vida loca
Costumo, para efeito didático somente, dividir o mundo em gente que me dá medo e gente que não dá. Didático pra mim mesma, que pros outros é meio complicado de explicar.
Gente que dá medo é aquela que não tem dó nem piedade de ninguém. Que tem a terra e todos os planetas girando a sua volta. Que fala muito difícil e abusa de citações. Que tem escrito na cara, nas roupas, nas unhas dos pés e no esmalte dos dentes a “fina estirpe”. Que não olha os outros à sua volta, mas sopesa, cheira e mede. Gente que traça caminhos retos e tem o olhar altivo.
Gente que não dá medo é gente com verruga. Gente com manchas de pele. Gente que ri com os olhos e torce as mãos. Gente que tropeça e fica vermelho. Gente que tem vergonha e gente sem-vergonha. Gente que tem pra com os outros mais do que olhares, abraços.
Às vezes eu gosto muito de um tipo de gente e não gosto de outro. Já há dias em que é bom ter medo.
Fellini não dá medo. Buñuel dá. Gosto dos dois.
Garcia Marquez não dá medo. Trevisan dá. Gosto dos dois.
Toulouse não dá medo. Picasso dá. Gosto dos dois.
Palloci não dava medo. Mantega dá. Não gosto de nenhum dos dois.
Pantera dá medo. Urso não dá. Não pretendo encontrar nenhum dos dois.
Raposa e lobo não dão medo. Mas não gosto.

Comments
Você não dá medo. E faz bem. Deve ser por isso que eu gosto.
Posted by: Ju Geve | maio 26, 2006 12:31 PM
Boa essa classificação! Sentir medo deve ser o primeiro mecanismo de defesa do ser vivo, não? Mas, como você mesma disse, às vezes algo pode dar medo hoje e amanhã, não. Como humanos, somos ambivalentes. E isso é bom.
Posted by: Cláudio Costa | maio 26, 2006 2:11 PM
Eu acho que sou da turma que não dá medo (com verrugas e tal...)
rs
abraços
=)
Posted by: Roberlan | maio 26, 2006 3:10 PM
Maray,
Como sempre, instigante este teu post. Me lembra-seria teu tempo?- a entrevista de Dina Sfat dizendo que tinha medo de certo general, em certa época. E, prá ficar na literatura: Dalton Trevisan dá arrepios, sempre. Mas o Garcia Marquez de O Amor em Tempos do Cólera, convenhamos, não te dá desarranjos? A mim amedronta. E também gosto dos dois.
Posted by: Luiz | maio 26, 2006 3:35 PM
Não vem que não tem, Maray.
Você não tem medo dessas coisas, não. Tá é fazendo docinho, pô!
Manda uma torta de maçã para mim e estamos conversados.
Bjo.
Posted by: Ordisi | maio 26, 2006 6:38 PM
Ju: sabe que às vezes eu queria dar medo? Mas não consigo. Como alguém que bota a língua de fora pra tocar e franze o nariz pra enxergar pode dar medo a alguém?
Cláudio: tem razão. É um jeito de se manter inteiro, sim.
Roberlan: alguém com senso de humor nunca dá medo. Humor e amor não são só uma rima!
Luiz: Dina Sfat é do meu tempo sim. E mesmo que não fosse, não conhecê-la seria uma falha de caráter. Garcia Marquez, mesmo quando fala dos generais tão iguais destas américas, fala com piedade. Lembra do "Ninguém escreve ao general?" Nem sempre eu consigo ser tão piedosa.
Posted by: maray | maio 26, 2006 6:38 PM
Ordisi: sou muito ruim de doces, Hélio.
Posted by: maray | maio 26, 2006 6:43 PM
Logo, o medo está conosco!
Posted by: Thiago Quintella | maio 27, 2006 1:28 PM
'...,mas sopesa, cheira e mede.' e não percebe seu peso nem se fede tb. Verdade, são os mais assustadores. Tenho medo de mim às vezes. abç
Posted by: gugala | maio 27, 2006 2:06 PM
Curioso: o meu termômetro para gostar ou não é o meu nariz. Quando gosto, dou um respiro profundo e me sinto à vontade. Quando não gosto, passo a ponta do indicador pela ponta do nariz e digo: Gostei não.
Posted by: Allan | maio 28, 2006 2:45 AM
bebe michelin:
http://www.o-escriba.com/ocio/images/piadas_a_vista/bebe_michelin_small.jpg
Posted by: gugala | maio 29, 2006 12:26 PM
Você não me faz medo, me faz sorrir, o melhor tipo de gente que há.
Posted by: Sonia | maio 29, 2006 3:59 PM
Fantástico este texto! Adorei mesmo! Gostei da definição de pessoas que amedrontam! Prefiro as que não dão medo, que olham nos olhos, são abraços e sorrisos, que tropeçam nas próprias pernas!
Saudade! Beijo
Posted by: Cristiane | maio 30, 2006 2:33 PM