o rato da gertrude stein
Meu primeiro rato era branco. Olhos vermelhos, rabo comprido. Podem dar um nome a eles, se quiserem, disse a professora. Eu não quis. Meu primeiro rato nunca foi ninguém na minha vida. Peguei com as mãos - vá lá, a pontinha dos dedos - ensinei algumas coisinhas, o que não é vantagem nenhuma, se você priva o infeliz de comida e água. Bater numa barra é o mínimo que se espera. Até eu, nas mesmas circunstâncias, cobriria a tal barra de porrada, por comida e água.
Depois esqueci o rato. Por longos e longos anos.
De vez em quando um ou outro rato se atreveu a entrar aqui em casa. Encontrei todos mortos. Minhas cachorras podem ser mansinhas e bobonas, mas são eficientes no quesito caça ao rato marrom pequeno comendo a ração delas no prato.
Depois aconteceu da minha filha fazer biologia. E se dedicar com afinco, paixão e cuidados aos porquinhos da índia e preás. Uns ratos mais metidos a besta, vamos combinar.
Daí tive que hospedar alguns aqui em casa. Hospedei até gerbios cuja dona saiu de férias. E fui olhando essas variações roedoras com outros olhos.
E fui achando até simpáticos ( adoro porquinhos da índia), e fui dando nomes, e fui descobrindo nuances psicológicas instigantes e comportamentos mais ainda.
Até que outro dia, como se não bastasse a bagunça aqui de casa, com a reforma, me entrou um rato dentro do motor da geladeira e lá ficou. Marrom, tamanho médio, sem nenhum sinal característico e aposto que atendia pelo nome de Ratus de esgotus.
Foram minutos de lateção das cachorras, desesperadas porque não conseguiam meter a pata lá. De movimentos meus também desesperados porque não conseguia meter a vassoura lá. De olhares de absoluto desprezo do maridão porque nem morto ia meter o bedelho lá, e de pedidos lancinantes da filha que achava uma malvadeza a gente querer tirar o bicho de lá.
Foram segundos pra toda uma simpatia que custou anos pra se firmar, desmoronar.
E instintos assassinos que nunca julguei possuir virem a tona.
Um rato é um rato, é um rato, é um rato. E eu, Gertrude que me desculpe, de rosa não tenho nada.

Comments
Ratos! Pior que isso só acordar com uma barata passeando na sua perna!!! herg!!!
Posted by: Gustavo Guilherme BacK | abril 13, 2006 2:44 PM
Ah, como é bom arrumar um motivo mais que justificável para canalizar a agressividade, né?
Ele morreu? Se não, manda passar lá em casa. Tô precisando MUITO canalizar a minha.
beijos
Posted by: Ju Geve | abril 13, 2006 6:50 PM
Diante de ratos e baratas me torno irracional. Vai-se por água abaixo toda minha antiviolência e surge a assassina.
Posted by: Sonia | abril 13, 2006 10:44 PM
Esqueci de comentar que se ratos são nojentos, seu jeito de escrever sobre eles "quase" os torna simpáticos.
Posted by: Sonia | abril 13, 2006 10:46 PM
Mickey Mouse. Taí um ratinho simpático.
Posted by: Allan | abril 15, 2006 3:26 AM
Ratos...Eu também já os tive. A um deles, talvez porque à época andava caído de amores e, romântico tolo e tonto, chamava-o Pablo Neruda como se o nome do poeta por perto explicasse os desatinos sentidos. Um dia, em sanha não assassina mas quase, livrei-me de todos: Leiloei Pablo, o rato; Esquecí na gaveta o Neruda poeta e fui me apaixonar por quem nutria desapêgo a um e raiva ao outro.
Posted by: Luiz | abril 17, 2006 12:22 PM