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maio 25, 2006

vida loca

Costumo, para efeito didático somente, dividir o mundo em gente que me dá medo e gente que não dá. Didático pra mim mesma, que pros outros é meio complicado de explicar.

Gente que dá medo é aquela que não tem dó nem piedade de ninguém. Que tem a terra e todos os planetas girando a sua volta. Que fala muito difícil e abusa de citações. Que tem escrito na cara, nas roupas, nas unhas dos pés e no esmalte dos dentes a “fina estirpe”. Que não olha os outros à sua volta, mas sopesa, cheira e mede. Gente que traça caminhos retos e tem o olhar altivo.

Gente que não dá medo é gente com verruga. Gente com manchas de pele. Gente que ri com os olhos e torce as mãos. Gente que tropeça e fica vermelho. Gente que tem vergonha e gente sem-vergonha. Gente que tem pra com os outros mais do que olhares, abraços.

Às vezes eu gosto muito de um tipo de gente e não gosto de outro. Já há dias em que é bom ter medo.

Fellini não dá medo. Buñuel dá. Gosto dos dois.

Garcia Marquez não dá medo. Trevisan dá. Gosto dos dois.

Toulouse não dá medo. Picasso dá. Gosto dos dois.

Palloci não dava medo. Mantega dá. Não gosto de nenhum dos dois.

Pantera dá medo. Urso não dá. Não pretendo encontrar nenhum dos dois.

Raposa e lobo não dão medo. Mas não gosto.

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maio 23, 2006

intelectual

Durante boa parte da minha vida sonhei ser intelectual. Achava chic pra caramba ser intelectual. Intelectual não envelhece, intelectual não se preocupa com moda e modismos, intelectual tem sempre o que falar, intelectual é original e criativo, intelectual quando lê alguma coisa, já vai logo formulando teorias e sempre tem uma opinião a respeito de tudo. Intelectual não diz “não sei”. No máximo “ tenho alguma dúvida a respeito”.

Li muito e ainda leio. Fiz universidade, tive militância política, leio desde criancinha religiosamente jornal todos os dias, (talvez a única coisa religiosa que faça), quase de cabo a rabo ( a parte de finanças não dá pra encarar), tenho razoáveis rudimentos de música, desenho, pintura.

E no entanto, quando me ponho a escrever, aquilo que flui, que sai do teclado quase como se psico-digitado fosse, uma vez que raramente corrijo, é sempre sobre coisas triviais. As minhas coisas triviais.

Não consigo filosofar, intelectualizar, perorar, tergiversar, argumentar, racionalizar, essas coisas todas que um bom intelectual faz como quem mija a cerveja do churrasco. Aliás, intelectual que se preze jamais usaria essa imagem, mas foi a que me veio.

Por outro lado, não tenho obrigação de traçar prognósticos sobre a conjuntura nem levantar hipóteses sobre a falência do sistema de segurança.

Pensando bem, ser intelectual nos dias de hoje deve dar uma tremenda dor de barriga, né não?

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maio 20, 2006

duas cadeiras

Não sou mulher de competir. Nem mesmo comigo. Mas às vezes me aparece um desafio. Quando são outras pessoas que me desafiam, deixo barato. Tenho o meu ritmo, meu jeitão de fazer as coisas e fico muito aflita quando me são impostos prazos e condições. Mas tem vezes em que, mesmo sem querer, me percebo perseguindo um objetivo de forma relativamente compulsiva.

Nestas últimas semanas tem sido assim. Uma cadeira me desafiou. Uma não, na realidade foram duas.

A casa da gente, a minha pelo menos, quando casei, tinha muitos poucos móveis. Uma mesa pequena, dois bancos em que, apertando, cabiam duas pessoas. Parecia a história da menina que se perde na floresta e encontra a casa dos ursinhos. Com três cadeiras, três pratos, três camas...Quando casei tinha isso mesmo: uns quatro pratos, uns quatro garfos, poucas panelas. Eu não tinha pedido nada disso de presente porque queria comprar essas coisas do nosso gosto. Resultado: passamos meses e meses comendo em tigelinhas improvisadas, quando o almoço tinha mais de dois pratos!

Com o tempo, muito tempo depois, apareceram meus dois filhos e amigos. Daí a casa teve que aumentar os móveis. Passei a ter mais pratos, mais panelas, e de dois bancos passei a ter uma mesa maior e 4 cadeiras. Nunca quis ter mais do que 4 porque a cozinha nunca foi muito grande. Resultado: cada vez que vem visita, misturo na mesa as cadeiras dos micros, dos quartos, a banqueta das congas, tudo que der pra sentar.

Agora cansei. Quero ter mais cadeiras. Não muitas. Apenas duas a mais, formando seis, que é um bom número pra receber. Mais que isso fica muvuca e eu detesto muvuca.
Cadê que encontro cadeiras iguais às que já tenho há trocentos anos?

A coisa está se tornando um desafio. Um tormento. Uma busca incessante. Só não digo uma obsessão porque não sou mulher de obsessões. Ainda. Mas no andar da carruagem, é capaz que eu chegue lá!

Já fui a todas as lojas de móveis da Teodoro, à Tok Stok, aos Peg fácil da vida, a brechós, estive hoje no Samburá (bazar do Lar Escola São Francisco) e pretendo ir ao Exército da Salvação. Já encontrei um restaurante que tem as malditas cadeiras, iguaizinhas às minhas. Perguntei onde o cara comprou mas foi há tanto tempo que ele não lembra mais. Fiquei com vergonha de pedir pra comprar duas cadeiras dele, mas um pouco mais minha vergonha vai pro saco e eu volto lá.

Onde eu posso achar cadeiras vulgares de madeira, sem nada de antiguidade, que todo mundo tinha há quinze, vinte anos atrás? Onde?

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Não desenho bem, mas a cadeira é mais ou menos assim. As cadeiras, que são duas!

maio 19, 2006

calcinhas jurídicas

Não entendo nada de comércio. Tive um pai que por longos e longos anos dedicou-se ao comércio. Mas acho que ele também não entendia nada. Sempre foi pobre de marré, sempre empregado dos outros, sempre olhando o calendário como náufrago olha a ilha no horizonte. Depois chega na ilha e vê que é deserta e sem comida.
Meu pai via o fim do mês chegar, recebia aquela merreca e via que na semana seguinte já estava à deriva novamente.

Deve ser genético. Isso de comércio, penso eu. Porque eu ando a deriva, às vezes, mas por outros motivos.

Voltando. Fiz junto com a norinha uma excursão à Zepa. Uma forma carinhosa de chamar a José Paulino. Algumas coisas descobri: por exemplo, as coisas que vendem nas ruas laterais são muito mais bonitas. Tudo no atacado.
Por conta dos acontecimentos da última semana, as ruas estavam meio desertas. Ninguém estava vendendo quase nada, segundo relato das vendedoras. Então por que não nos vendiam no varejo? Eu não preciso de doze calcinhas, nem de doze blusas. Não preciso de doze nada, pra falar a verdade. Embora uma caixa de vinho italiano com doze fosse interessante. Mas não tem vinho italiano na Zepa.

Moça, não sou uma pessoa jurídica. Mal e mal sou uma pessoa física. Fisicamente cansada, por sinal. Mas se você me diz que não está vendendo nada, quem sabe vender pra mim as três calcinhas que escolhi fosse uma boa, né não? Eu pago em dinheiro, à vista. Não é melhor isso do que nada?

Não, não tenho CNPJ. Até já tive, mas dei com os burros nágua. E eu só quero algumas calcinhas, bem baratinhas, por sinal. Sabe, eu adoro calcinhas. Não posso, com a minha idade, sair por aí com camisetas de bichinhos ou anjinhos com flechas, mas minhas calcinhas ninguém vai reprimir. E eu adorei estas aqui.

Finalmente convencemos a vendedora. Assim: ela fazia de conta que ontem ( quinta-feira) era sábado, dia em que eles vendem a varejo e me vendia o que eu queria.

Não sei por que é melhor mentir que quinta feira é sábado do que dar a mim a oportunidade de me sentir uma pessoa jurídica, uma vez na vida.

Mas ela deve ter lá suas razões.
Eu, como já disse, não entendo nada de comércio.

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maio 15, 2006

pitadas de ecologia

Se animais- preferencialmente cachorros- são tratados por mim quase como filhos, com plantas não sinto a mesma coisa. Plantas, grama, verde em geral sempre foram pra mim cenário e nada mais.

Passei a infância numa casa com grande quintal, com parreiras, mamoeiros, goiabeira, ameixeira, pitangueira, os que ainda lembro. E uma mãe e uma avó que gostavam muito de cuidar de plantas. Lembro mesmo que minha mãe não podia ver uma lata usada, de óleo, banha ou cera, que não fizesse furos embaixo e plantasse nelas alguma coisa. Eu só olhava. E usufruía das frutas quando era época.

Depois cresci, morei em algumas outras casas. Poucas. Não passaram de umas 3 ou 4. Aos poucos fui cuidando da grama, quer dizer, cortando, tirando um matinho de vez em quando.

Aos poucos fui vendo que as plantas gostam de água. Reagem bem quando regadas.

Hoje não posso dizer que me equipare às mulheres da família, mas aprendi que se cuidar um pouquinho, podar nos lugares e horas certas, lembrar ao menos uma vez por semana de dar água, as plantas reagem quase como minhas cachorras: agradecem, crescendo saudáveis e bonitas.

Tá bom, ainda não abanam o rabo nem me pulam ao colo, mas quem sabe com um bom fertilizante...

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Milho é uma coisa incrível!
Não, não digo isso porque goste de curau, pamonha de Piracicaba ou milho verde da esquina, condimentado com poluição, água suja e sal grosso. Digo isso porque milho é ultra-resistente.

Mato a cobra e mostro o pau: quando estava no primário a professora mandou ( sempre mandam a mesma coisa..) plantar um milho pra depois trazer o pezinho pra aula ( do milho, que o meu pé nunca foi pezinho, nem mesmo aos 7 anos!).

Eu plantei. E durante mais de uma semana, tirava o milho da terra todos os dias pra ver como a coisa ia.

E não é que foi? O bicho não morreu, apesar desse tratamento. Deu mesmo um pezinho, cresceu e deu até uma espiga! Que eu não comi, porque não gosto de milho, mas quem comeu disse que foi a melhor espiga já comida. (minha vó, que me adorava, claro).

Taí, gostei! Desde essa época tenho uma admiração incrível por milho. Um forte, tal como o nordestino.


maio 13, 2006

melô da melanina

Viver é acumular marcas. Por dentro e por fora. As várias no queixo, de quedas frontais. Nos joelhos. Nas canelas. Como doem as marcas na canela!

Um dia levei minha mãe à dermatologista. Fazia muito tempo que não via minha mãe em roupa de baixo. Calcinha e soutien e uma pele mais alva que bebê. Sem manchas, sem pintas. Só uma grande, nas costas, em formato de cruz borrada. “A cruz que eu tenho que carregar”, segundo ela sempre dizia, olhando a todos em volta, numa alusão bem explícita de quem botara essa “cruz” nas costas dela. Gostava de reclamar, minha mãe. Como aquelas mulheres que passam a vida pedindo ao companheiro que reafirme seu amor a todo momento, minha mãe reclamava pra todos dizerem, veja bem, não é assim, a gente gosta de você, a gente achou a comida maravilhosa, você tem razão, como você é boa e sofredora, etc, etc.

Mas eu estava falando de pintas, manchas e peles. A mãe entrou aí porque domingo é dia delas e eu lembrei da minha, morta há tão pouco tempo.

Minha mãe nunca tomou sol, daqueles que a gente tomava aos 18 anos. Numa época em que não se usava protetor nem filtro. O que se usava era toda espécie de óleos bronzeadores, coca-cola, iodo, urucum, e o diabo que alguém indicasse pra torrar. Eu usei de um tudo. Desde o “rayito de sol”, pasta marrom de procedência duvidosamente argentina até óleo johnson misturado com iodo e coca-cola. Não, não bronzeava, mas queimava deixando uma casca dura como pergaminho de museu. Isso nos idos de 70. Porque hoje, 30 anos depois, pago o preço. Tenho de um tudo: sardas, manchas brancas (falta de melanina) e marrons (excesso de melanina) e outras no meio do caminho (melanina indecisa). Deve ter aumentado muito também minha probabilidade de vir a ter um câncer de pele. Por ironia do destino, quem teve câncer de pele foi minha mãe.

Achava-se (ainda se acha, neste país) lindo pele bronzeada. Mas que fique claro, só bronzeada. Os negros continuam sendo discriminados. Este é o país do bronzeamento artificial mas não da integração racial. É o país do “sol pra todos” mas não da distribuição de renda. É um país de contrastes, pra repetir o chavão. Como minhas manchas brancas e marrons.

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maio 11, 2006

maturidade, afinal!

Tá, já passei pela fase que quase todo mundo já passou de lamber a tigela em que a mãe fez a massa de bolo. Principalmente se for de chocolate.

De botar o dedo em lugar que diz tinta fresca.

De virar o pescoço imediatamente tão logo alguém diz: não olhe agora, mas...

De lamber o dedo pra virar folha de livro ( ainda bem que passou logo essa!)

De cutucar o nariz dentro do carro quando o farol fecha;

De comer unha, dedo, ponta de caneta bic, lápis número 1, cartão de telefone no cantinho;

De espremer cravo, espinha, berebas em geral minhas e de amigos(as) íntimos;

Mas uma coisa não dá pra passar. E me mata de vergonha mas continuo fazendo: botar o dedo no fundo da xicrinha de capuccino da Kopenhagen pra lamber depois...

É toda uma técnica. Antes eu olhava para os lados, pra ver se ninguém estava olhando. Daí pensei: bom, se eu desviar os olhos dos outros e chupar o dedo, nesses breves segundos alguém pode olhar pra mim e eu não estarei vendo...

Ultimamente tenho pensado que se alguém olhar, merda! Já passei da idade de me justificar.

Mas outro dia em que fiz isso levantei os olhos saciada e satisfeita e dei de cara com um garotinho me olhando, fascinado.
Foi mal. Que exemplo devo estar dando ( do gerundismo e da lambança...) pensei com meus dedos lambuzados...

Daí não tive alternativa: mantive o olhar nele e mostrei a língua!
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será que ele também comia lápis número 1?

maio 9, 2006

a grama do vizinho

Recebo um comentário de um garoto de 16 anos. Me faz uma pergunta que podia perfeitamente ter feito aos pais. Mas provavelmente não fez.

Lembro que eu também costumava fazer isso, na minha adolescência. Os “meus” pais eram a vanguarda do atraso e do moralismo, mas os pais das minhas amigas eu achava o máximo, a maioria deles.

Por isso não acredito muito em conflito de gerações. Acho que o conflito é de uma geração específica, aquela que habita a mesma casa que nós.

Quando eu toco com a garotada não sinto nenhum tipo de conflito, e olhe que eu podia ser mãe da maioria deles. Quando danço também não.

Não sou uma pessoa do tipo jovial, daquelas que todo mundo diz: nem parece a idade que tem! Eu pareço a idade que tenho ( e que não vem ao caso..) e sou relativamente séria. Mas costumo me dar bem com adolescentes. Até já dei aula pra eles, numa boa. A gente se divertia, embora eles não entrassem no meu mundo nem eu no deles, mas a gente tinha o maior diálogo. Não como “iguais”, mas como uma mulher mais velha e a rapaziada teen da época.

Os adolescentes precisam testar limites. E a gente precisa ir soltando a corda. Minha filha usava a seguinte imagem: dizia que eu ( e o pai) éramos como sapato apertado, que a medida que o tempo vai passando, vai laceando e ficando confortável. Acho que é essa a idéia.

Por isso entendo esse rapaz vir me perguntar uma coisa dessas. Deve ter me achado mais razoável que os pais.

Mas devo te alertar, meu amigo de 16 anos: provavelmente sou igual aos teus pais. E você deve ser parecido com meus filhos.

A grama do vizinho só parece mais verde por uma ilusão de ótica. Quando a gente vai lá perto ver, o verde é igualzinho...

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maio 5, 2006

o que o cu tem a ver com as calças?

Coma tudo, não deixe nada no prato. Tanta gente passando fome no mundo e você desperdiçando comida..!
Por que não pega uma criança pra criar, em vez de cachorros de rua?

Essas duas frases, digamos assim, ou mantras, tal a intensidade com que são repetidas mundo afora por mães em particular e abelhudos em geral, já as ouvi centenas de vezes.

Desperdiçar comida. Pras mães do mundo ( eu inclusa) as crianças devem limpar os pratos. Sob pena de não crescerem, de faltarem neurônios, do papai noel não trazer presentes, de não arranjar emprego, das garotas(os) nunca se interessarem, do estômago ficar pequeno e não caber mais nada depois, nem sorvete.

Tenho vergonha mas assumo que eu mesma disse algumas dessas preciosidades pros meus filhos. Também chantageava com a possibilidade de ficar muuuito triste, se eles não comessem tudo.

Comeram. Cresceram cheios de saúde e neurônios. Têm empregos e garotas(os) se interessam por eles. Papai Noel nunca lhes faltou e nos estômagos deles cabe muuuito sorvete, sim.

E assim caminha a humanidade. Eu acho tudo isso uma bobagem, mas na dúvida acho que vou repetir a lenga-lenga pros meus netos.

Já a questão de adotar bichos mais do que crianças não tem nem o que dizer. É como quando meus amigos de esquerda diziam pra ter paciência com as questões feministas, que tudo tinha seu tempo, que após a revolução se cuidaria disso... Eu, heim?

Tenho vira-latas que são tratados quase como filhos ( brigo mais com os filhos..) mas não pretendo adotar uma criança. E são coisas incomparáveis.

Como a fome do mundo. Porque infelizmente, mesmo eu tendo comido tudo do prato, a fome do mundo continua igual.

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foto da "filha" tirada pelo filho.


maio 3, 2006

bate-volta

Antes de saber dançar eu queria saber dançar. Quando garota, havia uma vizinha duas casas depois da minha que dava bailes quase todos os sábados. Eram espanhóis. Havia a esposa, o marido: o “seu” Jaime, que por conta de um AVC não falava mas se manifestava muito bem.
Os espanhóis, como os italianos, falam com a voz e com o corpo. Então, na falta da voz, ele usava o resto com perícia. Vinha toda semana em casa pra meu pai comprar pra ele bilhetes de loteria. Acho que a família não gostava que ele fizesse isso e meu pai se tornou seu cúmplice. E ficava horas conversando com minha vó. Minha vó, italiana, usava a voz, que o corpo ela tinha muita dificuldade de mexer, com artrite. E seu Jaime usava o corpo. E batiam o maior papo.

Voltando aos bailes, havia mais duas filhas e um filho. A mais velha, Lolita, trabalhava dançando em alguma casa noturna. Tocava castanholas muito bem e dançava flamenco. Era “mal vista” pelas mães da redondeza, por conta disso. E era linda, é claro.

E eu gostava muito de ficar olhando aqueles bailes, aquelas cantorias. Olhava, olhava, prestando a maior atenção que podia aos pés, aos passos.

Não conseguia aprender. Tenho a maior dificuldade em olhar uma coisa e repetir. Jogos de armar, geometria, quebra-cabeças, são todos mistérios da pior espécie pra mim. Tendo a fazer, com o corpo, a imagem especular daquilo que vejo. E uma dificuldade razoável pra saber onde é a direita e a esquerda...

Foi preciso muito tempo, quase quarenta anos depois, pra eu finalmente ir fazer um curso de dança. E me apaixonar pela coisa.

E foi no tango que eu me realizei. Porque no tango não preciso saber fazer muita coisa, além de acompanhar o homem, que é quem comanda. Só saber sentir, seguir o passo, deixar tudo “molinho” pro homem guiar.

Ando tentando transmitir isso também pra vida. Não o lance do homem me guiar, que eu não abro mão do meu livre arbítrio, o bem mais precioso que tenho, por conta do qual não gosto nem de tomar remédios nem quaisquer drogas. Adoro meu livre arbítrio! Mas isso de “ficar molinha” e deixar a vida levar. A vida vem, dá o maior tranco, você finge que vai mas não vai, volta! Molinha.

No dia em que aprender isso sei que vou ser mais feliz. Ou, pelo menos, ter menos hematomas pelo corpo, nessas porradas que a vida dá.

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