« novembro 2006 | Main | janeiro 2007 »

dezembro 28, 2006

projeto cem

Pronto. Segundo as más línguas, acabou meu inferno astral. E eu estou mais velha um ano. Se fosse um só, tudo bem. Mas passa da minha metade. Droga!

Ainda tenho que:

Fazer um curso de zouk e salsa. Reciclar minha dança de salão em geral. Continuar aprimorando o tango. Eternamente enquanto eu durar. Ou o tango.

Comprar um sítio pequeno. E plantar flores. E árvores de fruta e de sombra. E muita grama. E um caramanchão pra namorar embaixo. De maracujá, que eu gosto da flor embora não da fruta.

Comprar uma bicicleta e aprender a fazer curva e a parar sem me jogar ao chão. Com uma cestinha atrás e uma buzina estridente, que eu não boto fé nos meus reflexos.

Descobrir um tom legal de vermelho pra tingir os cabelos. Já tentei todos do mercado. Só não tentei ainda urucum. Mas acho que não vai dar certo.

Formar finalmente uma banda caribenha com um viés sambão. Com metal, vocal e backing. E mais uns três na percussão fora nós dois.

Fazer o caminho da luz ou o da fé em Sampa ou o de Santiago . Depende da forma física e da grana disponível. Acho que vai ser o da fé, que eu não tenho nenhuma na religião mas tenho uma fé cega na minha dureza.

Visitar o filhão e a nora sem dar piti no avião. Tarja preta na cabeça. Ou um porrete. Qualquer coisa que promova um apagão de quinze horas.

Aprimorar minha culinária vegetariana. Culinária das ilusões. Preciso descobrir um chantilly fake sem gordura, açúcar nem colesterol. Sendo branco e visguento já tá bom.

Tanta coisa a ser feita! E só mais 43 anos pra fazer!

Vou ter que reavaliar meu projeto centenário...

100anos.jpg


dezembro 22, 2006

pai google

É sempre interessante pesquisar por quais caminhos a gente chega nos outros ou eles chegam a nós. Eu, pelo menos, adoro fuçar esse tipo de coisa.

Existem os caminhos óbvios e comuns. Eu ( e a torcida do...digamos, Guarani) chegamos ao casamento através do irmão da melhor amiga da gente. A melhor amiga da gente (e da torcida do Corinthians) chegou a ser a melhor amiga da gente porque estudou na mesma escola desde criancinha. E por aí vai.

Já na internet a coisa muda um pouco. Por exemplo, meus amigos reais ou a grande maioria deles, não me lê. Nem parentes. Só um ou outro. Por que? Não sei. Ou eu não sou muito popular entre a parentada e os amigos, ou a internet é que não é. Quero crer que seja a segunda hipótese, porque é véspera de natal e eu não estou pra ficar deprimida nas festas.

Agora tem uns que chegam aqui através de links em comum. Eu mesma costumo visitar outros blogs através de blogs em que eu boto fé. E nunca errei seguindo essa regra. A não ser quando meus amigos blogueiros indicam links de parentes. Aí, bom, sabe como é, cunhado não é parente, Brizola presidente....nem sempre os parentes são tão legais como o blogueiro em questão. Isso não é genético.

E tem muitos que chegam via Pai Google. Pensando nisso, eu devia ter botado outro nome no blog, se quisesse ter audiência aumentada. Qualquer coisa como Morena do caribe ou Tango arretado. Agora é tarde, porém.

Agora o que me causou um espanto muito grande é quem chegou aqui procurando “como ir a pé para Cuba”.

Eu até entendo, quem sou eu pra falar de quem pode ter um medo infernal de avião, ou não suporte os embalos de um navio. Mas a pé?? Em algum momento vai ter que nadar...

Quer um conselho, minha filha ou meu filho desatinado?

Desista de Cuba. Depois que o Fidel está ( ou já foi) nesse vai não vai e o Raul não mostra firmeza, perigas da ilha acabar virando uma Cancun. E aí, adeus carros velhos e Buena vista de velhinhos ( que aliás, já restam poucos).

Vá a pé até a Aclimação. O caminho é legal, você pode conhecer a Paulista e a Liberdade, e de quebra ir dançar na Casa do Sargento, que é o lugar mais próximo de Cuba que eu já vi: cheio de velhinhos sorridentes, com ritmo pra dar e vender, ao som de boleros, mambos e cha-cha-chás.

casadosargento.jpg
Casa do sargento: Rua Scuvero 195- Aclimação

dezembro 18, 2006

cestas

Havia umas que anunciavam na televisão, do Gigante Amaral, mas acho que ninguém mais lembra. Além de eu já ter passado da metade do meu tempo, tenho boa memória, o que me deixa sozinha lembrando de certas coisas.

Em casa, porém, só havia umas simples, que uma amiga da família nos presenteava.
E era uma festa.

Por qual motivo nem sei. Pensando bem, cesta de natal é uma roubada. A não ser que seja chiquérrima (e aí vai ser uma super roubada) o conteúdo parece isca de lambari, ou seja, qualquer minhoca serve. Uma espécie de “melô do armazém”. É lata de sardinha misturada com tâmara, é azeitona em vidro junto com pêssego em calda. Pra que alguém vai querer lata de sardinha no natal? Nossa, deve ser muito, mas muito deprimente comer sardinha em lata no natal, embora eu saiba que tem gente que nem isso tem.

Mas em casa a sardinha ficava guardada pros esfomeados da madrugada, aqueles que chegavam tarde e não queriam nem incomodar, nem cozinhar.

As tâmaras, bom, as tâmaras, que eu sempre achei que pareciam no aspecto e no gosto com baratas em calda, essas ficavam pra algum bolo de frutas, daqueles que minha mãe limpava a geladeira e botava tudo que sobrou dentro da tigela do bolo. Onde eu disse frutas leia-se umas ameixas mais que secas, uma ou outra passa que passou, banana e as tais tâmaras. Ah, os bolos de frutas da minha mãe!

E tinha o panetone, que minha mãe fazia ela mesma, em casa, e desprezava os comprados. Ai de nós se elogiássemos algum comprado mais do que os que ela fazia...Ela sabia odiar.

Na cesta também vinha um monte de serpentina de celofane, que eu adorava pra brincar.

E lata de biscoito piraquê, que quem adorava era minha avó. Eram ótimas pra guardar linhas e agulhas de crochê. As bolachas? Uma porcaria meio envelhecida cujo prazo de validade devia ter expirado uma semana antes do natal. Do natal do ano anterior.

Tinha também algumas bebidas, dessas que meu pai dizia que eram “ de mulher” : um cinzano ou martini, um licor de cacau ou chocolate, um espumante da pior espécie. Meu pai sempre teve um ranço machista e de bebida não entendia nada, embora fosse fervoroso adepto. De mulheres também não entendia nada, e também era fervoroso adepto.

E, finalmente, a cesta propriamente dita. Uma cesta de vime com alguns enfeites também em vime pintado de vermelho e verde. Essa sim valia a pena. Até hoje eu adoro cestas de vime. Dá pra fazer de um tudo: guardar brinquedos espalhados de criança , guardar revistas velhas que dá pena jogar, fazer cachepô pra plantas, cestinha de dormir pra cachorro, levar comida pra pic-nic..nossa, acho mesmo que deviam fazer cestas de natal sem nada. Só a cesta.

Porque cesta de natal é muito legal.
Vazia.

christmas_basket.jpg

dezembro 14, 2006

promessas

Esse negócio de promessa é muito gosado. Estou falando isso porque realmente não sei que outra palavra usar. Talvez bizarro, que é um gosado grotesco.

As pessoas têm lá suas crenças. Acreditam em deuses, santos, orixás, gnomos, duendes, espíritos, num monte de entidades que elas nunca viram, mas acreditam. E mais: acreditam que essas entidades estejam onde quer que estiverem, lá estão para servi-las. Assim, quando alguém fica doente, arranja dívidas, precisa conseguir alguma coisa para o bem ou para o mal, “apega-se aos santos”.

Não, não é todo mundo que tem essa visão clientelista. Tem gente que realmente acredita de forma despojada. Que sai por aí tentando fazer sempre o bem etc e tal. Muitos me dizem que é pra ganhar o céu. Esses também são clientelistas, só que investem na coisa.

Agora tem outros que não investem. Só lembram dos seus santos quando o calo aperta. E daí fazem promessas. Como investidores, também. Só que ganham antes e pagam depois. Um comércio mais generoso que o capitalista, se é que posso chamar assim.

E tem as promessas, um caso a parte.

Teve uma certa época que minha avó ficou muito doente. Um câncer. Isso aos cerca de 40 anos de idade. Minha mãe fez uma promessa. Pra minha avó cumprir quando sarasse.
Aqui é necessário um adendo: tem gente que promete para os outros cumprirem. Nem sei bem que nome dar a esses. Espertos ou muy amigos, talvez.

Mas minha mãe prometeu levar minha avó a Pirapora do Bom Jesus, uma cidadezinha aqui perto.

E minha avó foi operada e sarou. Morreu 32 anos mais tarde, de AVC, não de câncer.
E nunca foi a Pirapora.

Minha mãe sempre se sentiu culpada por isso.

Eu porém, nunca entendi direito se ela se culpava por ter prometido alguma coisa por outra pessoa ou se era pela minha avó não ter cumprido a promessa.
Não sei bem o que era. Eu de comércio não entendo nada.
saojorge.jpg

bom, taí um santo que merece meu carinho. Atéia sim, pero corintiana!!

dezembro 11, 2006

carta a papai noel

Lembra aquela cadeira de balanço dupla que você nunca me trouxe? Esquece. Agora não quero mais. O balanço me dá náuseas.

Lembra aquele anel de brilhante, a única jóia que eu jamais quis em toda minha vida? Esquece também. Eu era adolescente e me ofuscava com brilhos fáceis. Hoje quero brilhos falsos, que brilham mais e custam menos. Swarovski já dá pro gasto, em matéria de brilho.

Hoje o que eu quero são contas de madeira, brilho de vidros, cores da terra. Quero a força.

Força pra me manter ereta e lúcida por toda a vida, até o fim. Espinha ereta, cabeça pensante, que mais alguém pode querer?

Hoje eu quero morrer antes que os que eu mais amo morram. Já me bastam as mortes de pessoas queridas. Não quero mais. Me poupe.

Hoje eu quero poder fazer planos com o mesmo empenho e satisfação que sempre fiz. A mesma alegria de menina, a mesma paixão adolescente, a mesma determinação madura de concretizá-los, passe o tempo que passar, que eu sou teimosa.

Hoje eu quero fazer amigos. Coisa que eu sempre quis. Amigos simples como eu. Sem muita frescura.

Quando eu era menina, inventaram você pra mim. Pai vinha em casa e se escondia na garagem pra por aquela roupa vermelha ridícula e me fazia tremer de medo quando aparecia na sala, fazendo ho, ho, ho. Hoje que passei da metade do meu caminho, eu não preciso que me inventem você. Isso eu mesma sei fazer. Invento hoje e desinvento amanhã. E é isso que quero manter.

Isso que quero ter todos os natais da minha vida.

A possibilidade de inventar. E desinventar.
Santatango.jpg
E é claro, tango sempre.


dezembro 5, 2006

ao rés do chão

Já disse que gosto de sapatos. Não chego nem de longe nem de perto a ser uma Imelda Marcos mas gosto. De onde vem isso? Talvez daqui:

Meu pai foi leiloeiro uma época da vida dele. Fazia leilões de um monte de coisas. Fábricas que faliam, famílias em inventário, sei lá, essas coisas. Às vezes sobravam coisas que não tinham onde ser guardadas. Nós tínhamos um quarto de despejo nos fundos da casa. Somando dois e dois dava o quatro da bagunça, quer dizer, o quarto da bagunça (foi mal, mas não resisti).

Certa vez sobraram uns 8 metros quadrados de sapatos. Sapatos totalmente fora de moda, de uns números que só pigmeus dos filmes do Fantasma usariam. E mesmo assim só nos filmes do Fantasma, chegado que era numa fantasia...

O que faz uma criança sozinha sem ter com quem brincar com 8 metros quadrados de parede recheados de sapatos de salto antigos?

Faz coisas que até Deus duvida. Eu fazia histórias, eu revivia situações de livros, eu punha sapatos na unica boneca que tive, no cachorro de pelúcia careca porque eu cortei o pelo, na minha detestável tartaruga. Uma espécie de Jeca Tatu urbano, aquele que botou sapatos em todo mundo.

E, eventualmente, pegava alguma sandália sem salto pra ir na escola, que a gente tinha muito pouco dinheiro. Mas só pude fazer isso até os oito anos, que, como disse, os sapatos eram de pigmeus e meu pé, modéstia a parte, é um pezão. Desde a mais tenra infância. Na família, quem calçava menos era minha mãe, e calçava 40. Uma família com sólidas bases.

Voltando.
Se esqueci as roupas que tive, os amores, os poemas e as espinhas, não esqueci dos sapatos preferidos nestes últimos 50 anos.

Lembro de uns chinelos de veludo preto, pra andar em casa. Um desbunde! E meu primeiro sapato de salto, a enormes 3 cm do chão!

E meu primeiro sapato de verniz preto! Uau!
E da maioria dos sapatos que tive.

Do chinelinho de cetim com pelo nas bordas, um kitsch total que levei na lua de mel até minha bota/coturno preta cheia de cordões, todos me são caros. Dos meus sapatos de tango até meu tênis de skatista relaxado, também.

Nem preciso dizer que meu conto preferido era Cinderela, a dos sapatinhos né? E tem também o gato de botas. E um que eu não lembro de quem era, de um par de sapatos mágicos, que quem punha não parava de dançar nunca mais. Esse era trágico.

Pelo visto não sou só eu a única fissurada em sapatos...
velmabarshoe.jpg


dezembro 1, 2006

lá vem dezembro!

Uma semana, que digo, um mês antes, aquela busca incessante por receitas novas. Minha mãe se debruça sobre seu único e - eterno enquanto durou - livro da Dona Benta e folheia as páginas enquanto fala sozinha. Isto não pode, aquele leva tempo, aquele outro...

Eu só ali por perto. Sabia a parte que me cabia naquele latifúndio: sobras do dia 24 e 25. Eu não pedi pra nascer no dia 27 e provavelmente minha mãe também não. Durante todos os anos em que vivi com ela foi aquela reclamação pelo “trabalho que eu dei” nascendo entre o Natal e Ano Novo.

Uns tres dias antes a busca pelos entes vivos que teriam que morrer para que outros entes, mais vivos ainda, os comessem. Lembro do ano do leitão, do ano do cabrito, dos anos mais pobrinhos, de galinhas gordas e avantajadas, numa época em que o chester devia ser só um pesadelo de algum geneticista maluco.

E tinha as sobremesas, geralmente pudins. E o arroz, que não podia ser simplesmente o bom e velho arroz branquinho. Tinha que ser “chic”, o que na visão da minha mãe equivalia a misturar o arroz com nozes ou ameixas ou passas ou avelãs ou tudo isso junto.

E a tal “farofa dourada”. Eu odeio farofa dourada! Tenho que programar mais uns anos extras de terapia só pra tratar dessa maldita farofa.

Depois do cardápio pronto, as bebidas encomendadas, a lista que meu pai levava pro mercado central pra trazer as coisas todas, a lista dos convidados.

Havia ainda minha avó. E isso fazia toda a diferença, como vim a saber só depois que ela morreu. Então vinham os tios e tias, os primos e primas, os agregados. Aqueles amigos que não tinham família e que “não mereciam passar o natal sozinhos”, como dizia minha mãe.

E chegava o Natal. Minha mãe histérica na cozinha. Meu pai tentando se escafeder pro quintal, com o livro de palavras cruzadas na mão. Minha avó tentando ajudar e eu sendo expulsa da cozinha aos berros de “muito ajuda quem não atrapalha”.

Todo mundo chegava. Todo mundo comia e bebia até não aguentar mais. Todo mundo falava, gritava, discutia política e futebol e todo mundo, invariavelmente, após o café pedia pra minha mãe: Tuca, tem aí uma caminha ou rede pra tirar uma soneca??
Tinha.

Aí todo mundo dormia e minha mãe limpava a cozinha com alguma tia com menos sono.

E eu finalmente podia me esconder na garagem com um pedaço de bolo.

Só um pedaço, porque o resto era pra guardar “pro meu aniversário”.

snow_globe_gif.jpg
Tenho uma pequena coleção de bolas de vidro que eu amo! Este mês faço aniversário...