo de algum geneticista maluco.
E tinha as sobremesas, geralmente pudins. E o arroz, que não podia ser simplesmente o bom e velho arroz branquinho. Tinha que ser “chic”, o que na visão da minha mãe equivalia a misturar o arroz com nozes ou ameixas ou passas ou avelãs ou tudo isso junto.
E a tal “farofa dourada”. Eu odeio farofa dourada! Tenho que programar mais uns anos extras de terapia só pra tratar dessa maldita farofa.
Depois do cardápio pronto, as bebidas encomendadas, a lista que meu pai levava pro mercado central pra trazer as coisas todas, a lista dos convidados.
Havia ainda minha avó. E isso fazia toda a diferença, como vim a saber só depois que ela morreu. Então vinham os tios e tias, os primos e primas, os agregados. Aqueles amigos que não tinham família e que “não mereciam passar o natal sozinhos”, como dizia minha mãe.
E chegava o Natal. Minha mãe histérica na cozinha. Meu pai tentando se escafeder pro quintal, com o livro de palavras cruzadas na mão. Minha avó tentando ajudar e eu sendo expulsa da cozinha aos berros de “muito ajuda quem não atrapalha”.
Todo mundo chegava. Todo mundo comia e bebia até não aguentar mais. Todo mundo falava, gritava, discutia política e futebol e todo mundo, invariavelmente, após o café pedia pra minha mãe: Tuca, tem aí uma caminha ou rede pra tirar uma soneca??
Tinha.
Aí todo mundo dormia e minha mãe limpava a cozinha com alguma tia com menos sono.
E eu finalmente podia me esconder na garagem com um pedaço de bolo.
Só um pedaço, porque o resto era pra guardar “pro meu aniversário”.

Tenho uma pequena coleção de bolas de vidro que eu amo! Este mês faço aniversário...
Comments
Interessante...
Abraço
Posted by: José Manuel Dias | dezembro 1, 2006 6:33 PM
Nunca gostei do Natal. Sempre achei uma festa triste e so aprendi a comemorar depois que nasceram minhas meninas. E quem cozinha sou eu.
Bolas de vidro, hein?
Posted by: Allan | dezembro 2, 2006 2:46 PM
Não me vou esquecer do dia 27....
É... há alturas erradas para nascer... só ficam mesmo as sobras do Natal!!
Posted by: mfc | dezembro 2, 2006 4:55 PM
Una buena semana y que sea un buen diciembre :o)
Posted by: Mauricio Planel | dezembro 3, 2006 9:32 AM
José Manuel: obrigada pela visita! Volte sempre!
Allan: vai cozinhar o que este Natal? Estou perguntando pelo maridão, que é quem vai fazer a ceia. Eu só lavo louça. E como. E já está de bom tamanho :)
Manel: Se pudesse eu preferia ter nascido em outubro. Sei lá porque. Acho que é porque nada acontece em outubro. Mas ninguém me consultou antes...
Maurício: Estou no meu inferno astral. Mas espero que dezembro seja muito bom. Eu sempre espero o melhor :)
Posted by: maray | dezembro 3, 2006 3:59 PM
Maray,lo que me he reido imaginando la situación,la culinario,la del nacimiento la de las comidas y sobremesas.Ese arroz,que rico.
Pero mi gallego no alcanza para comprender el termino farofa,¿que es?
No olvidare el 27 tratare de agregar otra bola a la colección.
Un beso
Posted by: Sole | dezembro 3, 2006 4:36 PM
menina, e a farofa dourada, como é? fiquei curiosa,,,
Posted by: andrea | dezembro 3, 2006 7:46 PM
Sole: "farofa dourada" es una cosa a base de harina de mandioca o maiz, con huevos cocidos, aceitunas, azeite, cebolla, y mi mama ponia tambien nueces y uvas pasas. Dorada porque los huevos la dejaban amarilla. Lo que me daba odio era que siempre fue la misma farofa, por decadas. No hay quien aguante... :)
Andrea: minha mãe morreu e levou para o túmulo a receita completa da maldita farofa. E mesmo que não fosse assim, eu não passaria adiante. Assim como não passo adiante correntes nem livros do Paulo Coelho...Jogo tudo fora!!
Posted by: maray | dezembro 4, 2006 12:11 PM
Dezembro é sempre um mês mágico.
E, ainda por cima se tem aniversário...
Posted by: peciscas | dezembro 4, 2006 4:22 PM
Minha querida,
mas que signo forte é o capricornio. Eu só sou peixinho. Espero não esquecer o seu aniversário.
Beijos de Portugal e viva o Natal. Até rimou.
Posted by: graça martins | dezembro 5, 2006 7:46 AM
Pra mim dezembro é ruim porque trabalho muito mais, tem várias campanhas de natal... tremenda correria...
Parabéns!!! =D
abraços
Posted by: Roberlan | dezembro 5, 2006 3:22 PM