castelos
Muita gente - a maioria, penso eu - usa as cartas do baralho pra jogar. Eu nem sempre.
Nos meus tempos de brincar debaixo da mesa da sala, eu usava as cartas do baralho que tínhamos pra fazer castelos. Não aqueles castelos enormes, cujo objetivo é a altura, sem que as cartas desabem. Mas castelos meio quadradões, com moradores, com histórias pra contar.
A dama de espadas sempre achei a mais linda. Era a moradora principal do castelo. Que era apaixonada pelo valete de ouros. Os reis sempre eram os pais ou tios, muito velhos pra despertar paixões. O vilão sempre era o valete de paus, uma cara de calhorda sem tamanho.
Já quando comecei a namorar e pensávamos em casar, as casas que a gente fazia eram de embalagem de pasta de dentes. Por causa do papelão, na grossura e no tamanho ideais pra fazer maquetes pequenas. A gente sonhava em comprar um terreno e construir. O que acabamos nunca realizando. Pelo menos até hoje. Muitas e muitas maquetes fizemos de embalagem de pasta de dente. Nossos sonhos Colgate.
Na praia eu também fiz castelos. Para os filhos pequenos. Assim que eles cresciam um bocadinho já faziam castelos bem melhores do que os meus, primitivos, mais um montinho de areia do que qualquer outra coisa. Houve um verão em que eles fizeram o Vale dos Reis. Com direito a pirâmides e tudo. E a esfinge, é claro! A partir daí eu nunca mais fiz castelos na areia. Humilhação total.
Hoje já não faço castelos. Nem de cartas, nem na areia, nem em cartolina.
Só em sonhos. Mas não são mais castelos-moradia. São castelos-desejos.
Que esses ninguém faz melhor que eu.

Comments
Meus castelos desejo eu construo acordada, e é tão bom.
Posted by: Sonia | setembro 25, 2006 6:51 PM
Gosto da maneira como você fala das coisas simples da vida, aparentemente sem grande importância, mas determinantes na formação da nossa personalidade. O poeta Cacaso disse uma vez: "Minha Pátria é a Infância. Por isso vivo no exílio". Grande abraço!
Posted by: Bruno Ribeiro | setembro 26, 2006 10:16 AM