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olhares e visões

Antigamente, há não muito tempo, eu olhava pra alguém e achava que via. Via um homem ou uma mulher, alegre ou triste, apressado ou não, distraído ou concentrado, enfim, via aquilo que o corpo diz. E o que eu pensava entender dessa linguagem. Gostava de olhar nos olhos das pessoas porque achava difícil (ainda acho) mentir com o olhar. Dá gosto olhar o brilho dos olhos, quase tanto quanto o sorriso. São lindas frases do corpo.

Hoje as coisas mudaram um pouco. Quando chego em casa ou alguém da família chega e vem vindo alguém pela rua eu espero. E olho. Desta vez com olhos de raios X. Estará armado? Vem bem intencionado? Está disfarçando ou só caminhando distraído? Isso porque todos aqui em casa já foram assaltados mais de uma vez.

No ônibus, quando entram invariavelmente aqueles vendedores do “desculpe incomodar a viagem de vocês, mas..” eu evito olhar nos olhos deles. Pode parecer que estou querendo alguma coisa e nunca quero. Ou melhor, quero, queria que isso não existisse, embora entenda a situação.

Há os mendigos também, os que pedem nas ruas e os que pedem nas portas. Não sei nunca como olhar. Não sei nunca o que vejo. Às vezes percebo que é uma história muito mal contada, a que eles contam pra arranjar alguma grana. Mas também penso que esta é uma forma muito penosa de se viver a vida, inventando histórias e se humilhando nas portas. E dou alguma coisa. Ou não. Geralmente prefiro dar comida ou alguma outra coisa e não dinheiro. Mas também me causa espécie a meninada que bate na porta e pede, especificamente, bolacha recheada. Serve comida, fruta? Não, a tia não tem bolacha recheada?

E tem os olhares dos homens que te esquadrinham (coisa que com a idade diminui, pro bem ou pro mal) e as mulheres que investigam. Investigam cor de cabelo, roupa, calçado. Olhares que esquadrinham não fazem bem. Fazem tropeçar, avermelhar, baixar os olhos atarantada.

Podia usar óculos escuros. Tanta gente usa! Nos enterros ( pra esconder o choro ou evitar olhar a morte), nas ruas, até em lugares escuros por natureza. Não gosto.

Enquanto conseguir olhar, vou continuar tentando ver.

magritte.jpg

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Comments

Faz alguns dias que não passo por aqui, e é tanta coisa nova que não vou comentar uma por uma. Basta dizer que você diz tudo de um jeito tão gostoso que a gente se sente mais leve.

Tu ves cosas hasta cuando no miras.
Gracias, Maray.

Olhos dizem o que vai na alma. Às vezes, isso pode deixar vc. irritada. Bjo.

É incrível essa questão do olhar, posso dizer que vivo ambos os lados do olhar: o da fascinação e o do medo. Mesmo se tratando de Floripa, e eu tendo apenas 21 anos, já fui assaltado e isso nos muda de uma forma muito feia. Contudo, sei que muitas vezes sou visto como o outro lado, o possível ladrão - pra isso basta eu usar minhas calças jeans, bone, um casaco mais largo e sair pelas ruas de meu bairro depois das oito da noite... ainda assim, não deixa de ser uma sensação interessante: provocar medo.

Aliás, Ótimooooo post!

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