bate-volta
Antes de saber dançar eu queria saber dançar. Quando garota, havia uma vizinha duas casas depois da minha que dava bailes quase todos os sábados. Eram espanhóis. Havia a esposa, o marido: o “seu” Jaime, que por conta de um AVC não falava mas se manifestava muito bem.
Os espanhóis, como os italianos, falam com a voz e com o corpo. Então, na falta da voz, ele usava o resto com perícia. Vinha toda semana em casa pra meu pai comprar pra ele bilhetes de loteria. Acho que a família não gostava que ele fizesse isso e meu pai se tornou seu cúmplice. E ficava horas conversando com minha vó. Minha vó, italiana, usava a voz, que o corpo ela tinha muita dificuldade de mexer, com artrite. E seu Jaime usava o corpo. E batiam o maior papo.
Voltando aos bailes, havia mais duas filhas e um filho. A mais velha, Lolita, trabalhava dançando em alguma casa noturna. Tocava castanholas muito bem e dançava flamenco. Era “mal vista” pelas mães da redondeza, por conta disso. E era linda, é claro.
E eu gostava muito de ficar olhando aqueles bailes, aquelas cantorias. Olhava, olhava, prestando a maior atenção que podia aos pés, aos passos.
Não conseguia aprender. Tenho a maior dificuldade em olhar uma coisa e repetir. Jogos de armar, geometria, quebra-cabeças, são todos mistérios da pior espécie pra mim. Tendo a fazer, com o corpo, a imagem especular daquilo que vejo. E uma dificuldade razoável pra saber onde é a direita e a esquerda...
Foi preciso muito tempo, quase quarenta anos depois, pra eu finalmente ir fazer um curso de dança. E me apaixonar pela coisa.
E foi no tango que eu me realizei. Porque no tango não preciso saber fazer muita coisa, além de acompanhar o homem, que é quem comanda. Só saber sentir, seguir o passo, deixar tudo “molinho” pro homem guiar.
Ando tentando transmitir isso também pra vida. Não o lance do homem me guiar, que eu não abro mão do meu livre arbítrio, o bem mais precioso que tenho, por conta do qual não gosto nem de tomar remédios nem quaisquer drogas. Adoro meu livre arbítrio! Mas isso de “ficar molinha” e deixar a vida levar. A vida vem, dá o maior tranco, você finge que vai mas não vai, volta! Molinha.
No dia em que aprender isso sei que vou ser mais feliz. Ou, pelo menos, ter menos hematomas pelo corpo, nessas porradas que a vida dá.

Comments
Maray,
'Moleza", como dança, deve ser questão de prática. Tem gente que acaba aprendendo. Tem gente que não aprende nunca.
Beijo,
JU...
Posted by: Ju Geve | maio 3, 2006 6:01 PM
Ju:sabe que quando a gente amolece, dá até pra sentir o coração do outro batendo? Se na vida também a gente conseguisse isso...!
Posted by: maray | maio 3, 2006 7:34 PM
Sabe, Maray, comigo aconteceu o contrário. Eu era boa de dança, dançava instintivamente, bastava deixar entrar o ritmo, e pronto. Quando começou essa mania de "dança de salão", arrastaram-me para um curso desses. Quando tentaram me enquadrar numa coreografia, embaralhei os passos, perdi o ritmo, e foram precisos vários meses para que eu conseguisse dançar outra vez.
Posted by: Sonia | maio 4, 2006 1:17 AM
Um dia eu aprendo a dançar. Mas sei jogar capoeira. Serve?
Posted by: Allan | maio 5, 2006 12:57 AM
Um pracer descobrir a súa bitacora. Ainda que eu nao sei dançar... e temo que nao saberei nunca... em fin. Ha moitas cousas na vida.
Apertas
Posted by: Larvós | maio 5, 2006 1:29 PM
O mesmo acontece no judô. Quando você começa a treinar, você agarra no quimono de um faixa preta. Puxa. Ele vem. Empurra. Ele vai. Mole. Aí você tenta derrubar o cara. Quem cai é você. Durão.
Posted by: Santos Passos | maio 6, 2006 2:26 AM