asas da imaginação
Aqui perto, na esquina, existe uma casa. A esquina é daquelas em bico, confluência de duas ruas. O dono da casa ( nunca vi mulher por lá) gosta de plantas e árvores e folhagens. E foi plantando, nesses 30 anos em que ambos moramos por aqui. As plantas crescem. As folhagens crescem. A unha de gato no muro cresce. Só o dono, um homem mais ou menos da minha idade, não cresce. Ao contrário, como eu, envelhece e se apequena. Mas ele tenta domar o verde todo que toma conta da casa, do terreno, dos muros ao redor.
Há uns anos atrás ele se locomovia com carro. Aliás, com jeep. Se é que se pode chamar de jeep aqueles dois gurgéis que ele tem. Ou tinha. Hoje só um deles está lá, na garagem, desventrado e murcho. E coberto por verde.
Por que estou falando disso tudo? Porque não há um dia em que eu não passe lá (e é meu caminho diário até o ponto de ônibus) em que não imagine o conto da bela adormecida. O da garota que dorme e dorme e dorme, ferida pela roca (que nome!) e pela praga de madrinha mal vista. Praga de madrinha pega. E como pega! Ela dormiu e o castelo todo também.
Só nunca entendi porque o verde todo em volta não dormiu e continuou crescendo, até cobrir o castelo, as coisas, as pessoas.
Quando chega o verão e eu mal dou conta de manter minha grama aparada e as árvores podadas, sempre penso que se um dia o mundo acabar- de praga de madrinha ou de praga sintética, dessas de laboratório que também pegam que é uma beleza – o verde vai cobrir tudo rapidinho. Pelo menos no meu quintal e no quintal do meu vizinho.

Comments
Lembra da canção de roda (ou você não é do tempo em que se brincava de roda - acho que não) em que se cantava "o mato cresceu ao redor, ao redor, ao redor"?
Posted by: Sonia | junho 1, 2006 1:16 PM
Nesse caso, vamos torcer para que seja praga de madrinha e não praga sintética porque, se for sintética, é capaz de nem o verde sobreviver.
Beijos,
JU...
Posted by: Ju Geve | junho 1, 2006 4:47 PM
Sônia: é claro que eu brincava de roda. De "canoa virou", de "ciranda, cirandinha", de "Terezinha de Jesus de uma queda foi ao chão", mas essa não conheço não. você lembra a letra toda?
Ju:tem razão. Praga sintética é o apocalipse now!
Posted by: maray | junho 1, 2006 7:05 PM
Seus textos? Cada vez melhores, cada vez melhores.
(ah. Fiz uma brincadeirinha com você, lá no Ordisi).
Beijinhos.
Posted by: Santos Passos | junho 1, 2006 11:58 PM
Mitos urbanos. òtimas crônicas!!!
Posted by: Thiago Quintella | junho 2, 2006 1:15 PM
Prefiero las plagas de una madrina, ya que tenemos mas posibilidades de encontrar palabras mágicas que deshagan el entuerto. Tal y como va el mundo, serian necesrios mas señores como tu vecino. ¿Has mirado si mora algun duende?
Posted by: Sole | junho 3, 2006 3:50 PM
lembre-se: o verde é a cor da esperança. E um mundo verde nem chega a ser um mal.
Posted by: Allan | junho 4, 2006 12:07 PM
Oi, amiga, pelo que me lembro era assim. A roda cantava:
A linda rosa juvenil, juvenil juvenil. Vivia alegre a cantar, a cantar a cantar. Um dia veio a feiticeira má, muito má, muito má. E adormeceu a rosa assim, bem assim, bem assim. Aí entra alguém na roda (a feiticiera)e começa a passar a mão na cabeça da menina que representa Rosa. A roda continua cantando. E adormeceu a rosa assim, bem assim, bem assim. E o mato cresceu ao redor, ao redor, ao redor. Todas unem as mãos e se fecham em torno da rosa. A música continua. Um dia veio o belo rei, belo rei, belo rei. E despertou a rosa assim, bem assim, bem assim. Entra o príncipe, pega a Rosa pela mão e ambos rodopiam.
Posted by: Sonia | junho 5, 2006 1:10 AM
Sônia: que lindo! Uma história infantil musicada! Adorei mas não conhecia. a única música que conheço baseada em história infantil é aquela " era uma vez um lobo mau, que resolveu pegar alguém..estava sem vintém.." mas é de adulto interpretando. Um dia precisamos ( você poderia!) registrar isso em livro pra não se perder!
beijos
Posted by: maray | junho 5, 2006 1:51 PM