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uma estorinha para o dia das crianças

Quando minha filha tinha uns dois anos ganhou um ursinho. Até aí nada demais. Todo mundo ganha ursinhos, com esta ou aquela idade.

Era o Chiquinho. Um ursinho de pelúcia, com forro de algodão.

Eu sei que era de algodão e não de pluma, como são os bichinhos hoje, porque tentei lavar, depois de uns meses. Quase apodrece, o pobre. Levou uns seis ou sete sóis pra secar e para sempre adquiriu um aspecto meio esquisito, mas não alterou o amor da minha filha por ele. Amor é assim mesmo: não vê cara nem cheiro de mofo.

Depois de uns seis anos, certa noite, na praia, minha filha, que dormia com ele, deixou-o cair durante a noite em cima de uma fumeta ( praia-pernilongos-espiral: a trilogia maldita que todo mundo que frequentou o litoral sul conhece). O Chiquinho começou a pegar fogo, lentamente, pelo pé. Acordamos em tempo. Não porém em tempo de salvar o pé do Chiquinho. Pra sempre ele ficou assim, com uma perna mais curta que a outra, que foi o melhor que eu pude fazer pra remendar o estrago. E a filha lá, sem nem abalar o amor que sentia por ele, perneta ou não. Amor é assim mesmo: não vê estética.

Depois de mais uns anos, a filha já adolescente, sonhando com amores outros além do Chiquinho, que a essa altura não tinha mais pelo nenhum, perneta, com um dos olhos caindo, com um cheiro indefinível ( mas péssimo), numa conversa de mulher pra mulher, foi convencida por mim a jogar fora o Chiquinho. Nem passar adiante dava. Seria uma sacanagem. Foi difícil. Eu me sentia como se estivesse pedindo a ela que jogasse fora o avô preferido ou uma bandeja de brigadeiros.

Uma amiga minha ( e mais ainda dela), sabendo do drama, condoeu-se e se ofereceu pra guardá-lo. Uma amiga mineira. Dessas pra quem a máxima: “quem guarda tem” é lema de vida.
Dito e melhor feito, o Chiquinho ficou na casa dela por mais uns anos.

Até há pouquíssimo tempo atrás onde, numa crise de paixão recorrente, minha filha o pediu de volta. Afinal, hoje ela tem 26 anos, formada, mestrada, crescida e bem-amada mas com aquela coisinha faltando pra ser feliz.

Aquela coisinha suja, feia, perneta, mal-cheirosa e com um dos olhos prestes a cair.

Agora ele está lá, embrulhado num saco plástico, no fundo de um armário. Porque se o amor de minha filha por ele é grande, o amor por mim deve ser maior. Quando eu disse – ou ele ou eu- ela topou escondê-lo lá até ter sua própria casa.
Mas eu não sei por quanto tempo ainda vou ganhar essa parada...

christmas-bear.jpg

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Comments

Beleza. Mas eu, na qualidade de avô, protesto contra a sua comparação entre avô e bandeja de brigadeiros. Os brigadeiros são muuuito melhores.
Beijinhos.

Amor é assim: nao tem tempo pra acabar e, às vezes, nao acaba nunca.

Mãe,

eu só não tirei o Chiquinho do armário ainda porque não há mais espaço para ele na estante "nova". Mas assim que abrir um espacinho, ele retoma se cantinho, viu??

Santos: não dizem que avó é mãe com mel? Avô deve ser pai com leite condensado :)

Allan: Eu sei. Como disse o poetinha: infinito enquanto dure!

Filhota: sabia que minha alegria ia durar pouco ;)

Em minha casa, em vez de ursinho, havia um gorila chamado, é claro, Maguila. Tantos acidentes sofreu que acabou apodrecendo, até que o próprio dono concordou em jogá-lo no lixo.

Voce vai ganhar quando o Chiquinho não lhe incomodar mais. hehehe
beijos

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