« ovelha desgarrada | Main | xô nicotina! »

quando o muito é demais

Sou muito facilmente chegada a overdoses. Nem sei como estou casada há tanto tempo sem ter sentido os efeitos dessa overdose conjugal. Mas em certas situações, adoro overdose.

Por exemplo: estou muito sem dinheiro e gostaria de ter uma roupa bonita e cara. Nada melhor do que ir passear na Oscar Freire. Olhar vitrine até cansar.

O fato é que cansa mesmo. É overdose pura. Daí dá uma sensação de saciedade, um fastio que nem sei. Fico curada da vontade por mais de mês! E sem ter gasto um tostão!
É difícil de explicar. Mas olhar muito é como ter. Cansa.

Houve uma época em que eu era fissurada por Porsches. Olhava, aquele olhão comprido, da janela do ônibus praquelas lojas sofistificadas da Cidade Jardim, aquelas que só têm carros importados. Havia ali de um tudo: Porsches, Ferraris, tudo objeto de desejo meu. Até que depois de muito olhar, cansava. Dava uma espécie de tédio, sabe?

Pois é. Agora tem outras coisas que não cansa fácil não. Tango não canso. São anos aprendendo, dançando, indo na Argentina pra reciclar, pra olhar. Anos.

Meu marido também. São anos a mesma cara do outro lado do travesseiro. Décadas. Daqui há 15 anos, meio século! Nossa! Mas não cansa não. Deve ser daquelas drogas pesadas, tão pesadas, que o cara fica adicto pra sempre. ( não fica chateado, não, maridão, droga é no bom sentido..)

Não canso de chinchulines. Não canso de Bola de Nieve. Não canso de Wagner. Não canso da cor roxa nem de calda de caramelo.

Agora algodão doce, rapadura, João Bosco e Lula já cansei.

Não canso de crochê, de jogar bounce out no computador, de ler out door e para-choque de caminhão pelas ruas.

Já livrarias sempre com os mesmos Paulos Coelhos na vitrine já deu. E sapatos de bico fino também.
Deve haver alguma lógica nisso.

Ou não.

porsche%20vintage.jpg
Na realidade, os antigos eram muito mais bonitos. Agora não gosto mais...estão verdes essas uvas!

TrackBack

TrackBack URL for this entry:
http://www.gardenal.org/sistema/mt-tb.cgi/3585

Comments

Entendi. Muito pelo contrario, entende?
Ou não?

:)

Beijos decididos.

Delicioso este teu texto.
Por associação de ideias, lembrei-me de um grande actor português, o Raul Solnado que contou, numa entrevista, que no início da sua carreira, ia a passar no largo do Rossio, tendo apenas no bolso uma moeda de pequeno valor.
Então, para se animar, atravessou o largo, entrou num stand e... comprou um carro.

Ordisi: tudo é muito relativo. Já dizia aquele outro :)

Peciscas: Adoro o Raul Solnado! Mas eu, com apenas uma moeda, o que faço é tomar café expresso e olhe lá!

Só pode ter overdose quando a droga é má. A música, teu marido, os jogos... devem ser de boa qualidade.

Post a comment

(If you haven't left a comment here before, you may need to be approved by the site owner before your comment will appear. Until then, it won't appear on the entry. Thanks for waiting.)