« quando o muito é demais | Main | banda estreita »

xô nicotina!

Eu era bem pequena quando fui com meu pai visitar a construção do estádio do Morumbi. Ele era sãopaulino fanático e tinha acesso ao clube sempre que quisesse. Nãio lembro do estádio, mas lembro que ele estava fumando e eu peguei, não sei bem porquê, o cigarro da mão dele e dei uma fumadinha. Acho que ele nem percebeu, imerso que estava num papo com um amigo.
Meu pai fumava muito. Lembro que era Mistura Fina, sem filtro.

Aos 12, no ginásio, como se chama o ensino fundamental, eu via aquelas meninas todas fumando no banheiro. Meninas mais velhas, meninas que sabiam das coisas da vida. Meninas que eu admirava, por seu traquejo ao lidar com as situações, por serem mais velhas e sábias, por saberem se maquiar. Eu olhava pra mim mesma no espelho e via uma menina feia, de óculos, magérrima numa época em que isso não era moda, com poucas amigas e nada de especial.

Decidi fumar também. Parece que o cigarro me aproximava daquelas meninas sábias e bonitas e me fazia ter um pouco disso.

Não fez. Mas o cigarro me ofereceu uma muleta em todas as vezes em que entrava num ambiente estranho e não sabia o que fazer. Em todas as vezes em que fazia uma prova e não sabia o que responder. Em todas as vezes em que era apresentada a alguém que me interessava e não queria deixar transparecer. Em todas as vezes em que precisava de um tempo. Um tempo pra pensar. Um tempo pra organizar sentimentos.

E ele foi essa muleta por um certo tempo. Alguns anos, devo dizer.

Depois, bom, depois eu já não precisava de muletas. Passou a timidez, passou muito do medo adolescente de me relacionar com estranhos, passou o medo de não saber quem eu era. Mas aí eu já não me sentia capaz de andar sem muletas. E continuei fumando.

Daí, quarentona, eu quis parar. Sabia e principalmente, já sentia os efeitos danosos do fumo no organismo. Já não conseguia subir escadas muito bem, já não conseguia nadar, arfava facilmente e não era de prazer. Era de pura falta de ar. Eu fumava quase dois maços. Odiava aquelas muletas. Só não sabia o que fazer pra largá-las. Elas me tinham e não eu a elas. Elas me dominavam.

Tentei parar. Parei por um ano. Em plena campanha eleitoral, eu, militante disciplinada e empedernida da política nacional, voltei a fumar quase sem querer. Numa daquelas intermináveis reuniões políticas em que você quer mesmo é mandar todo mundo praquele lugar e, não podendo, pega um cigarro e chupa a fumaça com força e raiva, voltei a fumar. Desta vez, dois maços e meio por dia.

Mas aos cinquenta eu tive que tomar uma decisão. Meu check-up revelou coisas horríveis a meu respeito que eu já suspeitava. O cigarro foi visto pela primeira vez não mais como uma muleta mas como um veneno rápido. E aos cinquenta, a última coisa que você quer na vida é rapidez. Você quer é tempo. E qualidade de vida.

E convenhamos, hoje eu sei bem o que quero. Pra onde vou e porque vou. E quero tempo pra ir.

Parei faz alguns anos. Totalmente. Pra sempre, não tenho medo de afirmar. Em uma semana passei a sentir gostos e cheiros nunca dantes sentidos. Descobrir prazeres que eu não sabia que existiam. Hoje sei até se vai chover ou não só de cheirar o vento. E sei o que meu vizinho está cozinhando. E sou capaz de discernir vinhos, extrema delícia!

Puxa, o tempo que leva até a gente aprender determinadas coisas!!

broken%2520cigarette%25203.jpg


TrackBack

TrackBack URL for this entry:
http://www.gardenal.org/sistema/mt-tb.cgi/3592

Comments

Sou do time do Fernando Sabino, que dizia "Parar de fumar é facil. Eu mesmo ja parei umas quinhentas vezes."
Mas o charuto, nao largo de jeito nenhum.

Parar de fumar foi a coisa que demonstrou que eu ainda era gente.

Adorava fumar, parei há quase vinte anos, não me arrependi.

Beijos de casa nova, agora no blogspot. Pode aparecer. É "non-smoking area".

:)

acho impossível parar...

Deixei em Janeiro ao fim de 40 anos a fumar.
Estou a aguentar-me bem.
Mas continuo a sentir a falta...

Andei viajando no seu blog. Diminuiu o tédio deste dia chuvoso aqui do meio do Paraná

Allan: charuto? é a segunda coisa de Cuba que não me atrai. A primeira vc já sabe..

Ordisi: é claro que vou! Mesmo que haja fumantes. Não patrulho. Só lastimo.

Andrea: depois de certas coisas que andam acontecendo por aí, tudo é possível! ânimo!

MFC: isso que é apego! Aposto que uma mulher seria esquecida mais facilmente :)

Jonair: que bom que este blog tenha servido pralguma coisa!

explicando: não acho impossível parar. acho impossível continuar parada. eu fumo uma vez por semana, mas nao consigo parar mesmo assim...

Ainda não consegui largar.Que bom que você conseguiu.

Post a comment

(If you haven't left a comment here before, you may need to be approved by the site owner before your comment will appear. Until then, it won't appear on the entry. Thanks for waiting.)