sequestro
Um dia meu pai falou pra minha mãe: arruma a menina que nós vamos passear. Minha mãe não gostava muito de passear com ele. Não aos sábados. Dizia que tinha muito trabalho, que só ela trabalhava, que ninguém ajudava e se ele não saísse de perto a ladainha era capaz de continuar por horas.
Ela arrumou a menina. Eu. O que tinha por baixo não lembro, mas o que tinha por cima era um casacão de lã cinza que pinicava pra caramba, abotoado na frente como um jaquetão da academia, com um redingote atrás, se é que alguém ainda lembra o que seja um redingote.
Mas lá no redingote atrás e nos seis botões da frente, a coisa mais linda ( e única bonita) do casaco: botões de farol de carro. Pelo menos era o que eu achava na época, com seis anos, daqueles botões de plástico multifacetado que brilhavam quando a luz incidia neles. Por eles eu aguentava calada a lã piniquenta me machucando a pele, alérgica desde cedo.
Fomos para o ponto de ônibus. Eu era pequena mas não boba. Logo percebi, apesar de mal saber ler, que aquele não era o ônibus costumeiro. Era uma cor estranha de ônibus. Dizia “vila qualquer coisa” .
Quando depois do que me pareceram horas chegamos, me vi num bairro pobre, numa rua de terra. Entramos numa casa pra mim desconhecida e meu pai falou: vai, abraça sua avó. Vai brincar com seus primos.
Eu nunca tinha visto aquela avó. Na realidade, vim a saber depois que sim, já tinha visto quando tinha uns dois anos no máximo. Mas a minha memória, apesar de boa, não chega a tanto. Então, aos seis, eu nunca tinha visto aquela avó.
Parecia uma índia. Bem morena, cabelos grisalhos lisos e enormes. Iguais ao da outra avó, a que morava conosco, só que os dessa eram só grisalhos, não brancos amarelados.
Lembro pouco disso tudo. Só o que ficou foi a enorme, a imensa bronca que minha mãe deu nele e a semana sem falar pelo sequestro que, dizia ela, ele tinha feito.
Minha mãe era rompida com a família do meu pai. E ele teve que armar uma mentira pra me levar lá.
Eu? Eu achei tudo ótimo. A casa era cheia de gatos, primos e uma avó que parecia índia dos filmes da sessão da tarde. Foi um bonito passeio.
De qualquer forma, meu pai nunca mais repetiu a dose. E não foi por falta de eu pedir!

bill miller photo
Comments
vc faz o que profissionalmente? já pensou em escrever? rs tantas coisas lindas!beijos
Posted by: andrea | setembro 11, 2006 3:13 AM
:~)
Visualizei a seqüência, sabe? Adorei o que vi.
Posted by: Lia | setembro 11, 2006 8:22 PM
Redingote. Tentei no Houaiss. Não entendi. Tentei ver imagens no Google. Menos ainda. Esse, o grande mistério do 11 de setembro.
Posted by: Santos Passos | setembro 11, 2006 11:11 PM
Muito bacana o artigo. Quem dera que todo "sequestro" fosse assim. =D Ao invés da violência que nos acostumamos a ver todos os dias. Gosto muito dessas estórias de infância, familia e tal. E concordo com o comment acima, acho que devria escrever profissionalmente. =)
bjs
PS.: qq dia ilustra um artigo com um desenho meu. se tiver algum q vc achar legal. =)
Posted by: Roberlan Borges Paresqui | setembro 12, 2006 3:03 AM
andrea: escrever eu escrevo. Agora o que eu gostaria mesmo é que me pagassem pra isso :)
Lia: oi vizinha! saiu do "sofá" pra me visitar? Adorei!
Santos: isso que dá usar o intelectual errado...Tenta no Aurelião:..redingote: sobrecasaca, casaco feminino inteiriço ajustado na cintura e que alarga pra baixo...
Na realidade, a gente acaba usando o termo pra esses casacos que têm uma espécie de cinto só atrás, quase como um enfeite. Blog também é cultura!!
Roberlan: adorei a idéia. Só não tinha usado ainda porque não gosto de "roubar" imagens de gente conhecida :) Pode dar galho...
Posted by: maray | setembro 12, 2006 11:58 AM
Por que seu pai não escondeu a fuga?
Posted by: Diego Barretoi Ivo | setembro 13, 2006 12:13 AM
Maray, pode "roubar" a vontade... rsrsrs
bjs
Posted by: Roberlan | setembro 13, 2006 12:21 AM
Pô! Que família interessante!
:)
Beijo.
Posted by: Ordisi | setembro 13, 2006 1:31 PM
que delicia de recordação!
Posted by: daiza | setembro 13, 2006 6:25 PM
Diego: meu pai tinha muitíssimos defeitos e muitas qualidades também. Uma delas (defeito ou qualidade, não sei bem) era que ele mentia mal. Assim, não adiantava tentar esconder..:)
Ordisi: "interessante" não é bem a palavra que minha mãe usava pra nomear a família do meu pai :D
Daíza: é impressionante como o tempo abranda as recordações. Mesmo coisas ruins acabam por se tornar mais leves e divertidas. Esse fato gerou um problemão em casa na época!
Posted by: maray | setembro 13, 2006 6:59 PM
E você nunca mais viu essa avó?
Posted by: Sonia | setembro 14, 2006 1:02 AM
Sônia: vi. Uns quinze anos mais tarde. Quando ela foi operada de apendicite, com quase 80 anos. Sobreviveu. Morreu perto dos 100. Mas a minha mãe morreu sem nunca mais querer vê-la. Descobri que o ódio dura muito mais que a vida humana.
Posted by: maray | setembro 14, 2006 10:51 AM
Chorei de rir com o redingote...
Posted by: Maitê André | setembro 26, 2006 8:18 PM