ovelha desgarrada
Passei muitos anos da minha vida sendo olhada com estranheza por mãe, por irmãos, por conhecidos. Diziam que eu tinha um gênio difícil. Minha mãe, com aquela dramaticidade que sempre lhe foi infernalmente particular, dizia mesmo que eu era uma peste.
Assim, acabei por me acostumar, embora jamais aceitar, essa visão do ser diferente, da ovelha negra no meio da brancura toda das outras.
Não é fácil. Não é agradável. Porque te remete sempre a uma solidão desgraçada essa coisa de não se sentir igual aos outros.
Estou despejando isso tudo depois da volta de uma viagem porque me sinto bem. E explico logo, antes que quem me lê também comece a me achar esquisita.
Quando viajo pra algum lugar distante, mais ainda, outro país – embora eu infelizmente não conheça tantos assim – e descubro que afinal, em qualquer lugar, gente é sempre muito parecida, fico feliz. Aliviada. Provo, comprovo, mato a cobra e mostro o pau praqueles que me achavam esquisita. Consigo me situar em outros lugares, fazer amigos, acariciar cachorros estrangeiros, comer comidas desconhecidas, olhar olhos que nasceram em outras terras e me sentir em casa, afinal. Entre amigos.
No meio da Calle Corrientes, na Plaza de Mayo, num canto escurinho da Sarmiento, sempre se achará algum olhar já visto, algum canto de passarinho já ouvido, algum canteirinho de maria sem-vergonha, mesmo que lá o nome seja outro. Entendem? O nome pode ser outro, mas flor é flor. E gente é gente.
E eu acabo por me repetir, mas gente é bom demais. E, quer saber? Hoje tenho certeza que o mundo de ovelhas, no fundo, é tudo igual. Depois que tomam chuva, se espojam na terra, pastam nos campos, bem rapidinho todas elas ficam mesmo é marrom-cocô!

Comments
(Não) Sugiro uma voltinha à pé pelo centro de Nairobi. Lá vc vai sentir como uma ovelha branca é diferente MESMO, Maray.
:)
Beijos
Posted by: Ordisi | outubro 25, 2006 2:50 PM
Se lhe serve de consolo, admiro a coragem de quem foi a "ovelha negra" da família, por ser diferente e defender seu espaço de diferente. Eu já fiz o contrario, não me rebelei nunca e me encaixava em qualquer contexto. Paguei meu preço, também. Levou muito tempo para saber quem sou e respeitar isso.
beijão
pat
Posted by: pat | outubro 25, 2006 10:47 PM
E têm todas as ovelhas brancas, pretas, pardas, mudas, explosivas, cultas, verossímeis, pútridas, arcaicas, voltaicas, menores, vencidas, multiformes, triunfantes, bestiais, ímpares, todas elas, todas sem exceção que as redima ou polua, todas têm, para sua honra ou desgraça, o substantivo que lhes dá a inigualável pele de vitoriosa passividade: ovelha.
Posted by: Herbert | outubro 26, 2006 12:36 PM
Ordisi: eu não falava exatamente de cores, você bem sabe :)
Pat: não é coragem. Ou no meu caso não foi. Foi legítima defesa. Tanto me azucrinavam que eu não pude fazer mais nada a não ser assumir o que me imputavam e me orgulhar disso. Depois com o tempo passou. Hoje não acho que rebeldia seja um bom caminho. Hoje sou francamente a favor do diálogo. Até a página dois. Depois sim, se não der, aí é pau.
Herbert: só um poeta pra ver nas ovelhas isso tudo. Ovelha é bicho meio besta. Não sei se é passivo. Nunca cutuquei uma ovelha com vara curta :)
Posted by: maray | outubro 26, 2006 6:36 PM
Es verdad...El mundo es igual (o muy parecido) en cualquier rincón del mundo. Hay muchas ovejas blancas, algunas negras... y tambien hay lobos e incluso cabras y otros animales.
Un abrazo Maray.
Posted by: Nadie | outubro 27, 2006 8:13 AM
tem um restaurante vegetariano na Humboldt com a Paraguay. E um chines vegetariano na Corrientes, no Abasto. Viva o choripan!
Posted by: Tulio | outubro 28, 2006 4:48 AM
Acho que as ovelhas negras são mais felizes. Não é preciso mais se preocupar em não sujar a pele.
Posted by: Sonia | outubro 29, 2006 1:27 AM