vida loca
Costumo, para efeito didático somente, dividir o mundo em gente que me dá medo e gente que não dá. Didático pra mim mesma, que pros outros é meio complicado de explicar.
Gente que dá medo é aquela que não tem dó nem piedade de ninguém. Que tem a terra e todos os planetas girando a sua volta. Que fala muito difícil e abusa de citações. Que tem escrito na cara, nas roupas, nas unhas dos pés e no esmalte dos dentes a “fina estirpe”. Que não olha os outros à sua volta, mas sopesa, cheira e mede. Gente que traça caminhos retos e tem o olhar altivo.
Gente que não dá medo é gente com verruga. Gente com manchas de pele. Gente que ri com os olhos e torce as mãos. Gente que tropeça e fica vermelho. Gente que tem vergonha e gente sem-vergonha. Gente que tem pra com os outros mais do que olhares, abraços.
Às vezes eu gosto muito de um tipo de gente e não gosto de outro. Já há dias em que é bom ter medo.
Fellini não dá medo. Buñuel dá. Gosto dos dois.
Garcia Marquez não dá medo. Trevisan dá. Gosto dos dois.
Toulouse não dá medo. Picasso dá. Gosto dos dois.
Palloci não dava medo. Mantega dá. Não gosto de nenhum dos dois.
Pantera dá medo. Urso não dá. Não pretendo encontrar nenhum dos dois.
Raposa e lobo não dão medo. Mas não gosto.









