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junho 29, 2006

entrevista de emprego

Entrevista é um problema pra quem, apesar de não ser muito tímida como eu, é muito envergonhada. Tem uma puta diferença. O tímido não levanta os olhos, mal consegue balbuciar, não diz a que veio com tanto medo. Eu encaro tranquilamente, digo a que vim mesmo pra quem nem perguntou mas estremeço ante a possibilidade do interlocutor não gostar do que ouve. Tenho medo de não agradar.
Um problema ser entrevistada.

Mas houve uma entrevista que me lembro bem até hoje. Talvez por ter me causado mais do que ansiedade, perplexidade.

Eu era estudante de pré-vestibular e estava procurando emprego de auxiliar-de-qualquer-coisa, que me trouxesse algum dinheiro. Fui cair num advogado que procurava recepcionista. Queria segundo grau e datilografia.Explicando para o nosso século:datilografia é uma espécie de cromagnon da digitação. Fiquei ali, na sala de espera, vestida com meu melhor vestido de verão ( acho que único), sapatinhos limpos, unhas também. Daí vem um ajudante e me dá um texto pra ....copiar a mão.

Mas eu sei datilografia, moço. Posso provar!
Não, é pra copiar a mão.

Feito isso, o carinha pegou o papel e me mandou botar data de nascimento. Não quer meu currículo? Não, data de nascimento.

Poucos minutos eternos depois fui chamada pra entrevista com o advogado (bem famoso, por sinal).
Olhou-me de cima a baixo e foi logo dando .....um horóscopo! Elogiou pra caramba o fato de eu ser capricorniana, que pra secretária era ótimo, segundo ele, deu um monte de outras características da minha personalidade segundo minha letra, chegou até a falar do meu tom de pele, recém vinda da praia como estava, muito próximo de terra queimada ( sim, eu sou do tempo que nem filtro solar existia e a gente torrava ao sol). Um monte de coisas pra no fim dizer que meu signo não combinava com o dele e que teríamos atrito.

Eu só consegui olhar espantada e ouvir. Dizer o que?

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junho 26, 2006

olhares e visões

Antigamente, há não muito tempo, eu olhava pra alguém e achava que via. Via um homem ou uma mulher, alegre ou triste, apressado ou não, distraído ou concentrado, enfim, via aquilo que o corpo diz. E o que eu pensava entender dessa linguagem. Gostava de olhar nos olhos das pessoas porque achava difícil (ainda acho) mentir com o olhar. Dá gosto olhar o brilho dos olhos, quase tanto quanto o sorriso. São lindas frases do corpo.

Hoje as coisas mudaram um pouco. Quando chego em casa ou alguém da família chega e vem vindo alguém pela rua eu espero. E olho. Desta vez com olhos de raios X. Estará armado? Vem bem intencionado? Está disfarçando ou só caminhando distraído? Isso porque todos aqui em casa já foram assaltados mais de uma vez.

No ônibus, quando entram invariavelmente aqueles vendedores do “desculpe incomodar a viagem de vocês, mas..” eu evito olhar nos olhos deles. Pode parecer que estou querendo alguma coisa e nunca quero. Ou melhor, quero, queria que isso não existisse, embora entenda a situação.

Há os mendigos também, os que pedem nas ruas e os que pedem nas portas. Não sei nunca como olhar. Não sei nunca o que vejo. Às vezes percebo que é uma história muito mal contada, a que eles contam pra arranjar alguma grana. Mas também penso que esta é uma forma muito penosa de se viver a vida, inventando histórias e se humilhando nas portas. E dou alguma coisa. Ou não. Geralmente prefiro dar comida ou alguma outra coisa e não dinheiro. Mas também me causa espécie a meninada que bate na porta e pede, especificamente, bolacha recheada. Serve comida, fruta? Não, a tia não tem bolacha recheada?

E tem os olhares dos homens que te esquadrinham (coisa que com a idade diminui, pro bem ou pro mal) e as mulheres que investigam. Investigam cor de cabelo, roupa, calçado. Olhares que esquadrinham não fazem bem. Fazem tropeçar, avermelhar, baixar os olhos atarantada.

Podia usar óculos escuros. Tanta gente usa! Nos enterros ( pra esconder o choro ou evitar olhar a morte), nas ruas, até em lugares escuros por natureza. Não gosto.

Enquanto conseguir olhar, vou continuar tentando ver.

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junho 24, 2006

isso é veneno!

Tudo começou com a história da manga com leite. Segundo afirmação da minha mãe, manga com leite mata. Ou matava. Primeiro porque minha mãe já não está mais aqui pra dizer isso. Segundo porque eu testei e creiam, não mata! Testei com cinco anos, depois de esperar minha mãe dormir. Lembro até hoje, morri de medo mas fui até a cozinha e tomei leite depois comi manga. E sentei no sofá, na frente dela que dava uma cochilada depois do almoço. O tempo passou -uma eternidade pra uma criança quase suicida- e depois de uns cinco minutos eu acordei minha mãe e falei: não mata!! De lá pra cá foi toda uma vida de controvérsias entre nós mas isso é outra história.

Havia também as tais frutinhas-vermelhas-que-davam-no-mato. Morte rápida e fulminante. As frutinhas eram lindas, brilhantes, redondinhas. Essas eu não testei porque a massa crítica que afirmava com certeza que eram fatais era maior: minha mãe, avó, irmãos e a maioria das amiguinhas. Mas meu marido testou e está aqui do meu lado, meio cansado mas aparentemente vivinho da silva.

Já as amoras e framboesas do mato essas eu sabia que não matavam. Eu chegava ao cúmulo, num prenúncio da mulher organizada e quase compulsiva em que eu mais tarde me tornaria, de fazer saquinhos de papel com o nome das amiguinhas e nós saíamos em excursão pelos terrenos baldios da redondeza pra pegar as frutinhas. Cada um com seu saquinho devidamente etiquetado. Nascia ali uma vocação pra secretária chegada num arquivo. Vocação nunca devidamente explorada. No bom sentido, que no mau sentido foi, sim, explorada.

E as bananas. Ah, as bananas! Por que será que toda banana encontrada despencando dos muros dos outros está verde de doer? A gente comia, com a boca amarrada, mas fingia que estava boa. Afinal, pior que roubar é roubar e não poder carregar, não é o que se diz?

E goiabas. Essas eu não comia não, que em casa tinha goiabeira e eu sempre tinha overdose de goiabas e seus bichos sem precisar pegar dos outros. Até hoje, quando vejo goiaba no supermercado, não compro. Onde já se viu comprar fruta que dá no quintal?

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junho 22, 2006

semeando

Já tive livraria. Junto com outros 3 sócios fazíamos tudo, inclusive atender ao balcão e embalar. A pior parte. Nada mais estressante do que fazer pacote de presente pra quem, como eu, não consegue dobrar um papel sem franzir o próprio e o cenho também. Isso sem falar da língua de fora, mas ainda não chegamos nas baixarias.

Nada me fazia sentir mais deus do que quando alguém entrava e me pedia sugestões. Eu perguntava o de praxe: é homem ou mulher, tem interesse em que, qual o grau de relacionamento de quem dá com quem vai receber e só por último quanto pensa gastar. A não ser em poesia, que não sou muito chegada, eu tinha palpites pra tudo. E me sentia fazendo diferença, criando gostos, moldando caracteres. Porque pra mim os livros fizeram quase tudo isso.

Tinha alguma dúvida em casa? Ia aos livros. De sexo a comportamento, a maior parte do pouco que sei veio dos livros.

Vai viajar? Livros na bagagem.

Vai se internar no hospital? Livros.

Namorado deu um pé na bunda? Livros.

Está gorda e não quer pensar em comida? Livros.

Não suporta fila de banco? Livros.

E foi lá, quando tivemos aquela pequena livraria, que exerci essa teoria na prática. Nada me deixava mais feliz do que alguém retornar dizendo que gostara da sugestão e pedindo mais. Mais ou menos como deve se sentir quem deu a primeira bola de plástico a um garotinho chamado Ronaldo. O gaúcho, é claro.

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junho 20, 2006

de corujas e bolas

Já fui mascote. Nada a ver com bicho de estimação, embora um dos meus apelidos infantis fosse corujinha. Mas acho que coruja não é bicho de estimação de ninguém, a não ser do falcão...

Mas fui, aos 6 anos, mascote do time de volley do meu irmão. Era assim: eu ia a todos os jogos do campeonato do time dele (ganhou mais de uma vez o campeonato paulista) e aos jogos da seleção da época também. Meu irmão jogava volley muito bem. O irmão do meio. O mais velho era professor de educação física. E meu pai era viciado em futebol, embora jogador medíocre.

Já eu..um escândalo com bola. Na escola, quando a bola vinha em minha direção, no volley, no basquete ou handeball, eu punha as mãos na cara, defendendo os óculos e meus olhos, por trás deles. Um vexame. Só era boa mesmo é na queimada, que aí o jogo acabava e ninguém conseguia me queimar. Sempre fui boa pra caramba pra fugir da bola!

Por isso meu contato com bola nunca foi íntimo. Tá bom, sou corintiana, time que assumi num assomo de independência, rebeldia e protesto numa família de sãopaulinos de carteirinha. Procuro assistir pelo menos às finais de campeonato, quando ele chega lá. O que não tem sido uma constante.

E agora na copa estou um pouco nauseada de tanta torcida. Ainda se a seleção mostrasse a que veio, ou, melhor dizendo, a que foi...

Mas tenho achado uma delícia assistir aos jogos dos times africanos. Parece nós ontem. Correm, disputam, mostram uma garra incrível mesmo quando perdem. Até o minuto final.

A lástima é que imagino que, assim como nós, na medida em que forem despontando bons jogadores, vão sendo comprados por times europeus ou asiáticos e assim a história vai se repetindo.

Só espero que antes disso acontecer, eles (algum deles) consiga chegar lá e ganhar uma copa. Nem que seja pra variar.

Falar em variar, o Japão, quem diria, hem??

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junho 16, 2006

anjos de papel

Passa pela rua uma procissão de Corpus Christi. Um montão de gente cantando e rezando. Olho e não me mobilizo como antes. Esse antes é de uns 50 anos atrás. Eu era pequena e morava num bairro de classe média quase baixa, vamos chamar assim. Nenhum dos vizinhos tinha carro, nem telefone, nem televisão. A maioria nem casa. Alugava.

E eram católicos, embora eu nunca tenha conhecido um católico de verdade mesmo, desses que acreditam e sabem explicar no quê e por que acreditam. A não ser o padre que me casou, que dois anos depois largou a batina e casou-se também, que ninguém é de ferro...

Mas como dizia, antes as procissões de Corpus Christi eram uma festa. Eu adorava aquelas velas envoltas em papeizinhos pra não apagar e as crianças que iam na frente vestidas de anjo. O que eu não daria, quando menina, pra me vestir de anjo daquele jeito! Mas meus pais não eram católicos de ir na missa nem de acompanhar os modismos das procissões. Cansei de pedir a minha mãe pra me vestir de anjo mas ela sempre dizia que eu era capeta demais...

Hoje o pessoal passa cantando bem baixinho, e pasmei ao ver que no lugar das velas, muitos carregavam lanternas! Já não se fazem católicos como antigamente!

E as músicas, vamos combinar, deixam muito a desejar.

Ou então sou eu que já não me entusiasmo mais com procissões, manifestações, protestos, sejam eles religiosos, políticos ou esportivos.

O amadurecimento traz isso, não sei bem se como sequela ou aprendizado: o show precisa ser muito, mas muito bom mesmo pra entusiasmar...

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junho 14, 2006

sequela banguela

Todo mundo sabia assobiar. Menos eu.

Meu irmão tentava ensinar: faz com a boca assim, solta o ar desse jeito. Eu era pequena mas isso não é desculpa. Outros menores do que eu assobiavam com maestria. Mas o que sou, desde pequena, é desajeitada. Punha a boca de todo jeito na frente do espelho, soprava, soprava, até ficar tonta e nada. Só cuspe, molhando o espelho.

Com o passar dos meses ou anos, sei lá, isso foi ficando uma constante. Quase uma mania, tentar assobiar.

Daí, um belo dia, cai meu dente da frente. Não, não era dente de leite, infelizmente. Era meu dentão predileto, aquele de ficar mordiscando rapadura e bolacha salgada, o dente de cortar bem devagarinho o queijo de ralar que eu roubava da minha mãe antes que ela usasse no macarrão de quinta ou domingo ( era só quinta e domingo, os dias do macarrão).

E ele não caiu sozinho, não. Foi numa corrida com o cachorro da vizinha que eu levei um olé e caí de boca no chão. Lá se foi o dente (o primeiro de uma série: perdi outros com o tempo...).

Enquanto a jaqueta ou pivô, não sei, não ficaram prontos, eu fui fazer o treino de assobio diário e oh, espanto dos espantos, consegui! Um forte, sonoro e agudo assobio!

Resumo da ópera bufa: eu assobio até hoje assim, de lado, formando o buraco não no meio mas no canto direito, no canto oposto ao tal dente, quer dizer, ao buraco que a queda do dente havia deixado.

Acho que tenho que agradecer ao cachorro da vizinha: adoro assobiar. Vou ficar uma velhinha cheia de rugas na boca, mas vou assobiar sempre. Na rua, em casa, teclando.

E de forma original, com o buraco fora de centro!!

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junho 12, 2006

juninas

Junina I
Gosto muito de festa junina. De quentão, de fogueira mais que tudo, de pipoca caramelada. De milho verde e churrasquinho não gosto não.

E gosto que me enrosco de quadrilha. Não, não tô falando daquelas do planalto. Aquelas das festas juninas, do anarriê, do “olha a cobra” !

Durante anos eu improvisei no quesito fantasia. Pra mim e pro maridão. Aquela coisa de costurar uns remendos no jeans, pegar a camisa xadrês e desfiar um chapéu de palha. Mas um belo dia eu, procurando junto com minha filha um vestido na 25 de março, achei um de adulto! Foi a glória! Ela usou na quadrilha da faculdade – não, não aquelas das faculdades privadas deste país- e dançou desta vez “come il fault” seja lá o que come il faut de festa junina queira dizer...

Daí o vestido ficou lá no armário. Como temos mais ou menos o mesmo tamanho, servia em mim.
Oba! Ninguém me segura agora!

Sabe que parece praga de quadrilha? Sim, de quadrilha planaltina, desta vez . De lá pra cá, não pintou mais nenhuma festa junina com dança pra usar o vestido!


Junina II
Tive que ensinar a meus filhos que balão é perigoso e não pode soltar. E tive que calar pra eles as vezes em que ajudava minha tia Elisa a fazer, lá na rua de terra em que ela morava, na vila Ipojuca, aqueles balões que a rua inteira ajudava e ficavam lindos. Depois era só subir na Cerro Corá, lá no alto, em procissão com a garotada toda da rua e soltar lá de cima!

E, conforme o vento e a disposição, sair correndo atrás pro caso do balão começar a descer.

A vida politicamente correta é uma merda.


Junina III
Tenho um trauma com festas juninas. Fruto da falta de grana dos meus pais e da minha falta de garra. Sim, porque mesmo quando tive oportunidade e dinheiro pra comprar aqueles rojões maravilhosos, que a gente segura pro alto e parece que vão levar o braço junto na subida, nunca comprei nem tive coragem de soltar.

Mas quase choro de pura excitação quando vejo aqueles rojões barulhentos e coloridos nas festas.

E lembro que de criança chorava de raiva por só ter aquelas estrelinhas sem graça pra usar ou aqueles traques de jogar no chão..

Ter que jogar no chão o que eu queria atirar pro céu!!
Ô tristeza!

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de Maria Auxiliadora, ótima pintora e linda irmã do Sebastião e do Vicente

junho 9, 2006

ciudades hermanas

Montevidéo
Conheci Montevideo quando tinha 12 anos. Tive que me virar sozinha pra aprender a pedir helados no Cantegril da 21 de setiembre e churros no Parque Rodó. Aprendi rápido, que nunca comi nem antes nem depois melhores sorvetes ou churros. E fui voltando pra lá muitas e muitas vezes.

Passei lá quase um mês em lua de mel, fui mais vezes quando tive filhos, mostrando pra eles a alegria de andar de pedalinho no lago, de correr pelas calçadas vazias de Carrasco, de enfrentar o vento da rambla com cara de quem fez isso a vida inteira, tiritando nas roupas brasileiras inadequadas.

E ultimamente, nas idas a Buenos Aires, ainda dou um jeito de passar por lá. Tudo bem, não tem milongas em Montevidéo mas o candombe do carnaval ninguém tasca!

Montevidéo é melhor do que a sala do meu terapeuta. Me relaxa mais e me deixa mais feliz. E sempre está lá, quase igual, as mesmas ruas, os mesmos bares, os mesmos cafés. Um ou outro cinema deu lugar a esta praga das igrejas evangélicas, como aqui, e é uma lástima. Eram cinemas enormes. De resto, tudo igual. Montevidéo me faz respirar em paz..
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Buenos Aires
Por muito tempo não quis conhecer Buenos Aires. Estava ali, ao lado de Montevidéo, mas eu não tinha vontade de ir lá. Por conta do preconceito contra os argentinos da parte de brasileiros e uruguaios. Tanto me falavam que era igual a São Paulo que eu, nativa de Sampa, achava que não ia ver nada de novo. Só correria, gente apressada, meio mal-educada com estrangeiros. Como aqui.

Daí surgiu o tango na minha vida. O tango dança, porque o tango música desde criança me fascina, gosto incentivado pelo meu pai, que a vida inteira assobiou somente duas músicas: Corrientes, 348 e a música tema de Bat Masterson, um seriado antigo.

Aí fui finalmente, há alguns anos atrás. Tive que respirar fundo na Av. 9 de julho. Uma sensação boa, de respeito pela arquitetura européia preservada, de aconchego nas calçadas cheias de cafés, de simpatia pelo povo extrovertido.

Sim, eles tiram sarro de brasileiros também. Mas na boa.
Sim, os homens são cabeludos demais.
Sim, as mulheres são pintadas demais.
Sim, o tango é maravilhoso.

E a parrilla, de comer de joelhos. Mesmo pra uma vegetariana como eu. Que sente os olhos lacrimejarem só de lembrar dos chinchulines.

Tangueando no Unita ou me divertindo no Arranque, ou mesmo observando os casais do Ideal, Buenos Aires hoje não me deixa respirar em paz. Buenos Aires me faz arfar.
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junho 7, 2006

a copa vem aí

A copa vem aí. E agora? Finjo que entendo alguma coisa, boto um troço qualquer verde-amarelo e saio gritando?
Ou adoto um tom blasé e digo que futebol é coisa de bárbaros?

Mas eu gosto de futebol. Não, não tenho saco de assistir a um jogo inteiro. Só em finais do timão quando as chances de ganhar são quase cem por cento. Eu não resisto bem a perdas. Nem no futebol, nem em coisa nenhuma. Se puder evitar, evito.

Mas copa nesta terra, mercantilizada e marketizada, é muito pra cabeça. Por onde olho, bandeirinhas verde-amarelas nos carros. Não lembro de ter visto nenhuma quando das CPIs, dos escândalos que pululam muito mais que os gols do Ronaldinho. Tenho a impressão que o povo é como eu: não suporta perdas. Não consegue torcer praquilo que pode dar zebra. Reage de maneira infantil e temerosa às vicissitudes que a vida e o futebol também são capazes de proporcionar.

A gente quer é ganhar. Não deu com Lula? Vamos de Ronaldos.

A justiça tarda e falha pra caramba? Vamos de Parreira, que parece saber tudo.

Não surgiu neste país, com estes escândalos todos, nenhum candidato ou partido com um projeto alternativo, pequeno que fosse, mas minimamente articulado? Vamos de Zagalo, que parece ser um técnico infalível mesmo nos empates.

Os tucanos se entrechocam no ar e em terra, voando pena pra todo lado? O PT faz que a lama não é com ele? O Executivo culpa o legislativo, que culpa o judiciário, que não culpa ninguém a não ser que seja pobre ? Vamos de torcida brasuca.

E se o hexa não vier, sempre teremos o carnaval, né não?

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junho 5, 2006

mão de vaca

Lendo no Allan sobre presentes, lembrei de um certo jogo de lençóis. Foi assim: num Natal, muitos anos atrás, ganhei do meu pai um conjunto de lençóis de cama. Não gostei da estampa, mas não ia dizer isso a ele, claro. Elogiei, como se costuma fazer. Não deu outra: no Natal seguinte, por muita coincidência ou ironia do destino (e bote ironia nisso) ganhei dele de novo um conjunto de lençóis. A mesma estampa! Resultado, passei anos ( porque eles duraram muito) usando aqueles lençóis estampados horrorosos!

Alguém aí poderia dizer : e porque não trocou, deu pra alguém, passou pra frente? Esse alguém não me conhece. Em primeiro lugar, se é presente de alguém querido eu tento usar. Em segundo, eu estava mesmo precisando de lençóis, então pra que gastar dinheiro se eu ganhei?? Vaca pode abrir a mão algum dia, eu não!

Outra vez eu fui convidada para o casamento de um amigo do maridão, isso na época em que a gente era recém casados e ele ainda era maridinho...Mas eu não conhecia muito bem o rapaz ( a noiva não conhecia mesmo) e do pouco que conhecia, gostava menos ainda. Mas comprei o presente. Um jogo de caipirinha, bem bonito, por sinal. Daí, sei lá porque, no dia do casamento não pudemos ir. Como não era coisa formal e nem sabíamos onde ele morava, o presente deixou de ser entregue. Está lá, até hoje, em casa. Os copos já foram todos quebrados, tantos anos já se passaram. Mas a coqueteleira ainda está inteira. É meu único vaso de flor, que eu detesto flor morta. Só gosto de vaso com flor viva.

Não falei? Sou..digamos assim, uma mulher econômica e prática!

Isso sem falar que eu, ao contrário da maioria das mulheres, adoro ganhar coisa “ de casa”. Roupa, CDs e livros eu mesma compro, do meu gosto. Agora coisas pra casa não me incomodo de ganhar. Meu feminismo não fica arranhado nem fico achando que quem me dá presente “ de casa” quer me ver na cozinha. Até porque é melhor não me ver na cozinha, posso afirmar. A visão tem um quê de dantesco. Não a minha visão, mas da minha culinária. Mas coisas de cozinha, de casa, toalhas de mesa e banho e tudo o mais podem me dar de presente que eu gosto!

Viu filhotes? Não precisam ficar se matando pra descobrir o perfume que eu gosto. Deixa que disso eu cuido. Mas aqueles pratinhos simpáticos e tigelinhas e tupperwares novos serão sempre bem vindos. E lençóis sim, por que não? Desde que variem as estampas de ano pra ano....

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junho 1, 2006

asas da imaginação

Aqui perto, na esquina, existe uma casa. A esquina é daquelas em bico, confluência de duas ruas. O dono da casa ( nunca vi mulher por lá) gosta de plantas e árvores e folhagens. E foi plantando, nesses 30 anos em que ambos moramos por aqui. As plantas crescem. As folhagens crescem. A unha de gato no muro cresce. Só o dono, um homem mais ou menos da minha idade, não cresce. Ao contrário, como eu, envelhece e se apequena. Mas ele tenta domar o verde todo que toma conta da casa, do terreno, dos muros ao redor.

Há uns anos atrás ele se locomovia com carro. Aliás, com jeep. Se é que se pode chamar de jeep aqueles dois gurgéis que ele tem. Ou tinha. Hoje só um deles está lá, na garagem, desventrado e murcho. E coberto por verde.

Por que estou falando disso tudo? Porque não há um dia em que eu não passe lá (e é meu caminho diário até o ponto de ônibus) em que não imagine o conto da bela adormecida. O da garota que dorme e dorme e dorme, ferida pela roca (que nome!) e pela praga de madrinha mal vista. Praga de madrinha pega. E como pega! Ela dormiu e o castelo todo também.

Só nunca entendi porque o verde todo em volta não dormiu e continuou crescendo, até cobrir o castelo, as coisas, as pessoas.

Quando chega o verão e eu mal dou conta de manter minha grama aparada e as árvores podadas, sempre penso que se um dia o mundo acabar- de praga de madrinha ou de praga sintética, dessas de laboratório que também pegam que é uma beleza – o verde vai cobrir tudo rapidinho. Pelo menos no meu quintal e no quintal do meu vizinho.

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