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Lapa na memória

Eu quis voltar lá. Não como quem procura reencontrar a infância, que naquela altura eu tinha menos de 30, ou seja, quase nada.

Eu quis voltar lá pra rever lugares, cheirar cheiros, ouvir sons, quem sabe encontrar alguém que já tivesse conhecido.

Sabia de cor o número e a rua. Mas que diabos fizeram? Clonaram a rua? Era rua calma, tão calma que eu tinha até permissão de brincar nela. Punha na calçada ou na varanda minha cadeirinha de palhinha e ficava lá, fazendo caras e bocas e tentando matar de inveja a vizinhança, representada pela Raquel, aquela chata, a quem eu tive, anos mais tarde, o prazer de dar o nome pra minha tartaruga, aquela outra chata.

Nada mais estava igual. O sobradinho sim, acho que nem a cor mudara. Anos e anos da mesma cor acinzentada, que parece já ter nascido velha e feia.

A rua estreita, cheia de carros.

A Raquel? Sei lá da Raquel. Será sempre uma imagem na lembrança. Uma imagem irritante, pelos anos a fora que a vida me reservar. Pode-se esquecer um amor, mas um desafeto, ah, isso não se esquece fácil.

Mas o pior foi descobrir que o coro de anjos que me acalentava as noites, aquelas vozes que pareciam vir diretamente do céu pra me por pra dormir, vinham mesmo é de uma igreja batista, vizinha do sobradinho. Hinos panfletários, berrados em acordes dissonantes e bateria estridente. O que fizeram com aquelas vozes celestiais, com aquele vento que balançava a cortina do quarto no verão, com aquele cheiro de dama da noite? O que foi feito das minhas lembranças?

Antes não tivesse voltado. O sobrado apequenou, a rua estreitou, tudo ficou velho e feio.
Tudo?

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Comments

Incrível como as coisas encolhem quando a gente estica, né? Tive impressões parecidas com lugares da minha infância.
"Escuta... mas cadê aquele salão imeeenso, aquele jardim sem fim que havia aqui?"
Continuam aí, Jú. Quem cresceu foi você.
Triste apenas constatar que ao atiçar uma lembrança dessas, a realidade nunca supera a memória.
Beijos,
JU...

O problema é que às vezes não são as coisas que mudam. Somos nós.

também me senti assim quando há uns tempos voltei ao recreio da minha escola primária. Eu que me lembrava de um campo enorme, gigante, deparei com um pátio pequenino que com os anos perdeu as árvores e os vasos de plantas. até a escola estava mais pequena...

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