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alfinete de gravata

Já falei por aqui da vaidade do meu pai. Poucos conheci tão preocupados com a roupa quanto ele.

Não tinha dinheiro. Nunca teve. De moço, numa família de dez filhos (dezoito nascidos, dez vivos) não havia como ter dinheiro mesmo. Depois de casado a vida não foi muito melhor. O que nunca o impediu de exercer sua vaidade.

Ele era bonito. Pelo menos chamava alguma atenção quando moço. Usava um bigodinho “ a la Clark Gable”, ou seja, aquela coisa fininha e ridícula por sobre a boca. Lembro que tinha uma escovinha e um pente especial pra aparar o bigode. Uma vez pedi-lhe que tirasse, eu queria ver como ficava. Ele, vaidoso e adorando agradar à filha, tirou. Imediatamente pedi que pusesse de novo, como se fosse possível !A região esbranquiçada entre o nariz e a boca, acostumada a ser coberta pelo bigode, mais parecia uma bunda de nenê!

Na falta de dinheiro pra comprar ternos de linho ( como se usava), ele era usuário do “turco da prestação”, uma figurinha sui generis que aparecia por casa todo mês com uma mala enorme de couro de onde tirava ternos, camisas, gravatas, paletós. Deviam ser usados, acho eu, porque meu pai costumava ( e podia) comprá-los para ele mesmo e para meus irmãos.

E ele comprava. E quando as camisas puíam no colarinho, minha mãe virava o colarinho do avesso. E ela mesma lavava aquelas camisas e as engomava. Que era como ele gostava.

E ai dela se desse alguma roupa usada pra algum pedinte! Ele, que sempre foi uma pessoa extremamente generosa para presentear as outras, ficava uma onça se algum pertence dele, independente do estado, fosse doado pra alguém. Tinha o maior orgulho de olhar aquele guarda-roupa onde as roupas dele ocupavam a maior parte do espaço e aquela estante cheia de sapatos.

Meu pai não ligava tanto assim pra qualidade, ou então não podia pagar por ela.
Ele gostava mesmo era de quantidade.

Passava mais tempo se arrumando no espelho do que minha mãe. Fazia a barba com esmero, passava Aqua Velva depois e se houvesse algum creme para as mãos ou rosto ainda usava por cima. E punha nas mãos seu anel de ouro e na gravata, ah, na gravata!

Na gravata punha um alfinete de pérola que minha mãe odiava.

Havia sido presente de uma das inúmeras filiais que ele arranjava por aí.
Ele jurava pra minha mãe que não tinha mais nada com ela, aquela filial.

Mas o alfinete de gravata, de ouro e pérola, não tinha culpa de nada, não é?
E saía, todo pimpão, alongando pelas ruas o olhar pra toda mulher bonita que passasse.

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Comments

Ele usava chapéu?

As vezes eu desejo ter nascido cinquenta anos atrás só pra um dia ter podido usar chapéu...

Capedonte: Não precisa ser um vovô pra usar chapéu...mas meu pai não usava não. Ele tinha o maior orgulho da farta cabeleira. Na qual usava, é claro, gumex, aquele da "dura lex, sed lex, no cabelo só gumex"...:)

Pais sempre foram fontes inesgotaveis de casos. Alguns, sobre o meu, é melhor evitar divulgar.

E o bigodinho? O meu já tinha bigodão com barba e cabelo, tudo uma coisa só. Acho o bigodinho com o gumex no cabelo muuuito mais charmoso :)

Allan: ah, conta vá! esses são os melhores!

Lia: ué, você é filha do Belchior ? :)(brincadeirinha..)

Oi Maray,

Conheci seu blog por meio do blog da Ana, de Montevideo.

Passei pra desejar uma boa semana. Volto pra ler seus textos.

Meu pai é o décimo-oitavo. Último, enfim.

Quanto ao bigode... sou mais o cavanhaque. O meu. Ho ho. Na verdade eu tenho nervoso de tirá-lo depois de tantos anos. Dá uma sensação estranha, ver o queixo do meu pai em mim.

Aliás, covinha no queixo é um ponto positivo? Certa vez, uma ficou ouriçada com isso.

maurício: fui lá ver seus trabalhos e gostei muito! Obrigada pela visita!

Elesbão: covinha em qualquer lugar sempre é ponto positivo! Nas costas,duas, na altura da cintura, eu acho o máximo!Tá vendo? Mulher se ouriça com cada coisa...:)

Li seu texto e comecei a pensar na minha mãe. Tinha horror a qualquer tipo de vaidade no vestir. Era algo neurótico, tinha a ver com a história dramática que eu quis narrar no meu abortado romance autobiográfico mas não tive coragem. E lembro bem da vergonha que eu sentia quando ela aparecia acintosamente mal-vestida, para provar ao mundo seu desprezo por "futilidades", e o quanto lutei para ter o direito de usar roupas bonitas. Se não me engano postei algo a esse respeito nos meus causos. Se ainda não fiz, vou fazer.

Gostei do teu texto que achei por acaso navegando. Lembrei-me do meu pai, não que ele fosse vaidoso e chegado num rabo de saia , como o seu mas o bigodinho, o prendedor de gravata e a Aqua velva depois do barbear. Me deu saudades do velho, já falecido.
Parabéns. É gostoso ler um trecho bem redigido. Aprimore esse seu dom.
Um abraço.

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