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julho 27, 2006

feng arroio chui

O mistério “piso molhado sabe deus porquê” daqui de casa continua. Hoje veio um técnico pra olhar a válvula do banheiro, única possibilidade (além de imaginar uma nascente dágua debaixo do chão) de água corrente podendo vazar perto do quarto. Nada consta, disse o tiozinho, burocrático.

Saiu de casa, depois de haver cobrado uma taxa de visita, sem ter feito nada. Quer dizer, deu-me um conselho: tira os tacos todos da casa e cimenta.
Cobrou 50 reais de visita. Nunca paguei tanto por conselho tão idiota.

Estamos quase optando por “fazer vista grossa”, ou seja, deixando tudo como está pra ver como é que fica.

Desenvolvemos a teoria de que pisos de madeira suam. E se ao suarem, encontram mantas térmicas e pisos laminados em cima, ficam lá, molhadinhos, arfantes, mofando de forma sexy.

Daí, é tirar realmente os tacos do quarto e cimentar antes de repor o piso laminado. E deixar o resto da casa suando de forma sexy e mofando por baixo do piso porque eu não tenho saúde pra tirar todos os móveis do lugar, ir morar no quintal e refazer o piso inteiro da casa. Se fosse há uns 20 anos atrás, quando eu era chegada numa aventura ridícula, ainda vá. Mas depois que passei dos 50 tenho tentado me dar ao respeito.

E assim termina a saga do piso, mas não da reforma. Embora o ditado popular diga que tempo é dinheiro, no nosso caso temos muito tempo e pouco dinheiro. Então a coisa vai assim: devagarinho.

E se nada disso der certo, posso abrir um buraco na sala e deixar a água minar, qual chafariz de feng shui. Posso até capitalizar e alugar o espaço pra meditação.
Ao fundo, som de congas e bongôs.
Tá bom, meditação com congas não dá. Alugo pra terreiro então.

Mãe Menininha das águas frouxas.

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julho 25, 2006

piso II - a revolta

Na minha época de cursinho, tive um professor de geografia holandês. Um cara de cabelo lindamente vermelho, sardento e cheio de sotaque.

Houve uma explicação que ele deu, não lembro em qual conjuntura, da qual eu nunca esqueci. Ele dizia que a Holanda é como se fosse uma enorme nata no leite, que só se mantém à superfície por conta da tensão superficial. Que se a gente puser o dedo ( a quem ocorreria botar o dedo na Holanda?) num canto, levanta o outro. Que se rasgar ou fizer um buraco grande, afunda tudo.

Fiquei preocupada com a Holanda, na época. Mas inviável ou não, elá tá lá até hoje e com uma qualidade de vida pra seu povo muito melhor que a nossa.

Tudo isso pra dizer que estou me sentindo hoje, em minha casa, como na Holanda. Não, não tenho (infelizmente) tulipas no jardim e nem diques no quintal. E apesar do meu cabelo vermelho, os únicos moinhos daqui de casa moem café e pimenta e olhe lá.

Mas com este super-hiper-mega vazamento misterioso no piso, que bota tudo preto e que não conseguimos definir um foco ou origem, estou me sentindo assim como se todo o chão da casa fosse uma enorme nata no leite, que só se mantém e a nós todos por conta da tensão superficial.

Isso pra não falar na minha tensão existencial, essa sim capaz de suportar a Holanda inteira nas costas mais todos os holandeses...

Agora estamos na dúvida quanto ao que fazer: fazemos furos por aí pra ver a extensão e a origem da coisa toda, correndo o risco de afundar tudo ou botamos novo piso em cima e esquecemos o que vimos?

Não tinha um presidente que dizia pra esquecermos o que ele havia escrito? E outro que não sabe de nada?
Exemplos não faltam.

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troca de piso

Uma operação de rotina. Prevista. Data marcada. Hora pra começar e hora pra terminar. Rotina pura.

Ao levantar da primeira tábua, forte cheiro de umidade. Ao levantar da última, destripado o chão, tudo preto.

Preto se tornou meu mundo, preto meu horizonte, preta a situação. Preta vai ser a nota que há de se pagar pra consertar tudo aquilo.

Se for descoberta a causa.

Como uma casa de esquina, no alto de um morro, de terra seca e arreganhada onde deveria ser úmida pra abrigar minhas plantas e árvores, como uma casa assim pode ter um vazamento de origem desconhecida, local ignorado e dimensões inimaginadas?

Murphy deu um golpe baixo desta vez.

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julho 20, 2006

enquanto o sono não vem

Dormir é não pensar. Dizem que meditar também. É difícil. Principalmente quando alguma coisa precisa ser resolvida e eu, na minha impaciência característica, quero a solução pra ontem. Daí é um tal de analisar coordenadas, conjuntura, possibilidades, tudo isso de madrugada, que não sobra lugar pro sono vir. E a insônia se diverte, me botando pra girar na cama de um lado e de outro.

Daí eu tento construir casas. Quase como castelos na areia, mas nem bem são castelos nem bem é na areia. É numa ilha. Meio afastado da beira do mar porque tenho medo da maré cheia derrubar minha casa.

Vou pegando ramos, galhos grossos, troncos que puder carregar, folhas de palmeira, cipós, tudo que possa servir de parede, de chão, de cobertura, e vou construindo minha casa na praia. Logo eu, que nem gosto de praia!
Dá tanto trabalho, mas tanto trabalho, cansa tanto, que eu sempre dormi antes de terminar.

É meu jeito de contar carneirinhos: construir casas na praia de uma ilha deserta. Tá bom, pode ter um cachorro ou dois.

Quando era garotinha, meu brinquedo preferido foi o “pequeno engenheiro”. Bloquinhos de madeira imitando paredes, arcos e telhados. E havia uma torre com um relógio também. Eu queria ter vários daqueles brinquedos pra construir cidades inteiras, mas só ganhei mesmo um. Dava pra construir pracinhas, com uma árvore de palito de fósforo e papel verde no meio e um lago de espelho. Chafariz era muito complicado.

Meus filhos curtiram o Lego, esse sim cheio de possibilidades. Ainda mais que eram dois e tinham bastante peças (dois filhos, não dois legos). Surgiam arranha-céus com elevadores, castelos de verdade, galpões, e máquinas. Tudo com “gente” em volta. Gente de playmobil, de falcons, susies e barbies. Mas gente, sem dúvida!

Eu não tinha essa possibilidade. Minhas “gentes” eram um cachorro de pelúcia muito curta (que eu cortei pra ver se crescia mais) e alguns bonecos de caroço de manga chupados e secos ao sol. Uns seres cabeludinhos muito do esquisitos...

Toda vez que algo me preocupa referente a minha família, sonho com casas. Casas abertas, casas fechadas, casas labirínticas. Na minha interpretação, com o passar do tempo e a recorrência desses sonhos, imagino que casas pra mim sejam sinônimos de família. Do emaranhado de galhos, troncos, cipós e folhas que ligam pessoas da mesma família. Às vezes as casas se arejam, surgem firmes. Às vezes oscilam, escurecem, anoitecem.

Mas construir casas é bom. Além de fazer dormir. É como construir famílias. Protege das intempéries da própria vida. Acho que é isso.

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julho 17, 2006

de blogs e pulgas

O que faz gostar de um blog? Eu começo pelo nome. Tem que me deixar com a pulga atrás da orelha. A pulga em qualquer outro lugar não serve. No cérebro, por exemplo. Aqueles blogs intelectualizados que fazem dos seus nomes um manifesto cultural, esses nem pensar.

Ou aqueles que parecem diretamente saídos de um livro de auto-ajuda, ou de um catecismo qualquer. Também não. Gosto de gente chegada num diabinho.

Existem alguns aos quais eu não cheguei. Chegaram aqui. Daí, como sou curiosa, fui lá ver e gostei.

Gosto da língua espanhola, embora conheça pouco. Falo mal, escrevo pior ainda, mas entendo e leio muito bem. Tudo começou com uma cunhada uruguaia que me apareceu em casa trazida de sopetão por meu irmão mais velho, eu com 8 anos, ela com 20. Ela precisando aprender português, eu adorando conversar. Depois continuou na faculdade, onde na falta de um inglês minimamente decente, sempre que foi possível optei pelos livros de edição espanhola ou argentina.

Vai daí, a busca por blogs de língua hispana não foi mero acaso. Tem também o tango, é claro. Sempre terá o tango!

Acabei conhecendo virtualmente lugares onde nunca imaginei fazer amigos e fiz! A Galícia. E Barcelona. E Madri. Enfim, a Espanha hoje pra mim está logo ali, virando a esquina. Tudo gente de casa.

Ao lado, Portugal. Onde me criticam a falta do “c” na língua. Um facto.

E a Argentina. E o Uruguai. E o Peru, quem diria, na figura de um jornalista. E a Itália, através de brasileiros. Embora eu mesma tenha cidadania italiana também. Mas se entendo razoavelmente e falo um quase nada, não consigo ser entendida por eles ao tentar escrever. Uma pena que meu portuliano seja tão inferior ao meu portunhol.

Em todos os blogs que visito e gosto uma constante: são bem humorados. Não são blogs de humor, especificamente. Alguns, bem pelo contrário. São até angustiados. Mas não se deixam levar pela lágrima fácil. Antes usam a ironia, o sarcasmo, a boutade. Uma forma de camuflar a tristeza bem mais atraente pra mim, pelo menos.

Muitos são de crônicas, meu vício permanente. Poucos de poesia e quando o são, fazem-no em layout de prosa. Menos mal.

Não são blogs. Não são virtuais. Não são bites nem bytes. São pessoas que eu gosto e que me fazem bem. E espero encontrar.

São pessoas que me deram novas perspectivas de mundo, de opiniões, de ideologia, até de sonhos novos. Hoje quero poder viajar pra muitos desses lugares pra conhecer de perto essas pessoas, essas paisagens e costumes que eles descrevem. E viajar sem medo. Sabendo que lá, nesses lugares, tenho um amigo ou amiga.

E você? Busca blogs como?

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Atrás da orelha, onde gosto de ter o bichinho...no sentido figurado.

julho 14, 2006

o lustre da sala

Nada de especial, mas eu gostei. Numa feirinha de antiguidades acabei encontrando um lustre antiguinho ( não antiguidade, antiguinho mesmo, ou seja, velho sem pedigree) creme, de vidro, que me encantou. Só que era baixo.

Isso mais o pé direito da minha casa que tá mais pra pé de gueixa, e o estrago estava feito. Agora em casa só entram meus amigos com menos de 1,80 ou os mais espertos. O que não deixa de ser um critério válido.

Muitos escolhem os amigos pelo caráter. Outros por afinidades. Outros por histórias em comum, antigos colegas de escola, antigos vizinhos. Eu, desde que comprei o tal lustre escolho por altura e esperteza. Eles e elas podem ser maiores de 1,80, mas daí terão que ser espertos pra desviar do centro da sala, em qualquer circunstância. Mesmo que o telefone toque freneticamente, mesmo que encontrem do outro lado da sala o Gandhi revivido ( o que depois de uns conhaques é bem possível), mesmo assim não poderão sair correndo atravessando a sala na diagonal.

Porque aí encontrarão O lustre. Que tem, em sua borda inferior, um arremate de bronze em forma de seta. Uma arma em potencial.

Nós, os da casa, já nos acostumamos. Eu, marido e filha nem precisamos nos preocupar. Filho e namorado da filha adquiriram o costume de andar com a cabeça de lado, quando chegam ao centro da sala. Dá até um certo charme, a la James Dean, o olhar pra baixo, a cabeça entortada.

Os outros, desviem.

Como nós, paulistanos, ultimamente, de balas perdidas. Há que se desviar, pero sem perder la compostura jamás!
Meu deus, só rindo mesmo, pra não chorar.

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julho 10, 2006

noites geladas

Tem feito um frio danado nessas últimas noites. É difícil entrar na cama fria e difícil sair dela quente, pela manhã.

Hoje já não sou tão friorenta. E durmo acompanhada, o que melhora muito o equilíbrio térmico/emocional.

Mas de criança era bem friorenta, sim. Fui uma menina muito magrinha (que saudades!) que tiritava a toa, a toa. Um belo dia lembro que meu pai me deu um pijama cor de rosa com abertura pra fazer xixi. Daqueles inteiriços, como um macacão.

Esta deve ser uma lembrança muito antiga, pois o que aconteceu foi que minha mãe vestiu o pijama em mim e recordo, meio vagamente, que fui acordá-la tarde da noite, chorando, porque não consegui fazer xixi com aquela abertura na frente, como ela equivocadamente tinha posto. A imagem que me vem é de estar tiritando, com frio, na porta do quarto dos meus pais, choramingando: mãe, como eu faço?

Gosto de pijamas. E de camisolas de flanela compridas. Isso de lingerie sexy no inverno não é comigo. Aliás, pensando bem, nem no verão. Não são práticas e aquela rendaiada toda me dá alergia e coceira.
Mas quando me casei tentei ser sexy. Comprei até um par de sapatinhos de cetim com pele em volta, de salto. Pra sair da cama me sentindo uma espécie de Doris Day. Rapidamente derivei pras hawayanas. E aquelas camisolinhas rendadas não aguentaram nem seis meses. Foi só o primeiro inverno chegar pra eu virar uma espécie de Garibaldo, o das meias listradas e cachecol.

Ultimamente meu marido diz que dorme com um brother, devido ao gorrinho de mano que eu uso de vez em quando. Mas como ele me diz isso usando um gorrinho de peruano com orelhas, eu nem ligo.

Ser sexy é bom mas ter as orelhas quentes é melhor...

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desenho de graça martins

julho 6, 2006

colcha de casamento

Minha avó fazia crochê como quem respira. Desde que suas mãos foram ficando curvadas, tortas e sem movimento nas articulações por conta de uma artrite deformante, ela se pôs a fazer crochê. No crochê a deformidade das mãos não atrapalhava nada. Minha avó tinha também uma grande corcunda nas costas e arrastava os pés ao caminhar. E fazia sopas excessivamente gordurosas. Com isso e por causa disso, foi deixando de andar, e foi por minha mãe impedida de continuar fazendo nosso jantar. Andava o mínimo no máximo de tempo. Passava os dias, a maior parte deles sentadinha com uma lata de linhas ao lado, fazendo crochê.
Quando morreu, nova ainda para os padrões de hoje, deixou uma colcha branca de crochê por fazer, a que ela chamava da “colcha do meu casamento”. Minha mãe até tentou que alguém a acabasse, mas não encontrou quem tivesse a mesma tensão do ponto que minha avó.

Casei, ganhei da minha mãe a colcha, ou o que seria um quinto dela.

Botei numa gaveta perdida. Tirei de lá quando nasceu meu primeiro filho e pus no berço dele. Serviu direitinho, mas sujava a toa e não tinha sentido nenhum botar uma colcha num berço que a toda hora estava ocupado por seu dono. Meu primeiro filho era um dorminhoco.
Botei de novo numa gaveta.

Na mesma gaveta em que guardo outra colcha branca de crochê, esta inteira, enorme. Foi feita pela tia do meu marido, uma senhorinha que nunca conheci, que morreu solteira e velhinha num casarão enorme perdido numa aldeia minúscula do sul da Itália.

Tenho muita pena de me desfazer dessas coisas. Vão ficando assim, de gaveta em gaveta, como múmias. Quando escrevo, a lembrança da minha avó é absolutamente nítida. Posso quase sentir a respiração dela aqui. Já a colcha está ficando amarelada, esmaecida.

Acho que está na hora de liberar gavetas.
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julho 4, 2006

sem drama

De tanto ouvir de minha mãe que a vida dela daria um romance, fiquei assim meio que descontente com a minha. Não dá romance nenhum. Desde que romance seja aquilo que minha mãe achava que era: um folhetim, cheio de aventuras, onde a mocinha se ferra sempre até o último capítulo.
Eu nunca me ferrei. E espero que o último capítulo tarde um bocado a chegar.

Eu nunca quebrei pedaço nenhum do corpo. Nunca me tiraram nem as amígdalas nem o apêndice. E retirada de dentes do siso não chega a fazer parte de um romance.

Eu namorei quase nada. Um só namorado. Um só marido. Aliás, ambos são a mesma pessoa. Nenhum amante.

Eu tive dois filhos ótimos, de parto absolutamente normal, os quais, com toda a normalidade do mundo, amamentei até os nove meses e mais não fiz porque eles adoravam me morder nessa fase.

Eu tive uma porção de cachorras. Todas dengosas, carentonas, incapazes de trazer a bola, mas peritas em lamber nossas caras.

Eu toco e danço, mas duvido muito que venha a me tornar uma celebridade digna de um romance nessas áreas. Talvez se um dia a situação degringolar e eu precisar fazer algum dinheiro numa praça, essas qualidades me sirvam pra alguma coisa. Hoje eu toco e danço. Dependo da melodia pra botar o ritmo e da música pra dançar o tango. Não há protagonismo aí.

Eu nunca tive um vilão à minha espreita nos cantos escuros da vida. Uma certa época eu achava que a matemática era um vilão e mais tarde abominei a fundação Carlos Chagas, que fazia os exames pré-vestibulares. Mas foi só. Eu entrei na faculdade e nunca mais precisei fazer uso de derivadas e binomiais.

Há uns tempos atrás dei entrada num hospital pela primeira vez na vida e me diagnosticaram dois bicos de papagaio e uma hernia de disco. Mas sobrevivi. E, de novo, não dá pra posar de vítima. Quem hoje em dia não tem problemas de coluna? Cadê a originalidade?

Eu não tive uma sogra megera, meus vizinhos são bem razoáveis, meus amigos são legais e até meu time, quando não está derivando pra segunda divisão, me dá alegrias. As últimas que me deu foram argentinas, na figura do Tevez, mas tá em casa. Terra do tango e chinchulines, a gente perdoa.

Então, vai ficar sempre essa sensação de que minha vida jamais dará um romance. Talvez, quem sabe, um comercial de margarina...

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julho 2, 2006

animalesco

O ser humano comete muitas asneiras. Não é o único, no reino animal. Mas é o único que justifica. E o faz abusando dos seus outros irmãos animais. Asneira. O que o asno tem a ver com nossos erros? Puro preconceito, tá vendo?

Vejam bem, ao entrar no metrô em horário de rush, pateando todo mundo, passando por cima dos outros, tantando passar 50 em largura onde só cabem 5, será sempre um cavalo.

E o que não dizer da anta que te fecha o carro no trânsito ou daquela lesma que não sai da esquerda ou mesmo do burro que entra na contra-mão?

É claro que há algumas piranhas muito da disputadas na zona mas ninguém admite isso. Tem também algumas galinhas e garanhões na noite, pra alegria do baladeiros. E veados, que a fauna é sempre variada.

Falando em noite, tem sempre aquele coelho, rapidinho como ele só. Ou a galinha poedeira, que emplaca todas. E a vaca leiteira, de considerável comissão de frente.

E na labuta diária? Se não fossem os burros de carga, os touros, que seria da produtividade? Embora escondidos pelos cantos dos gabinetes planaltinos sempre se achem muitos bichos-preguiça e bois de piranha. Alguém precisa pagar o pato na hora da onça beber água, né não?

Você engordou? Uma baleia! O outro lá cresceu demais da conta? Uma girafa.

Aquele ali anda devagar? Uma tartaruga.

O ser humano é esquisito. Só é animal na aula de biologia. Mesmo assim, “o único racional”. E, pombas! Pra que tem servido isso?

Um galo na vaidade, o ser humano só se iguala a deus, a quem construiu a sua imagem e semelhança. Ou terá sido o contrário?

E o mundo continua indo pro buraco. Mas não nos desesperemos. Nossas irmãs, as baratas, sobreviverão.
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