colcha de casamento
Minha avó fazia crochê como quem respira. Desde que suas mãos foram ficando curvadas, tortas e sem movimento nas articulações por conta de uma artrite deformante, ela se pôs a fazer crochê. No crochê a deformidade das mãos não atrapalhava nada. Minha avó tinha também uma grande corcunda nas costas e arrastava os pés ao caminhar. E fazia sopas excessivamente gordurosas. Com isso e por causa disso, foi deixando de andar, e foi por minha mãe impedida de continuar fazendo nosso jantar. Andava o mínimo no máximo de tempo. Passava os dias, a maior parte deles sentadinha com uma lata de linhas ao lado, fazendo crochê.
Quando morreu, nova ainda para os padrões de hoje, deixou uma colcha branca de crochê por fazer, a que ela chamava da “colcha do meu casamento”. Minha mãe até tentou que alguém a acabasse, mas não encontrou quem tivesse a mesma tensão do ponto que minha avó.
Casei, ganhei da minha mãe a colcha, ou o que seria um quinto dela.
Botei numa gaveta perdida. Tirei de lá quando nasceu meu primeiro filho e pus no berço dele. Serviu direitinho, mas sujava a toa e não tinha sentido nenhum botar uma colcha num berço que a toda hora estava ocupado por seu dono. Meu primeiro filho era um dorminhoco.
Botei de novo numa gaveta.
Na mesma gaveta em que guardo outra colcha branca de crochê, esta inteira, enorme. Foi feita pela tia do meu marido, uma senhorinha que nunca conheci, que morreu solteira e velhinha num casarão enorme perdido numa aldeia minúscula do sul da Itália.
Tenho muita pena de me desfazer dessas coisas. Vão ficando assim, de gaveta em gaveta, como múmias. Quando escrevo, a lembrança da minha avó é absolutamente nítida. Posso quase sentir a respiração dela aqui. Já a colcha está ficando amarelada, esmaecida.
Acho que está na hora de liberar gavetas.

Comments
Maray,
Não são múmias. São memórias. Não se livre delas, não. Deixe que alguém que não conhece a história o faça, quando você não estiver mais por aqui. E, enquanto isso, se é que já não o fez, assista "Como água para chocolate". Depois você me conta.
Beijo,
JU...
Posted by: Ju Geve | julho 7, 2006 7:26 PM
ai, que lindo, menina, que emocionante!
Posted by: andrea | julho 8, 2006 7:02 AM
O ser humano é um amontoado de fragmentos do proprio passado. E acreditamos que esses pequenos fragmentos guardados em gavetas um dia servirão para nos lembrar quem somos.
Posted by: Allan | julho 9, 2006 2:29 AM
Sei que nado contra a maré, mas não gosto de recordações "palpáveis". Gosto das que guardo na memória e com frequência boto no papel. Talvez pra transformá-las em palavras, que são gênero de primeira necessidade, artigo de luxo, paixão da minha vida. As outras: fotos, colchas, objetos, boto fora porque não acho que representem bem uma memória. São pedacinhos de um todo. Como entender o carnaval através da lantejoula. Embora tenha quem o faça com maestria. Eu não consigo.
Posted by: maray | julho 9, 2006 1:15 PM
Que lindo o que contas e que palabras axeitadas e doces empregas para as tenras lembranzas dunha avoa!!!.
Unha aperta.
:)
Posted by: Marinha de Allegue | julho 10, 2006 4:52 AM
Cara Che Caribe
Descobri agora o seu blogue e fiquei orgulhosa por ter escolhido "os meus pijamas" para ilustrar a ideia ternurenta do seu texto.
Um beijo da Graça
Posted by: Graça Martins | novembro 12, 2006 8:14 PM
gostaria de receber o gráfico da colcha de casamento.
Posted by: Delma Macedo barbosa | maio 11, 2007 1:13 PM
amiga yo soy de chile me encantaria recibir tu patron de esta linda colcha a crochet.
te agradeceria mucho
cariños,
mabel
Posted by: mabel | junho 3, 2007 2:05 AM
amiga,
Se eu fosse você nunca iria desfazer dessa lembrança que minha avó com tanto carinho, mesmo sendo condições , ela fez. Isto é para passar de pai para pai até a úçtima geração.Agradeça a Deus por ter tido a chance de ter alguém que deixou algo marivilhoso que é a arte de fazer artes com as próprias mãos.
beijos, cris.
Posted by: ana cristina | julho 7, 2007 8:26 PM
hola, llore con lo que acabo de leer, yo tambien aprendi con mi querida abuela materna a tejer crochet.
ella hoy no esta fisicamente conmigo, pero su recuerdo esta siempre vivo en mi corazon y en cada momento de mi vida.
mil gracias por revivirme momentos tan lindos de mi vida
Posted by: MARY | setembro 11, 2007 1:52 PM
também amo fazer croche, aprendi com minha mãe, com a minha avó, com minhas tias...
Não libere gavetas... um dia serão do seu filho, dos seus netos, bisnetos... e voce ainda respirará através dos fios podres que ficarão!! Minhas gavetas estão cheias!!! e minhas avós e bisavós, que nem cheguei a conhecer, passeiam pela minha casa...e eu as amo!!
bjos
Eunice
Posted by: eunice | agosto 20, 2008 2:30 PM