sem drama
De tanto ouvir de minha mãe que a vida dela daria um romance, fiquei assim meio que descontente com a minha. Não dá romance nenhum. Desde que romance seja aquilo que minha mãe achava que era: um folhetim, cheio de aventuras, onde a mocinha se ferra sempre até o último capítulo.
Eu nunca me ferrei. E espero que o último capítulo tarde um bocado a chegar.
Eu nunca quebrei pedaço nenhum do corpo. Nunca me tiraram nem as amígdalas nem o apêndice. E retirada de dentes do siso não chega a fazer parte de um romance.
Eu namorei quase nada. Um só namorado. Um só marido. Aliás, ambos são a mesma pessoa. Nenhum amante.
Eu tive dois filhos ótimos, de parto absolutamente normal, os quais, com toda a normalidade do mundo, amamentei até os nove meses e mais não fiz porque eles adoravam me morder nessa fase.
Eu tive uma porção de cachorras. Todas dengosas, carentonas, incapazes de trazer a bola, mas peritas em lamber nossas caras.
Eu toco e danço, mas duvido muito que venha a me tornar uma celebridade digna de um romance nessas áreas. Talvez se um dia a situação degringolar e eu precisar fazer algum dinheiro numa praça, essas qualidades me sirvam pra alguma coisa. Hoje eu toco e danço. Dependo da melodia pra botar o ritmo e da música pra dançar o tango. Não há protagonismo aí.
Eu nunca tive um vilão à minha espreita nos cantos escuros da vida. Uma certa época eu achava que a matemática era um vilão e mais tarde abominei a fundação Carlos Chagas, que fazia os exames pré-vestibulares. Mas foi só. Eu entrei na faculdade e nunca mais precisei fazer uso de derivadas e binomiais.
Há uns tempos atrás dei entrada num hospital pela primeira vez na vida e me diagnosticaram dois bicos de papagaio e uma hernia de disco. Mas sobrevivi. E, de novo, não dá pra posar de vítima. Quem hoje em dia não tem problemas de coluna? Cadê a originalidade?
Eu não tive uma sogra megera, meus vizinhos são bem razoáveis, meus amigos são legais e até meu time, quando não está derivando pra segunda divisão, me dá alegrias. As últimas que me deu foram argentinas, na figura do Tevez, mas tá em casa. Terra do tango e chinchulines, a gente perdoa.
Então, vai ficar sempre essa sensação de que minha vida jamais dará um romance. Talvez, quem sabe, um comercial de margarina...

Comments
Já imagino até o letreiro do cinema:
"A Mulher Da Margarina"
:)
Posted by: Allan | julho 5, 2006 1:48 PM
Hola! Aca estoy tratando de vencer la barrera del idioma para poder leerte. Saludos desde Montevideo!
Posted by: ana | julho 5, 2006 3:52 PM
Talvez o enredo não seja nem policial nem terror, mas a atriz pode (e deve) ser ótima! Dá pra fazer um sitcom de sucesso, por que não? !Gente como a gente!
Posted by: Cláudio Costa | julho 5, 2006 4:07 PM
Allan: ou o "último tango em paris" (versão light):)
Ana: Gracias por tu visita! Amo tu tierra! Intenta me entender por Google translator o otro sistema de tradución. Hay algunos pela red!
Cláudio: temo que esta atriz aqui também não seja lá grandes coisas..quando finjo que estou fingindo acabo sempre sendo só eu mesma...
Posted by: maray | julho 5, 2006 5:39 PM
E a história da cadeira de balanço? E a do circo? E a da reforma da casa? E a das receitas do marido? A das suas incursões na cozinha? A da tese da filha?
Não são necessários tantos altos e baixos para se escrever um bom romance. O dia-a-dia fica encarregado dos dramas e das comédias.
Posted by: Ju Geve | julho 5, 2006 6:15 PM
Tenho uma amiga que diz que minha vida é puro heavy metal. Mas quando tentei escrever um romance autobiográfico empaquei. Não sei se sua vida daria um romance, mas que dá crônicas deliciosas, lá isso dá. Tudo está na arte de quem escreve.
Posted by: Sonia | julho 6, 2006 1:23 AM
Adorei o texto. É bom, muito bom, ver alguém "confessar" que é feliz e está de bem com a vida. Que assim seja até os 120, Maray. Se antes disso o Corínthians não acabar com o coração da gente. Beijo.
Posted by: Ordisi | julho 7, 2006 1:42 PM
Ser a mulher da margarina é o sonho da grande maioria de mulheres em torno do mundo. Romance é só para quem acha que dor é bom. Agora pode não ser grande coisa, mas quando voce for velhinha e deixar o mundo dormindo, vai saber que fez escolhas sensatas.
Posted by: pat | julho 9, 2006 8:21 PM