melô da melanina
Viver é acumular marcas. Por dentro e por fora. As várias no queixo, de quedas frontais. Nos joelhos. Nas canelas. Como doem as marcas na canela!
Um dia levei minha mãe à dermatologista. Fazia muito tempo que não via minha mãe em roupa de baixo. Calcinha e soutien e uma pele mais alva que bebê. Sem manchas, sem pintas. Só uma grande, nas costas, em formato de cruz borrada. “A cruz que eu tenho que carregar”, segundo ela sempre dizia, olhando a todos em volta, numa alusão bem explícita de quem botara essa “cruz” nas costas dela. Gostava de reclamar, minha mãe. Como aquelas mulheres que passam a vida pedindo ao companheiro que reafirme seu amor a todo momento, minha mãe reclamava pra todos dizerem, veja bem, não é assim, a gente gosta de você, a gente achou a comida maravilhosa, você tem razão, como você é boa e sofredora, etc, etc.
Mas eu estava falando de pintas, manchas e peles. A mãe entrou aí porque domingo é dia delas e eu lembrei da minha, morta há tão pouco tempo.
Minha mãe nunca tomou sol, daqueles que a gente tomava aos 18 anos. Numa época em que não se usava protetor nem filtro. O que se usava era toda espécie de óleos bronzeadores, coca-cola, iodo, urucum, e o diabo que alguém indicasse pra torrar. Eu usei de um tudo. Desde o “rayito de sol”, pasta marrom de procedência duvidosamente argentina até óleo johnson misturado com iodo e coca-cola. Não, não bronzeava, mas queimava deixando uma casca dura como pergaminho de museu. Isso nos idos de 70. Porque hoje, 30 anos depois, pago o preço. Tenho de um tudo: sardas, manchas brancas (falta de melanina) e marrons (excesso de melanina) e outras no meio do caminho (melanina indecisa). Deve ter aumentado muito também minha probabilidade de vir a ter um câncer de pele. Por ironia do destino, quem teve câncer de pele foi minha mãe.
Achava-se (ainda se acha, neste país) lindo pele bronzeada. Mas que fique claro, só bronzeada. Os negros continuam sendo discriminados. Este é o país do bronzeamento artificial mas não da integração racial. É o país do “sol pra todos” mas não da distribuição de renda. É um país de contrastes, pra repetir o chavão. Como minhas manchas brancas e marrons.

Comments
rayito de sol!? putz era uma tinta, não precisava nem tomar sol.
Posted by: a. | maio 13, 2006 6:33 PM
nada mais lindo que uma pele muito branquinha.
Posted by: a. | maio 13, 2006 6:34 PM
Minha mãe, reclamava de tudo também. Inclusive se aparecíamos no aniversário dela. Um ano telefonei pra meus irmãos e disse. Quem sabe a gente dá muito trabalho, melhor a gente não ir. Assim foi feito.
E não é que no dia seguinte ela telefonou magoadíssima, tinha feito um lanche, a nossa torta de nozes preferida e tudo o mais, e ninguém tinha se dado ao trabalho de ir. Pergunto: alguém lá consegue entender as mães, inclusive esta que aqui fala?
Posted by: Anonymous | maio 14, 2006 2:04 AM
Cuando era adolescente también usé esa pasta inmunda con nombre inocente (Rayito de Sol, una marca de muñecas para nenas tiene el mismo nombre) y me freí al sol en aceite Johnson. Mayral, me gustaron especialmente la dulzura con que hablaste de tu mamá, y el reclamo final por la integración, conectado con lo demás. Yo no sé cómo hacés para que todo suene tan simple y hermoso. Un beso.
Posted by: Vero | maio 14, 2006 2:06 AM
Ih, eu também tenho isso tudo (as manchas, pintas e sardas) e usei isso tudo (óleo Johnson batido com folha de figo, inclusive). Sabe pra quê? Pra nada. Continuo branca como um bicho de goiaba. Só que manchada.
JU...
Posted by: Ju Geve | maio 16, 2006 4:49 PM
Está falando sério sobre o Rayito de Sol? Ele pode manchar a pele ou trazer sardas? Comecei a usá-lo para dar uma corzinha para sair a noite - só uso sábado à noite e ele deixa uma cor legal, bem parecido com o queimado de sol, dá uma bela disfarçada na minha amarelice e nas olheiras.
Olha, melhor comprar um desses bronzeadores sem sol. Em qualquer farmácia você acha. E tenha a certeza que assim, evitando o "bronzeado" vai evitar também as manchas senis, câncer de pele e sardas. Até bronzeamento artificial com lâmpadas também não é seguro.
maray
Posted by: lexicon | agosto 28, 2006 5:03 PM