sequela banguela
Todo mundo sabia assobiar. Menos eu.
Meu irmão tentava ensinar: faz com a boca assim, solta o ar desse jeito. Eu era pequena mas isso não é desculpa. Outros menores do que eu assobiavam com maestria. Mas o que sou, desde pequena, é desajeitada. Punha a boca de todo jeito na frente do espelho, soprava, soprava, até ficar tonta e nada. Só cuspe, molhando o espelho.
Com o passar dos meses ou anos, sei lá, isso foi ficando uma constante. Quase uma mania, tentar assobiar.
Daí, um belo dia, cai meu dente da frente. Não, não era dente de leite, infelizmente. Era meu dentão predileto, aquele de ficar mordiscando rapadura e bolacha salgada, o dente de cortar bem devagarinho o queijo de ralar que eu roubava da minha mãe antes que ela usasse no macarrão de quinta ou domingo ( era só quinta e domingo, os dias do macarrão).
E ele não caiu sozinho, não. Foi numa corrida com o cachorro da vizinha que eu levei um olé e caí de boca no chão. Lá se foi o dente (o primeiro de uma série: perdi outros com o tempo...).
Enquanto a jaqueta ou pivô, não sei, não ficaram prontos, eu fui fazer o treino de assobio diário e oh, espanto dos espantos, consegui! Um forte, sonoro e agudo assobio!
Resumo da ópera bufa: eu assobio até hoje assim, de lado, formando o buraco não no meio mas no canto direito, no canto oposto ao tal dente, quer dizer, ao buraco que a queda do dente havia deixado.
Acho que tenho que agradecer ao cachorro da vizinha: adoro assobiar. Vou ficar uma velhinha cheia de rugas na boca, mas vou assobiar sempre. Na rua, em casa, teclando.
E de forma original, com o buraco fora de centro!!

Comments
Qué bonita palabra: ¡¡assobiar!! ("silbar" en castellano y "txistu egin" en euskera)
¡Me encanta!
Posted by: Mifune | junho 14, 2006 8:39 PM
No espnahol a gente diz: no hay mal que por bien no venga.
Eu tampoco sé assobiar.
Posted by: Sá | junho 15, 2006 6:53 PM
Que divertido, Maray.
Sempre me divirto aqui. É um prazer visitá-la.
Posted by: Ju Geve | junho 30, 2006 7:35 PM