Tia Dina
Naquela casa moravam milhares de pessoas. Pra chegar lá, uma escalada em que os joelhos se aproximavam perigosamente do queixo, tal o ângulo de inclinação da rua. Eu não entendia como a casa podia ficar ali, dependurada, sem se soltar e cair rua abaixo.
Era numa cidade muito da estranha também. Diziam, mas nunca me levaram, que havia um hospício. Lugar de loucos. Que não se podia chegar nem perto, porque eles atiravam coisas. Toda a família da tia trabalhava lá. Ou tinha trabalhado lá e se aposentado. Eles me pareciam meio loucos também. Mas mansos.
Lá havia uma cama de casal que media uns 10 metros de largura. Lembro que dormimos umas seis ou sete crianças lá. Atravessadas. Enroladas. Emboladas.
Nessa cama uma coisa nunca dantes vista: um rolo no lugar de travesseiros. Era nosso cavalo, nossa amurada, nossa parede do castelo.
E embaixo da cama?Ahã! Um penico! Que tinha que ser usado à noite, porque ninguém deixava a gente, criança, sair pra ir ao banheiro, lá fora. Tenebroso. Escuro. Com um buraco no chão de cimento queimado e um lugar marcado no chão onde deveriam ficar os pés. Um lugar de onde podiam sair monstros pra me carregar para as profundezas.
Lá havia um enorme fogão de lenha. E uma enorme caçarola preta de ferro da qual saiam pipocas magicamente.
E, finalmente, a tia. Tia que não era tia de verdade. Irmã de criação do meu pai. Mas, dizia-se pelos cantos, quando achavam que não havia crianças por perto, que ela fugira de um circo e fora adotada pela vó. Uma história pra lá de estranha. Também diziam que não era de criação coisa nenhuma. Que o avô era muito do malandro. Histórias.
A tia. Grandona, gorda, sorridente, falando com sotaque caipira, cheia de bolinhos de fubá, de bolinhos de chuva, de pipoca, de carinhos. E logo acima do eterno sorriso, um enorme bigodão. Ah, a tia!
Vinte e tantos anos depois, num trabalho de detetive, voltei lá. Primeiro, descobrir a cidade, pequena, com o manicômio quase desativado. E perto da capital. Ué, não era longe pra caramba?
Depois a casa. Nem foi difícil. A rua era, efetivamente, bem inclinada. A mais inclinada da cidade. Uma ladeirinha.
A casa. Bonitinha, igual a tantas outras, pequena.
E a cama de dez metros? E o banheiro lá fora? Reformado, era dentro. O antigo? Foi demolido.
E o fogão de lenha? Menina! Muito trabalho! De um tempão pra cá é a gás.
E a tia?
Ah, a tia! Continuava lá. Mais cabelos brancos, uma bengala pra ajudar nas subidas, o sorrisão. E o bigode. Que nem era tão grande, afinal...
Certas coisas não mudam.








