calcinhas jurídicas
Não entendo nada de comércio. Tive um pai que por longos e longos anos dedicou-se ao comércio. Mas acho que ele também não entendia nada. Sempre foi pobre de marré, sempre empregado dos outros, sempre olhando o calendário como náufrago olha a ilha no horizonte. Depois chega na ilha e vê que é deserta e sem comida.
Meu pai via o fim do mês chegar, recebia aquela merreca e via que na semana seguinte já estava à deriva novamente.
Deve ser genético. Isso de comércio, penso eu. Porque eu ando a deriva, às vezes, mas por outros motivos.
Voltando. Fiz junto com a norinha uma excursão à Zepa. Uma forma carinhosa de chamar a José Paulino. Algumas coisas descobri: por exemplo, as coisas que vendem nas ruas laterais são muito mais bonitas. Tudo no atacado.
Por conta dos acontecimentos da última semana, as ruas estavam meio desertas. Ninguém estava vendendo quase nada, segundo relato das vendedoras. Então por que não nos vendiam no varejo? Eu não preciso de doze calcinhas, nem de doze blusas. Não preciso de doze nada, pra falar a verdade. Embora uma caixa de vinho italiano com doze fosse interessante. Mas não tem vinho italiano na Zepa.
Moça, não sou uma pessoa jurídica. Mal e mal sou uma pessoa física. Fisicamente cansada, por sinal. Mas se você me diz que não está vendendo nada, quem sabe vender pra mim as três calcinhas que escolhi fosse uma boa, né não? Eu pago em dinheiro, à vista. Não é melhor isso do que nada?
Não, não tenho CNPJ. Até já tive, mas dei com os burros nágua. E eu só quero algumas calcinhas, bem baratinhas, por sinal. Sabe, eu adoro calcinhas. Não posso, com a minha idade, sair por aí com camisetas de bichinhos ou anjinhos com flechas, mas minhas calcinhas ninguém vai reprimir. E eu adorei estas aqui.
Finalmente convencemos a vendedora. Assim: ela fazia de conta que ontem ( quinta-feira) era sábado, dia em que eles vendem a varejo e me vendia o que eu queria.
Não sei por que é melhor mentir que quinta feira é sábado do que dar a mim a oportunidade de me sentir uma pessoa jurídica, uma vez na vida.
Mas ela deve ter lá suas razões.
Eu, como já disse, não entendo nada de comércio.

Comments
Poix extár a começarr intenderr, pô!
:)
Beijo.
Posted by: Ordisi | maio 19, 2006 11:06 PM
Tudo ficção: quinta-feira não é sábado e pessoa jurídica não é pessoa. Espero que pelo menos as calcinhas sejam reais.
PS - Fiquei com vontade de ir comer no Mercado Central :)
Posted by: Allan | maio 20, 2006 6:27 AM
Ordisi: sabia que vc entende desse riscado...
Allan: não entendi bem a lembrança do mercado central...o link foi com a palavra "comer" e calcinhas ou com a geografia ( por sinal a Zepa é longe do mercado, quem é perto é a 25..) :)
Posted by: maray | maio 20, 2006 2:43 PM
O importante é que deu certo. Não importam os meios.
Posted by: Ju Geve | maio 22, 2006 7:46 PM