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agosto 31, 2006

língua morta

Um dia eu quis criar uma língua.

Pensei nas vogais, nas consoantes, no número delas pra compor cada palavra. Nas palavras mais usadas. No tamanho das palavras.

Depois fui criando símbolos pra cada letra.

No fundo, não criei coisa nenhuma. Apenas inventei formas alteradas da mesma coisa. Um A deixava de ser um A pra ser algo como um V cortado duas vezes ou algo assim. Nem eu sou uma pessoa criativa, nem as letras são tão diferentes entre si.

Daí passei a escrever daquele jeito. Sim, porque desde pequenininha gostava de escrever. Já gostava de escrever quando não entendia nada do que escrevia, naqueles cadernos de caligrafia onde minha mãe me ensinava o alfabeto e me botava pra copiar meu nome, o nome dela, o de meu pai.

Então criei essa língua. Eu tinha uns 8, 9 anos e já queria um pouco de privacidade naquilo que escrevia.

Nem sei porque digo já queria, uma vez que agora mesmo é que não quero, ou não estaria aqui.
Mas volto ou me perco irremediavelmente.

Criei a tal língua. Escrevi durante meses e meses nela.

Saí de férias.
Um mês na casa dos meus tios, na Brasilândia. Férias de pobre, só variava a casa.

Voltei.
Não lembrava mais do tal alfabeto.

Esquecera de botar em algum lugar a tradução dos símbolos.
Nunca mais descobri o que escrevera naqueles meses.

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agosto 29, 2006

o tunel acabou e não vejo luz nenhuma

Não sei dos outros brasileiros. Sou brasileira sim. Filha de brasileiros. Mas não tenho pelo meu país nenhum sentimento exacerbado de supremacia ou algo assim. É só mais um país. É um lugar bonito de gente agradável. Mas não é mais nem melhor do que nenhum outro. É diferente.

E dentro desse país não me sinto melhor nem pior do que qualquer outro brasileiro ou brasileira. E não consigo sentir raiva deste povo por suas escolhas políticas nem por alguma outra coisa. Porque olho pra dentro de mim mesma e vejo que o que sinto em relação a esse governo, no qual tantas esperanças depositei é mais decepção do que raiva. Não sinto nenhuma vontade de que outro pior ainda se instale no poder e torne as coisas piores do que já estão. Não acho que ninguém quando está na merda consiga pensar ou agir melhor do que quando não está.

Apesar de achar que votar nulo é uma forma de protesto, não consigo me sentir representada pelo nulo. Porque gostaria de algum projeto mais consistente. Além do protesto.

Quando pertenci a uma agrupamento de esquerda que defendia pegar em armas se necessário fosse, tampouco conseguia me sentir representada. Odiava os militares e o que faziam com as pessoas deste país e com este país de maneira geral. Mas não sentia que se matasse alguém estaria fazendo uma coisa muito melhor do que eles.

Adoro o diálogo. Mesmo quando ele não chega a um consenso. Porque sempre acho que discutindo se chega a uma etapa melhor em termos de consciência do que não discutindo. E gostaria de um governo que pelo menos dialogasse. E não roubasse. E não tratasse a coisa pública como coisa sua, particular. E não se sentisse tão superior, mas tão superior que não precisasse prestar contas a ninguém.

Vai ser difícil votar nestas eleições. Não quero o voto protesto. Não quero o voto do quanto pior melhor. Mas não posso votar nos mesmos sem que eles tenham feito sequer um mea culpa perante a população. Sem que eles tenham sequer sido punidos da forma que deveriam.

Estou num mato sem cachorro, como diria meu pai.
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agosto 26, 2006

papagaios e planetas

Num post aí debaixo sobre cachorros a Cris me pergunta sobre papagaios.

Sabe, Cris, tenho um sentimento estranho em relação a papagaios. Quase como o que eu sinto em relação a horóscopo. Eu sei – ou penso saber- que eles não têm condições de entenderem o que falam. Eles aprendem e usam em situações aprendidas. Puro condicionamento. Tal como os chimpanzés que “falam” com cartões. Mas já conheci alguns que, vou te contar, me impressionaram. Porque eles falavam o que falavam (e eu não vou repetir aqui porque isto é um blog permitido para todas as faixas etárias) em situações inusitadas em que o que era dito caía bem, muito bem!

Minha mãe tinha um primo italiano, desbocado e machista, além de taxista - o que não tem nada a ver, asseguro, antes que me achem preconceituosa e politicamente incorreta com a gloriosa classe dos taxistas- que se divertia ensinando o papagaio a falar mal da mulher dele.

Mulher esta que, pra mostrar que não tenho preconceito e sou corretíssima, digamos que era esteticamente “ampla”. Mais ou menos como as senhorinhas retratadas por Botero. Na realidade, mais.

Pois esse papagaio sabia quando elogiar e quando ironizar. Quando ele tinha fome tratava a Maria (o nome da mulher ampla) por benzinho e coisas assim. Traz café benzinho. Louro quer café! Quando estava de barriga cheia se divertia xingando : vai trabalhar, Maria gorda! Vai trabalhar!

Isso me impressionava. Morria de medo desse papagaio. Das suas bicadas e das suas tiradas. Sei que era aprendizagem pura mas...

Como horóscopo. Sei que não tem nenhum sentido os planetas e astros em geral interferirem na minha vida. Mas não custa dar uma olhadinha. Vai que..
Falando nisso...


Plutão não é mais planeta.

Passei anos de minha vida decorando certas coisas como a posição dos planetas. Nunca soube muito bem o miolo da fila mas sempre soube que Plutão era o último. Alguma coisa de astronomia a gente tem que saber neste mundo...
Agora Plutão não é mais.

Tudo bem, acho que consigo sobreviver. Ele nunca me fez muita falta mesmo, nem como planeta nem como seja lá o que for. Inclusive quando era bem pequenininha cheguei a pensar que Plutão fosse aquele cachorro simpático do Disney, numa versão grandona.

Agora que uma polêmica toda está criada, lá isso está. E como ficam os mapas astrais desta vida? E as influências do planeta na hora do teu nascimento? A que estarão condenados os regidos por Plutão?

A eterna auto-estima rebaixada? A virarem pó de traque, seja lá o que isso for - minha vó é que falava: acho lindo - ? A viverem um eterno inferno astral? A pedirem socorro aos nascidos sob a influência de Saturno, aquele grandão rico e cheio de anéis, alguma coisa de astronomia a gente tem que saber, como já disse ?

Uma questão e tanto.

Bobagem ficar discutindo como dar fim a guerra do oriente médio. Eleição, fome, roubalheira generalizada, tudo isso deverá ficar pra trás.
Plutão não é mais aquele!!

Meu mundo caiu, como diria a Maísa.
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agosto 24, 2006

coça e arde

Sou uma pessoa alérgica.
Não era antes. Não nasci assim.

E agora que sou não tem mais retorno.

Como um vício. Você pode até ficar uns tempos sem ele, parece que sarou, parece que não vai ter nunca mais nenhuma recaída, e aí, num belo dia, pumba!

Pior até do que vício. Porque vício é mais definido. Durante décadas fui viciada em cigarro. Mas era só cigarro. Não derivei pra nenhuma outra droga cheirável e aspirável. Alergia não. No começo é só com aquele talco específico. Depois atinge alguns shampoos, alguns cremes, vai pros perfumes e quando você vê, só de pensar em determinados cheiros, fica toda manchada, empipocada, emberebada, atormentada e mal-humorada, pra continuar nas rimas em ada.

Vou ao médico. Ele olha, interessado, e diz: que coisa! Pra fazer isso eu não gastava dinheiro algum. Mostrava pro meu marido que diz a mesma coisa.

Tenho hoje várias modalidades de manchas e coceiras. Suspeito de um certo perfume, mas como não sou fiel a perfumes, vou ter que testar um dos cinco ou seis que uso. Ou seja, delimitar uma área do corpo passível de emberebar e botar o perfume lá pra ver o que acontece. Científico, sim, mas ridículo. E dolorido.

Ou parar de usar perfume.

Mas não sei se aguento para mais coisas nesta vida. Já parei com frituras, carne, farinhas, queijos amarelos ( e verdes, e laranjas, e pintadinhos etc, etc) açúcares e mel, destilados, doces em geral, batatas, abacates e sei lá o que mais.

Se parar até com perfumes vou me sentir um monge tibetano. Ou um yeti, o abominável. Não era lá do Tibet também??

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agosto 21, 2006

cão é o bicho!

Às vezes penso se não é uma inversão. Moro numa rua pequena, com apenas três casas de cada lado. Moramos todos lá há décadas. E no entanto, eu sei o nome dos cachorros muito mais do que o das pessoas.

Tudo bem que os vizinhos, apesar de afáveis, não abanam o rabo quando eu chego nem encostam as caras no portão pedindo carinho. Mas seus cachorros sim. Devo ser uma pessoa popular no pequeno mundo canino da rua.

A cachorra do vizinho da direita, Zara, uma labradora marrom, chega a arrastar o dono quando me vê, vindo em minha direção.

A da casa em frente, Juma, uma mistura esquisita filha de mãe husky e pai pastor alemão, também está sempre alerta quando eu saio ou volto.

A do outro lado da rua é uma espécie de bisneta minha. É neta da minha falecida cachorra. Está velhíssima, meio cega, sem faro. É preciso chamá-la alto pra ela vir, cambaleante, até o portão. A Cacilda.

Só na outra esquina é que o bicho pega. Só existem gatos por lá. Eles até entram aqui em casa, pra escândalo das donas do pedaço daqui, a Mancha e a Peste, mas deles não sei o nome nem chego perto.

Meu amor animal é francamente seletivo. Tolero gatos. Suporto tartarugas (mal). Temo cavalos. Desprezo peixes de aquário. Aprendi a desenvolver um certo carinho por porquinhos da índia e ratos brancos.

Mas paixão mesmo, só cachorros. Se for viralata, então...

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Não é linda? Me acorda toda manhã na janela com uma folhinha na boca, de presente!

agosto 17, 2006

flor do lácio

Acabo de propor a um amigo um cruzamento. Não, não esse, que sou mulher séria. E ele também. Seríssimo. Mas nossa língua portuguesa tem dessas coisas. Com ele pretendia cruzar dados. Embora haja certo tipo de dados que a gente não cruza, joga.

Por exemplo, li hoje mesmo um artigo de jornal falando mais ou menos isso: que quando a gente não conhece as palavras, também não distingue as coisas. Havia uma tribo que não distinguia cores, não porque fossem daltônicos ou algo assim, mas porque não teriam as palavras pra nomear adequadamente cores diferentes.

Eu também não distingo amargo de azedo. As palavras eu tenho. Pelo menos acho que tenho. Mas não consigo determinar quem é quem. Sei muito bem que amargo é uma coisa e azedo é outra. Só não distingo, como dois amigos que tive no colegial, japoneses e gêmeos idênticos. Eu nunca soube quem era quem. O que não me atrapalhou muito, pois eles andavam sempre juntos e não havia tanta necessidade assim de distingui-los. Eu sempre me dei bem com os dois e considerava os dois meus amigos. O que era muito cínico e cômodo de minha parte.

Mas azedo e amargo são um problema. Se eu tivesse boa memória podia decorar quem é azedo e quem é amargo. Mas se não distingo, seria como meus amigos japoneses gêmeos.

Só sei que são dois conceitos e bem diferentes. Nomeá-los é outra coisa.

Esqueci de uma terceira palavra -ou será conceito? -ácido. A não ser os ácidos mais conhecidos, como ácido acético ou sulfúrico, não sei bem o que é ácido.

E não me venham argumentar que é aquele negócio que não é base, com PH maior que 7, acho eu, que isso não importa pra mim.

Quero mesmo é botar uma fruta na boca e poder dizer: é amarga, ácida ou azeda com conhecimento de causa.

Ou vou passar o resto da vida comendo banana, que não tem nada a ver com isso!

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agosto 15, 2006

Só quero 100

Dizem alguns que meu blog é um blog de memórias. De causos domésticos.

De fato, eu tenho boa memória pra coisas do passado mais remoto, coisas que me fizeram bem e também pra uma ou outra coisinha que não me fez bem nenhum, mas essas eu lembro por precaução. É sempre bom não esquecer as cagadas do passado pra evitar as diarréias do futuro.

Tá, isso não é muito profundo nem bonito, mas é isso que eu penso.

Mas coisas chatas eu tendo a esquecer.

Esqueci o que é ter colesterol nas alturas. Esqueci que triglicéride é, além de um palavrão, uma coisinha sem graça que pode me levar mais rápido daqui. E pressa é uma coisa que eu não tenho.

Faz só uns cinco anos do meu primeiro check-up, aquele que me disse que eu tenho essas coisas todas. E de uma dieta rigorosa. Daí, tempo vai, tempo vem, a memória vai tratando de botar pra debaixo do tapete pequenos detalhes e caindo de boca num paozinho aqui, num chocolatinho – que mal há de fazer – ali, num risoto al funghi acolá e catapimba! Tudo de novo.

Não tem aquele lance da história se repetir enquanto farsa? Ou da cagada se repetir enquanto diarréia ( de novo a imagem, ela me persegue..)?! Pois é.

Voltei de onde não deveria ter saído: comer sem açúcar, sem massa, sem gordura, sem graça nenhuma.

Meu último bastião, ao qual me agarro com unhas e dentes é o vinho tinto.
Esse eu posso.
Cabernet sauvignon.

Será que dá pra viver só de vinho tinto, ricota fresca e alface?

Se as tartarugas falassem diriam que sim. Sem o vinho.
Mas eu não quero 300 anos. Só 100.

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agosto 12, 2006

agosto a gosto

Sai de casa pra não ficar ali, semi-deitado, semi-morto, semi-vivo. Não sabe quanto tempo ainda tem. Mas chegara a agosto. Agosto chegara. A gosto? Não, isso não pode dizer. Não fora seu gosto o mal que o aflige há muitos meses, não fora desejado. Às vezes já desejara algum mal. Mas geralmente era mal para os outros e só muito raramente para si. Mesmo assim quando esse mal poderia trazer um bem maior. Seu maior bem, de preferência.

Mas taí, agosto e ele na rua. Um gato preto passa. Ele pára. Olha. Faz questão de olhar. Nada de pior poderia lhe acontecer.

Na altura quase da esquina, uma escada e um homem nela, pendurando fios elétricos no poste em frente. Hesita pouco. Passa por baixo. Nenhum mal pode advir dali.

Vai até a pracinha, senta num banco. Como quem procura acha- acha ele - procura e acha um trevo no gramado. Procura que procura, nenhum de 4 folhas. Azar! Ele nunca achou nenhum e quando no Ceasa tentaram lhe impingir aquele vaso, plantado e recheado com trevos de 4 folhas, ironizou: assim não vale.

A tarde vai terminando. O cansaço aumenta, vontade de deitar ali mesmo e ali ficar. Todo o tempo do mundo. O pouco que lhe resta.

Entretanto é agosto. E ele não é supersticioso, pensa. Só doente. Terminal. Como a tarde, pensa também, redundante.

Mas aí aquele cachorro se solta da correia, aos gritos do dono, e vem. E num arroubo de vida morde-lhe com paixão, mal sabe ele, compaixão. O pescoço, os braços, o rosto, as mãos, as costas.

Emfim agosto. O fim em agosto. Mes de cachorro louco, quase sorri.

agosto 5, 2006

estética dói

Eu odeio sofrimento. Meu filho odeia coisas feias. E isso tem tudo a ver.

Assim: eu nunca tive um jogo de jantar em toda minha vida. Nem quando casei, porque fui eu quem fez a lista de presentes, sabendo que a maioria esmagadora dos amigos e familiares não tinha grana sobrando e pedindo coisas mais do que básicas como panela de pressão, mangueira de jardim e balde para o tanque. E nunca me arrependi disso. Ah, e tábua de passar roupa também!

Mas não pedi aparelho de jantar. Nem de copos. Isso eu comprei no supermercado, daqueles duralex âmbar e quanto aos copos, esses vinham dos inúmeros requeijões que a gente comia. Sempre da mesma marca, pra fazer jogo igual...

Mas quando meu filho foi crescendo, foi crescendo nele também um apurado gosto estético e a revolta por meus apetrechos de cozinha. Menos mal, podia se revoltar comigo, mas ele foi mais civilizado: deu-me de presente um jogo com isso tudo, daqueles importados, chics, relativamente raros.

E o que aconteceu? Aconteceu que com o tempo, e com a gente lavando louça, sempre com pressa, os pratos e copos foram quebrando.

Até aí normal. Saí pra repor. Na loja, a vendedora, contrafeita: ah, aqueles? Não importamos mais.

Isso pra não falar no sofrimento meu, cada vez que quebrava alguma coisa!

Nunca sofri por quebrar um copo ou prato dos meus antigos. Nem ligava. Agora é assim: lavo louça com um carinho tal como se lavasse o primeiro filho na banheira, buscando preservar meus últimos três pratos.

Até porque, no próximo que quebrar, ou me divorcio ou boto minha filha pra fora de casa. Assim ficamos só dois aqui em casa...

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agosto 1, 2006

gillette

Às vezes eu sinto saudade de gillette. Daquelas em uma caixinha de papelão com um tiozinho muito do antigo, de bigodes e cabelos ondulados repartidos ao meio na capa. Acho que vinham 3 por caixinha. Ou seis.

Eu usava muitíssimas, em minha vida escolar. De início, lá pelos seis ou sete anos, não tinha permissão pra usar. Tinha que usar apontador pra apontar os lápis. Mas aquelas porcarias de apontador só faziam quebrar a ponta dos lápis e diminuí-los a olhos vistos, pedaço por pedaço, na nossa frente.

Aí meu irmão botou um pedaço de esparadrapo numa das lâminas da gillette e me ensinou a usar. Toda uma técnica pra apontar sem deixar marcas no lápis. Depois de tudo, lixar o grafite numa lixa de unhas ou numa superfície rugosa qualquer. Depois disso feito em todos os lápis, ganhei também um estojo metálico pra guardá-los. Um estojo acho que da Faber, onde vinham canetas pretas de ponta finíssima.

Gillette também era muito usada pra tentativas de suicídio. Geralmente cortando os pulsos. Eita jeitinho ruim de morrer! Demorado, dolorido, exigindo do suicida um sangue (opa) frio daqueles pra ficar vendo aquele sangue todo escorrendo dos pulsos. Uma nojeira. Sempre achei que se fosse me matar algum dia me atiraria de um prédio de mais de 30 andares. Curto e grosso, além da emoção da queda livre, que sempre me fascinou. Mas nunca pretendi me matar. Melhor tentar asa delta. Pra queda livre, digo, não pra suicídio...

Voltando a gillette, eu a usava também pra cortar pedaços de fruta no recreio da escola. Tinha muitas amigas que não levavam lanche, era uma escola bem pobre, aí eu dividia a maçã ou banana com a gillette mesmo. A mesma em que apontava os lápis. E depois diz que só aquela esponja tem mil e uma utilidades!

E escrever nas árvores o nome do grande amor que já esqueci envolto em coração e flecha? Gillette.

E tirar cutícula na adolescência, quando a aula estava chata? Gillette.

E raspar a perna pra usar a primeira meia de nylon, achando que ninguém em casa iria notar e quase provocar uma comoção familiar ao sair?

Não sei se ainda existem gillettes como aquelas. Provavelmente. Mas com as utilidades que dávamos a elas no passado, duvido muito.

E afinal, será que mudaram o tiozinho da caixinha??

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