gillette
Às vezes eu sinto saudade de gillette. Daquelas em uma caixinha de papelão com um tiozinho muito do antigo, de bigodes e cabelos ondulados repartidos ao meio na capa. Acho que vinham 3 por caixinha. Ou seis.
Eu usava muitíssimas, em minha vida escolar. De início, lá pelos seis ou sete anos, não tinha permissão pra usar. Tinha que usar apontador pra apontar os lápis. Mas aquelas porcarias de apontador só faziam quebrar a ponta dos lápis e diminuí-los a olhos vistos, pedaço por pedaço, na nossa frente.
Aí meu irmão botou um pedaço de esparadrapo numa das lâminas da gillette e me ensinou a usar. Toda uma técnica pra apontar sem deixar marcas no lápis. Depois de tudo, lixar o grafite numa lixa de unhas ou numa superfície rugosa qualquer. Depois disso feito em todos os lápis, ganhei também um estojo metálico pra guardá-los. Um estojo acho que da Faber, onde vinham canetas pretas de ponta finíssima.
Gillette também era muito usada pra tentativas de suicídio. Geralmente cortando os pulsos. Eita jeitinho ruim de morrer! Demorado, dolorido, exigindo do suicida um sangue (opa) frio daqueles pra ficar vendo aquele sangue todo escorrendo dos pulsos. Uma nojeira. Sempre achei que se fosse me matar algum dia me atiraria de um prédio de mais de 30 andares. Curto e grosso, além da emoção da queda livre, que sempre me fascinou. Mas nunca pretendi me matar. Melhor tentar asa delta. Pra queda livre, digo, não pra suicídio...
Voltando a gillette, eu a usava também pra cortar pedaços de fruta no recreio da escola. Tinha muitas amigas que não levavam lanche, era uma escola bem pobre, aí eu dividia a maçã ou banana com a gillette mesmo. A mesma em que apontava os lápis. E depois diz que só aquela esponja tem mil e uma utilidades!
E escrever nas árvores o nome do grande amor que já esqueci envolto em coração e flecha? Gillette.
E tirar cutícula na adolescência, quando a aula estava chata? Gillette.
E raspar a perna pra usar a primeira meia de nylon, achando que ninguém em casa iria notar e quase provocar uma comoção familiar ao sair?
Não sei se ainda existem gillettes como aquelas. Provavelmente. Mas com as utilidades que dávamos a elas no passado, duvido muito.
E afinal, será que mudaram o tiozinho da caixinha??

Comments
Eu, há uns dez anos atrás, ainda ia no mercadinho perto de casa comprar essas Gillettes que me meu avô usava pra fazer barba. Além disso de vez enquanto me deparava com uma na rabiola da pipa de um colega. Mas o que eu realmente gostava nas gillettes era de usá-las para cortar papel e isopor, mas acabava cortando mesmo eram as pontas dos dedos... :D
Ah! Quanto ao tio estampado na caixinha... coitado... já era!
Posted by: Capedonte | agosto 1, 2006 6:56 PM
gilette é um lance tao foda que virou substantivo
Posted by: andrea | agosto 2, 2006 5:51 AM
E - também - era usada para fazer a barba, Maray, com creme Bozzano espalhado pelo pincel de pelo de camelo... Para quem aprendeu a parar de se cortar o rosto com aquele aparelho primitivo de atarrachar a lâmina, hoje o sistema Mach é de fato um jatinho. Beijos bem barbeados.
Posted by: Ordisi | agosto 3, 2006 1:47 PM
Hola Maray! Te acordas de un aparatito de plástico, chatito, que se deslizaban dos piezas rectangulares y se metía dentro la gillete, y asi solo quedaba expuesto un triángulo de la gillete que servía para sacar punta sin cortarse?
Aca todavía existen las gilletes en su cajita tradicional de 3 envuelta cada una en un papelito blanco
cariños desde mvdeo
Posted by: Ana | agosto 4, 2006 12:33 PM
Olá, Maray, aqui estou novamente para ler seus deliciosos comentários sobre o cotidiano, que logo adquire transcendência quando descrito por você. Como faz falta um gilete em casa para apontar bem os lápis - acho que elas nem existem mais, e acabo usando o facão da cozinha mesmo. Mas não conhecia o truque de "burilar" a ponta na lixa de unha.
Posted by: Sonia | agosto 4, 2006 3:58 PM
Capedonte- (mudou de apelido, guri?) Aqui o pessoal usa cerol - vidro moído- nas rabiolas das pipas. Cerol ou gillette, é tudo uma grande sacanagem, né?
Ordisi- sabe que eu tinha uma verdadeira tara pelo cheiro da Bozzano?
Ana: no conozco ese aparatito a que te referís.Pero la gillette sera la misma, con certeza.
Sônia: melhorou finalmente da conjuntivite, né? Que bom! Agora essa de apontar lápis com facão de cozinha é coisa da tua terra... :)
Posted by: maray | agosto 4, 2006 5:43 PM
Ai, que delícia de post!
Eu tinha Gilette e também usava para apontar lápis. No dia em que ganhei um "estojo" de Gilette para raspar as pernas, foi a glória.
Sobre o suicídio, achei graça. Sabe que, dizem os entendidos, que leva entre 6 e 8 horas para alguém conseguir morrer cortando os pulsos? Idealmente, o doido tem que ficar com os pulsos imersos em uma banheira de água morna corrente, para não fechar os cortes.
Dizem ainda que mulheres preferem cortar os pulsos, ou tomar remédios e que homens preferem armas de fogo. As mulheres, ainda segundo os entendidos, se preservam de mortes que as desfigurem muito.
Eu, hein?
Beijos,
JU...
Posted by: Ju... | agosto 4, 2006 5:45 PM
Adorava gilete. Usava pra fazer guerra: encaixando o dedo médio no meio da gilete, bastava dar um peteleco que ela voava. National Kid contra os Incas Vesuvianos, mas ninguém queria ser Inca.
Prestobarba, pois sim!
Posted by: Allan | agosto 5, 2006 1:48 AM
Meu sogro ainda usa Gillete mas não onde ele encontra pq eu nunca mais vi.
Posted by: anunciação | agosto 6, 2006 8:04 PM
Fiz muita barba - por muito tempo, não é q minha barba seja muita - com gilete.
Apontei muito lápis também, mas sem a técnica do seu irmão, cortei muito o dedo.
Também tirava aquelas pranchas de sob os pés dos super-heróis de plástico pra q eles ficassem livres.
Abraços, blog interessante, o seu.
Posted by: Schüco Dourado | agosto 7, 2006 8:40 PM
Pois esse tiozinho da caixinha da gilette casou com a moça da caixinha dos palitos Gina. Eram o casal G&G :)
Posted by: Thales | agosto 8, 2006 1:54 PM
+ Em 1973 tirei minha vida com uma Gillette!
Posted by: Andy | novembro 19, 2006 12:51 AM