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setembro 29, 2006

Tia Dina

Naquela casa moravam milhares de pessoas. Pra chegar lá, uma escalada em que os joelhos se aproximavam perigosamente do queixo, tal o ângulo de inclinação da rua. Eu não entendia como a casa podia ficar ali, dependurada, sem se soltar e cair rua abaixo.

Era numa cidade muito da estranha também. Diziam, mas nunca me levaram, que havia um hospício. Lugar de loucos. Que não se podia chegar nem perto, porque eles atiravam coisas. Toda a família da tia trabalhava lá. Ou tinha trabalhado lá e se aposentado. Eles me pareciam meio loucos também. Mas mansos.

Lá havia uma cama de casal que media uns 10 metros de largura. Lembro que dormimos umas seis ou sete crianças lá. Atravessadas. Enroladas. Emboladas.
Nessa cama uma coisa nunca dantes vista: um rolo no lugar de travesseiros. Era nosso cavalo, nossa amurada, nossa parede do castelo.

E embaixo da cama?Ahã! Um penico! Que tinha que ser usado à noite, porque ninguém deixava a gente, criança, sair pra ir ao banheiro, lá fora. Tenebroso. Escuro. Com um buraco no chão de cimento queimado e um lugar marcado no chão onde deveriam ficar os pés. Um lugar de onde podiam sair monstros pra me carregar para as profundezas.

Lá havia um enorme fogão de lenha. E uma enorme caçarola preta de ferro da qual saiam pipocas magicamente.

E, finalmente, a tia. Tia que não era tia de verdade. Irmã de criação do meu pai. Mas, dizia-se pelos cantos, quando achavam que não havia crianças por perto, que ela fugira de um circo e fora adotada pela vó. Uma história pra lá de estranha. Também diziam que não era de criação coisa nenhuma. Que o avô era muito do malandro. Histórias.

A tia. Grandona, gorda, sorridente, falando com sotaque caipira, cheia de bolinhos de fubá, de bolinhos de chuva, de pipoca, de carinhos. E logo acima do eterno sorriso, um enorme bigodão. Ah, a tia!

Vinte e tantos anos depois, num trabalho de detetive, voltei lá. Primeiro, descobrir a cidade, pequena, com o manicômio quase desativado. E perto da capital. Ué, não era longe pra caramba?

Depois a casa. Nem foi difícil. A rua era, efetivamente, bem inclinada. A mais inclinada da cidade. Uma ladeirinha.

A casa. Bonitinha, igual a tantas outras, pequena.

E a cama de dez metros? E o banheiro lá fora? Reformado, era dentro. O antigo? Foi demolido.
E o fogão de lenha? Menina! Muito trabalho! De um tempão pra cá é a gás.

E a tia?

Ah, a tia! Continuava lá. Mais cabelos brancos, uma bengala pra ajudar nas subidas, o sorrisão. E o bigode. Que nem era tão grande, afinal...

Certas coisas não mudam.

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setembro 26, 2006

péssima de briga

Não sou boa de briga. Nenhum tipo de briga, o que não quer dizer que não seja briguenta às vezes.

Estudei numa escola perdida no meio do mato. Não era no interior, não. Era no Brooklin, um bairro totalmente “central” hoje, perto de Congonhas, mas que na época era mato sim. Bote época nisso!

Daí que brigas de rua não eram poucas. E se rolava na terra. E se puxavam cabelos. E no limite, mas só no limite mesmo se declarava, nariz escorrendo sangue e orgulho ferido: “vou chamar meu irmão e você vai ver! “ .

Eu não podia chamar meu irmão. Quer dizer, até podia, mas ele, 13 anos mais velho que eu ia rir na minha cara. Então apenas uma vez me lembro de ter brigado tipo “rolar no chão”. E foi pra defender uma amiga. Apanhei. Quieta, voltei pra casa limpando meus sapatos na saia e de rabo entre as pernas.

Nas outras vezes em que me meti em briga foram brigas verbais. Gosto de palavras mas elas não costumam me vir certas na hora certa. É assim uma espécie de samba do dublador doido: quando me lembro das palavras certas, aquelas que deveria ter usado pra tapar a boca do oponente ele já vai longe, bem longe.

Tem vezes em que nem durmo direito à noite, dependendo da intensidade da discussão e da importância que o(a) oponente tiver pra mim, só pensando que deveria ter dito isso, brandido aquele argumento, jogado na cara aquela palavra, aquele fato, aquele dito espirituoso e sarcástico. Mas na hora nada vem à boca. Um retardo na dublagem. A boca abre e não sai nada.

Poderia usar o tom de voz como arma, se eu tivesse tom de voz. A única coisa que tenho relativamente audível é o assobio, mas nunca ouvi falar de ninguém brigar assobiando.

Então, acho que só me resta mesmo escrever. Talvez mandar cartas esbravejando quando me meter em brigas. Ou e-mails vociferativos. Mas daí o fenômeno é outro: quando eu ponho em palavras minha irritação, e leio o que escrevo, fica tudo tão ridículo e pequeno que é melhor desistir e parar de brigar.

Façamos amor, não a guerra.

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Peleando- Domingo Garcia Criado

setembro 25, 2006

castelos

Muita gente - a maioria, penso eu - usa as cartas do baralho pra jogar. Eu nem sempre.

Nos meus tempos de brincar debaixo da mesa da sala, eu usava as cartas do baralho que tínhamos pra fazer castelos. Não aqueles castelos enormes, cujo objetivo é a altura, sem que as cartas desabem. Mas castelos meio quadradões, com moradores, com histórias pra contar.

A dama de espadas sempre achei a mais linda. Era a moradora principal do castelo. Que era apaixonada pelo valete de ouros. Os reis sempre eram os pais ou tios, muito velhos pra despertar paixões. O vilão sempre era o valete de paus, uma cara de calhorda sem tamanho.

Já quando comecei a namorar e pensávamos em casar, as casas que a gente fazia eram de embalagem de pasta de dentes. Por causa do papelão, na grossura e no tamanho ideais pra fazer maquetes pequenas. A gente sonhava em comprar um terreno e construir. O que acabamos nunca realizando. Pelo menos até hoje. Muitas e muitas maquetes fizemos de embalagem de pasta de dente. Nossos sonhos Colgate.

Na praia eu também fiz castelos. Para os filhos pequenos. Assim que eles cresciam um bocadinho já faziam castelos bem melhores do que os meus, primitivos, mais um montinho de areia do que qualquer outra coisa. Houve um verão em que eles fizeram o Vale dos Reis. Com direito a pirâmides e tudo. E a esfinge, é claro! A partir daí eu nunca mais fiz castelos na areia. Humilhação total.

Hoje já não faço castelos. Nem de cartas, nem na areia, nem em cartolina.

Só em sonhos. Mas não são mais castelos-moradia. São castelos-desejos.
Que esses ninguém faz melhor que eu.

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setembro 20, 2006

música de amor

Andrea fala em canções de amor. Sugere que as pessoas digam as suas canções de amor. Pede dez. Tento lembrar de alguma e só duas ou três me vêm à cabeça. Serão estranhas como canções de amor, mas é isso que são em minha história.

A primeira é Suíte dos pescadores, do Caymmi. Não fala exatamente de amor mas da partida e, principalmente, do medo das mulheres dos pescadores de que a volta não se realize. A volta daqueles que vão pro mar buscar seu sustento em jangadas insustentáveis. E um dia tem sempre o Chicão que não volta. Ou o João. Ou o Pedro. Sempre tem a não volta.

Quando conheci meu amor era uma música que cantávamos, andando pela praia. Nem sei porque cantávamos. A letra era enorme e triste, mas nada nos deixava mais felizes. Noites e noites cantarolando com os pés na areia e o coração aos pulos.

Depois, muitos anos depois, as músicas de ninar. Para filhos que teimavam em ouvir histórias e não músicas. Mas havia sempre as músicas. As mesmas de geração em geração. Aquelas que a gente canta com a desculpa que são para os filhos mas acho que são mesmo é pra gente, praquela volta ao aconchego.

A última música é bem mais recente. Não é também “ de amor”. Se bem que tem sempre, é claro, o amor que a gente tem pelo Martinho da Vila e pela Clementina. É “batuque na cozinha”. Foi muito difícil o maridão decorar alguma letra de música. E pra tocar e ensaiar, não basta só ler partitura. Tem horas em que você está no carro, na fila do banco, enfim, tem horas em que não dá pra ter uma partitura nas mãos. Daí é lembrar de uma música e tocar. E cadê que ele lembra? Decoramos juntos essa letra. Sambinha muito bom pra pandeiro. Suave, macio, maneiro. Aguentei muito tempo maridão cantarolando essa música.

E foi só o amor, o enorme amor que eu tenho por ele, que me fez aguentar isso!

Então é isso aí. Música de amor pra mim é conjuntura. A música pode ser qualquer uma. A conjuntura é que a torna “ de amor”.

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setembro 18, 2006

boas maneiras

Fico atormentada com essas regras de etiqueta, ou boas maneiras. Tudo começou quando eu tinha uns sete anos e meu irmão voltou do Uruguai, onde ficara por cinco anos, fazendo faculdade. Era um ilustre desconhecido pra mim, pois cinco anos pra quem tem sete é quase toda a vida. E ele voltou cheio de regras. Eu não podia mais comer com a mão. Nem botar os cotovelos na mesa. Nem falar de boca cheia. Nem lamber o prato. Nem fazer barulho pra tomar sopa ou comer spaghetti. Nem um montão de coisas mais que eu fazia, porque em casa ninguém ligava muito pra isso.

Um dia eu fiquei tão, mas tão atarantada, que caí da cadeira e daquele dia em diante não comi mais nada quando ele estivesse à mesa. Comia antes ou depois, não junto.

Com os anos fui aprendendo algumas coisas, é claro. Posso dizer que sou uma pessoa razoavelmente bem educada nessas coisas. Nunca mais fiz barulho pra comer, não boto os cotovelos à mesa, uso guardanapo e não a toalha de mesa, mas outras coisas faço sim. Fazer o que? É quase inato, de tanto tempo que eu faço...

Eu lambo prato de : pudim de leite, manjar branco, molho de tomate feito em casa.

Eu não sei distinguir a diferença entre copo de água, copo de vinho e copo de refrigerante. Como eu quase nunca tomo água e jamais refrigerante, e vinho qualquer copo, em não sendo de plástico, serve, eu nem tento aprender.

Eu também não sei usar talher de peixe. Nem de lagosta. Mas como dizem que deus dá o frio conforme o cobertor eu não gosto de peixe e nunca comi lagosta.

Eu não dou gorgeta. É contra meus princípios. Acho que se o salário de alguém é uma desgraça, tem mais é que reclamar do salário. Não deve existir a “complementação gorgeta”. E dinheiro pra guardador de carro só em último caso. E bote último caso nisso.

Eu não sei esperar ser apresentada. Se estou em algum lugar e quero conhecer alguém, a chance de eu chegar na pessoa e perguntar “ você é quem?” é muito grande. E a chance de eu ficar com cara de besta, sem que a resposta me diga nada também é grande. Daí eu me afasto “ desculpe, confundi” com aquele sorriso amarelão...

E por aí vai. A grande vantagem que tenho descoberto nos últimos tempos é que com a idade as pessoas perdoam muito mais. Fica tudo na conta “daquela senhora maluca”. E a senhora maluca vai vivendo cada vez mais feliz, porque agora ninguém mais me enche o saco com o lugar onde boto meus cotovelos ou qualquer outra parte do meu corpo!

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setembro 14, 2006

alfinete de gravata

Já falei por aqui da vaidade do meu pai. Poucos conheci tão preocupados com a roupa quanto ele.

Não tinha dinheiro. Nunca teve. De moço, numa família de dez filhos (dezoito nascidos, dez vivos) não havia como ter dinheiro mesmo. Depois de casado a vida não foi muito melhor. O que nunca o impediu de exercer sua vaidade.

Ele era bonito. Pelo menos chamava alguma atenção quando moço. Usava um bigodinho “ a la Clark Gable”, ou seja, aquela coisa fininha e ridícula por sobre a boca. Lembro que tinha uma escovinha e um pente especial pra aparar o bigode. Uma vez pedi-lhe que tirasse, eu queria ver como ficava. Ele, vaidoso e adorando agradar à filha, tirou. Imediatamente pedi que pusesse de novo, como se fosse possível !A região esbranquiçada entre o nariz e a boca, acostumada a ser coberta pelo bigode, mais parecia uma bunda de nenê!

Na falta de dinheiro pra comprar ternos de linho ( como se usava), ele era usuário do “turco da prestação”, uma figurinha sui generis que aparecia por casa todo mês com uma mala enorme de couro de onde tirava ternos, camisas, gravatas, paletós. Deviam ser usados, acho eu, porque meu pai costumava ( e podia) comprá-los para ele mesmo e para meus irmãos.

E ele comprava. E quando as camisas puíam no colarinho, minha mãe virava o colarinho do avesso. E ela mesma lavava aquelas camisas e as engomava. Que era como ele gostava.

E ai dela se desse alguma roupa usada pra algum pedinte! Ele, que sempre foi uma pessoa extremamente generosa para presentear as outras, ficava uma onça se algum pertence dele, independente do estado, fosse doado pra alguém. Tinha o maior orgulho de olhar aquele guarda-roupa onde as roupas dele ocupavam a maior parte do espaço e aquela estante cheia de sapatos.

Meu pai não ligava tanto assim pra qualidade, ou então não podia pagar por ela.
Ele gostava mesmo era de quantidade.

Passava mais tempo se arrumando no espelho do que minha mãe. Fazia a barba com esmero, passava Aqua Velva depois e se houvesse algum creme para as mãos ou rosto ainda usava por cima. E punha nas mãos seu anel de ouro e na gravata, ah, na gravata!

Na gravata punha um alfinete de pérola que minha mãe odiava.

Havia sido presente de uma das inúmeras filiais que ele arranjava por aí.
Ele jurava pra minha mãe que não tinha mais nada com ela, aquela filial.

Mas o alfinete de gravata, de ouro e pérola, não tinha culpa de nada, não é?
E saía, todo pimpão, alongando pelas ruas o olhar pra toda mulher bonita que passasse.

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setembro 10, 2006

sequestro

Um dia meu pai falou pra minha mãe: arruma a menina que nós vamos passear. Minha mãe não gostava muito de passear com ele. Não aos sábados. Dizia que tinha muito trabalho, que só ela trabalhava, que ninguém ajudava e se ele não saísse de perto a ladainha era capaz de continuar por horas.

Ela arrumou a menina. Eu. O que tinha por baixo não lembro, mas o que tinha por cima era um casacão de lã cinza que pinicava pra caramba, abotoado na frente como um jaquetão da academia, com um redingote atrás, se é que alguém ainda lembra o que seja um redingote.

Mas lá no redingote atrás e nos seis botões da frente, a coisa mais linda ( e única bonita) do casaco: botões de farol de carro. Pelo menos era o que eu achava na época, com seis anos, daqueles botões de plástico multifacetado que brilhavam quando a luz incidia neles. Por eles eu aguentava calada a lã piniquenta me machucando a pele, alérgica desde cedo.

Fomos para o ponto de ônibus. Eu era pequena mas não boba. Logo percebi, apesar de mal saber ler, que aquele não era o ônibus costumeiro. Era uma cor estranha de ônibus. Dizia “vila qualquer coisa” .

Quando depois do que me pareceram horas chegamos, me vi num bairro pobre, numa rua de terra. Entramos numa casa pra mim desconhecida e meu pai falou: vai, abraça sua avó. Vai brincar com seus primos.

Eu nunca tinha visto aquela avó. Na realidade, vim a saber depois que sim, já tinha visto quando tinha uns dois anos no máximo. Mas a minha memória, apesar de boa, não chega a tanto. Então, aos seis, eu nunca tinha visto aquela avó.

Parecia uma índia. Bem morena, cabelos grisalhos lisos e enormes. Iguais ao da outra avó, a que morava conosco, só que os dessa eram só grisalhos, não brancos amarelados.

Lembro pouco disso tudo. Só o que ficou foi a enorme, a imensa bronca que minha mãe deu nele e a semana sem falar pelo sequestro que, dizia ela, ele tinha feito.

Minha mãe era rompida com a família do meu pai. E ele teve que armar uma mentira pra me levar lá.

Eu? Eu achei tudo ótimo. A casa era cheia de gatos, primos e uma avó que parecia índia dos filmes da sessão da tarde. Foi um bonito passeio.
De qualquer forma, meu pai nunca mais repetiu a dose. E não foi por falta de eu pedir!

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bill miller photo

setembro 6, 2006

arrazoado razoável

Sr. vendedor

Eu não te pedi ajuda. Tudo bem, um boa tarde não se nega a ninguém. Mas eu estou só olhando. Pesquisando preços. Cores e formatos. Não preciso de ajuda pra isso. Apesar de usar óculos desde a adolescência, enxergo bem com eles. Não distingo cores muito bem, mas isso você não sabe. E quer saber, não tem a menor importância. Porque o que estou fazendo é buscando um presente. Mesmo que o tom não seja exatamente o que eu penso que é, não costumo errar por muito. Troco um cinza por um marrom escuro, um verde por roxo, mas só nas cores escuras. E, como se diz, de noite todos os gatos são pardos. Ou todas as cores são escuras. Ou...bom, não tem importância mesmo.

Como você pode bem ver, já passei dos cinquenta. Tenho, portanto, muitos anos de janela e prática de fazer compras. De fazer escolhas. Tá certo, escolhi algumas coisas mal nesta vida. Não acertei na carreira escolhida, mas errei por pouco. Fiz psicologia, devia ter feito jornalismo ou letras. Mas é tudo ali, ó, bem próximo. Tudo diz respeito a palavras. Ditas, escritas, faladas. Não foi um erro tão grande assim.

O resto acertei. E o que eu não escolhi, a vida escolheu pra mim. E acertou!

Se os preços desta loja forem altos, eu vou embora. E não vai adiantar você insistir comigo. Porque eu sou assim: insistiu, dançou! Desde criancinha. Minha mãe dizia que eu era “do contra”. Eu sempre me defini como “temperamental”, o que é muito melhor. E é verdade, sim, muitas e muitas vezes o que eu quis foi contra a maré. Mas ser contra neste país, contra o estado, contra o status quo, contra a maioria, aquela do vox populi, vox dei, não é tão original assim. É sobrevivência. É saúde mental.

Então, sai do meu pé, por favor. Se eu decidir comprar algo aqui, vou te procurar. Com minhas próprias pernas. Por minha vontade, não pela sua. Porque apesar de saber que teu salário deve ser uma merreca, isso não justifica tua insistência.

O meu também é.

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setembro 3, 2006

sete casas

Minha primeira casa foi o colo da minha vó. Era lá meu esconderijo quando doiam minhas costas, meu orgulho ferido, minhas canelas machucadas. Um colo sempre coberto de flanela. Umas mãos tortas cheias de carinho.

Minha segunda casa foi na Lapa. Um sobradinho escuro, pequeno e feiozinho. Lembro pouco. Ele só era bom mesmo pelo entorno: uma vila cheia de crianças pra brincar e uma igreja ao lado que à noite se enchia de hinos e me acalentava.

Minha terceira casa foi no Brooklin. Num Brooklin cheio de ruas de terra e casas térreas. Sem Marginal, sem Berrini, com a construção do Palácio do Governo ainda em dúvida se seria uma faculdade ( dizia-se que da Matarazzo) ou qualquer outra coisa. Acabou virando qualquer outra coisa.

Minha quarta casa foi a mesa da sala da minha mãe. Era uma mesa grande, apoiada sobre uma espécie de cubo de madeira, que, ao ser coberto com uma velha colcha de casal, tornava-se a cabana do deserto de Agadir, o palácio do Aladim, a caverna do Robinson. Passei tardes e tardes lá, sozinha com livros, baralho, alguns leques e luvas da minha mãe, vivendo vidas paralelas. A minha era muito chata e triste, então.

Minha quinta casa foi depois que me casei. Na Vila Sônia. Uma casa no alto de um morro, com uma árvore enorme na frente. A casa era bem simples, pequena, mas foi a primeira nossa mesmo, apesar de alugada. Onde uma nova vida começou pra mim.

Minha sexta casa foi a algumas quadras desta em que hoje vivo. Alugada também. Quase igual na disposição das paredes. Lembro pouco dela. Fazia faculdade, ficava lá só a noite. Em férias, nós, sem filhos ainda, nunca parávamos lá. Viajamos o Brasil todo. Aquela, mais do que casa, foi quase um hotel, onde só ficávamos nos intervalos.

Minha sétima casa é esta. A primeira nossa. A única. Provavelmente a última.

Minhas sete casas.

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