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sete casas

Minha primeira casa foi o colo da minha vó. Era lá meu esconderijo quando doiam minhas costas, meu orgulho ferido, minhas canelas machucadas. Um colo sempre coberto de flanela. Umas mãos tortas cheias de carinho.

Minha segunda casa foi na Lapa. Um sobradinho escuro, pequeno e feiozinho. Lembro pouco. Ele só era bom mesmo pelo entorno: uma vila cheia de crianças pra brincar e uma igreja ao lado que à noite se enchia de hinos e me acalentava.

Minha terceira casa foi no Brooklin. Num Brooklin cheio de ruas de terra e casas térreas. Sem Marginal, sem Berrini, com a construção do Palácio do Governo ainda em dúvida se seria uma faculdade ( dizia-se que da Matarazzo) ou qualquer outra coisa. Acabou virando qualquer outra coisa.

Minha quarta casa foi a mesa da sala da minha mãe. Era uma mesa grande, apoiada sobre uma espécie de cubo de madeira, que, ao ser coberto com uma velha colcha de casal, tornava-se a cabana do deserto de Agadir, o palácio do Aladim, a caverna do Robinson. Passei tardes e tardes lá, sozinha com livros, baralho, alguns leques e luvas da minha mãe, vivendo vidas paralelas. A minha era muito chata e triste, então.

Minha quinta casa foi depois que me casei. Na Vila Sônia. Uma casa no alto de um morro, com uma árvore enorme na frente. A casa era bem simples, pequena, mas foi a primeira nossa mesmo, apesar de alugada. Onde uma nova vida começou pra mim.

Minha sexta casa foi a algumas quadras desta em que hoje vivo. Alugada também. Quase igual na disposição das paredes. Lembro pouco dela. Fazia faculdade, ficava lá só a noite. Em férias, nós, sem filhos ainda, nunca parávamos lá. Viajamos o Brasil todo. Aquela, mais do que casa, foi quase um hotel, onde só ficávamos nos intervalos.

Minha sétima casa é esta. A primeira nossa. A única. Provavelmente a última.

Minhas sete casas.

casadebonecas.jpg

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Comments

Oi cara,
Qué gran idea um post assim. E que bonita lembrança. Agora vou a lembrar as mias. em silencio, na soledade da parede.

O teu texto teve o condão de me por a pensar nas casas da minha memória.
Estou na décima e também penso que cheguei ao fim da linha.
Mas nunca se sabe...

Parece que as melhores foram a primeira e a última.

Beijinhos.

Que gostosinho esse post! As tuas lembranças me trouxeram as minhas e por aí vai... Boa semana prá voce! Ah, fiquei apaixonaaaada pelo cachorrinho de olho malhado!!!

Tive inveja da sua primeira casa. Minha avó paterna morava em Goiás, a viagem era longa naqueles tempos, e íamos de 3 em 3, 4 em 4 anos. Mesmo assim foi a avó que me ficou carinhosamente na memória, pois a que morava perto de nós nada sabia de ternra e carinhos de avó. Minha avó de verdade foi a velha Bó, sobre quem tenho um texto que dia desses publico no Contando Causos.

Sá: as casas da gente não são só um envoltório da nossa vida, acho eu. Têm a ver com a vida também. Sou apegadíssima a casas. E não só às minhas casas.

Peciscas: espero que a linha seja muuuiito comprida!!

Santos Passos: a primeira foi inesquecível. A última (por enquanto) estou tratando de torná-la inesquecível também.

Daíza: o cachorrinho de olho malhado é uma cachorrinha: a mancha negra, por motivos óbvios. Não atende nenhuma ordem direito, é medrosa pra caramba, é a paixão das nossas vidas!

Sônia: também tive duas avós, mas uma nem conheci direito, por questões familiares. Vó é bom demais. Espero ser uma boa avó, um dia, se meus filhos se animarem...

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